Pescando na chuva: Morador da Ribeira transforma rua inundada em lagoa

salvador
08.07.2021, 06:00:00
Atualizado: 08.07.2021, 07:12:24
Seu Jair filmou o vizinho pescando na rua alagada (Nara Gentil/CORREIO)

Pescando na chuva: Morador da Ribeira transforma rua inundada em lagoa

Seu Jair cansou dos alagamentos onde mora e chamou amigos para gravar protesto

A chegada do inverno e da temporada das chuvas em Salvador representa transtorno para muita gente que vive em áreas sujeitas às intempéries. A maioria das pessoas que sofrem com os alagamentos, por exemplo, se desespera. Mas, um morador da Ribeiro fez diferente: usou a ironia e o bom humor para protestar contra o problema recorrente na região onde mora. Seu Jair Vilas-Boas chamou alguns amigos e gravou um vídeo do seu vizinho simulando uma pescaria nas ‘lagoas’ que se formam no asfalto. As cenas, com direito a carros passando ao fundo do ‘lago’ improvisado, viralizaram nesta quarta-feira, 07, nas redes sociais. 

Se Gene Kelly pode cantar na chuva no clássico de Hollywood dos anos 1950, para Seu Jair e os amigos, pescar debaixo de um toró, no meio da rua, é moleza. “Ao vivo, o rapaz pescando aqui, tá vendo? A nossa situação é essa, assim que a gente vive, nunca resolvem esse problema de alagamento da rua, tá demais”, diz ele, na gravação.

Como retratado pelo morador da Ribeira, o alagamento não é uma situação inusitada na rua Juçara e, apesar de ter sido visto como cômica pelos internautas que compartilharam o seu vídeo, ele afirmou à reportagem que não gravou as imagens pela piada. “Não é piada não, foi um protesto pelo alagamento da rua”, afirmou.

Nos últimos 10 anos, após qualquer garoa, o local já se torna inviável para pedestres, que só conseguem passar depois que o nível de água diminui. A enxurrada ainda invade as casas, estraga os móveis e tira a paz de quem vive na região. Antes da pandemia, os alagamentos motivavam até a suspensão das aulas na Escola Descobrindo Brincando, situada na rua Juçara. De madrugada, os moradores tentam colocar objetos nas entradas das casas para bloquear a chegada da água, mas não têm sucesso na empreitada.

“A ida e vinda fica prejudicada na rua, o colégio suspendia as aulas antes da pandemia, tem um cadeirante que não pode sair de casa. Comprei até uma bota sete léguas para andar aqui enão posso nem trazer minha mãe para visitar minha casa”, relata Carlos Bonfim.

O morador conta que isso se tornou recorrente depois da realização de obras na região. De acordo com Carlos, e com Arlete Oliveira, outra moradora, após a construção do Hotel Ribeira, na rua perpendicular à Juçara, as águas não escoam mais até a praia, como acontecia antes.

Moradores contam que obra em área próxima prejudicou drenagem na rua Juçara

(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

“Para sair daqui, só de caiaque, não tem condição nenhuma. Prefeitos e vereadores vem aqui na época da eleição dizendo que vão resolver o problema, mas até agora, nada”, afirma Arlete.

Após tentarem protestar de outras formas, mas sem sucesso, o vídeo foi, até então, a forma mais chamativa que os moradores encontraram para mostrar o tamanho do problema que enfrentam. Carlos conta que a resolução dos alagamentos já foi orçada pela prefeitura algumas vezes, mas ele ainda tem a esperança de conseguir reunir os moradores em uma votação na prefeitura-bairro, para uma obra de drenagem da Avenida Porto dos Mastros, onde fica o hotel.

“Tem a plataforma da prefeitura-bairro, Ouvindo Nosso Bairro, que os moradores têm que votar para tentar solucionar a resolução, então estou tentando reunir as pessoas assim. Paliativo não dá mais”, diz.

A Secretaria de Manutenção de Salvador (Seman) afirmou, em nota, que irá mandar uma equipe ao local para analisar a situação.

Tempo ruim

A Defesa Civil de Salvador (Codesal) registrou 43 ocorrências até às 16h30h de ontem. Foram dois alagamentos de imóveis, 18 ameaças de desabamento, uma ameaça de desabamento de muro, sete ameaças de deslizamento, uma árvore caída, uma avaliação de imóvel alagado, um desabamento de muro, dois desabamentos parciais, três deslizamentos de terra, seis infiltrações e uma orientação técnica.

Ainda segundo o órgão, a atuação de um cavado sobre o litoral do Nordeste, somado a uma convergência de umidade, tem favorecido a ocorrência de chuvas de intensidade entre fraca e moderada. Durante a noite, as chuvas deverão ocorrer de forma periódica na capital. Mas a previsão é que a partir desta quinta, 08, ocorra uma tendência das chuvas diminuirem gradativamente.

Nesta sexta, 09, a convergência de umidade ganhará força, aumentando as chances de chuvas, com risco para deslizamentos de terra, devido aos acumulados registradas dos últimos dias. Para o sábado, 10, e o domingo, 11, a previsão é de céu nublado a parcialmente nublado com chuvas fracas, por vezes moderadas. 

O tempo deve permanecer instável até a próxima semana, segundo o Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cemadec).
Ainda de acordo com o Cemadec, os maiores acumulados de chuvas das últimas 24 horas foram registrados em Campinas de Brotas (36.2mm); Retiro (35,4mm); Calçada (33,6mm), Matatu (33,0mm) e Capelinha Vila Picasso (31,0). 

A Codesal, que integra os serviços essenciais do município, permanece com o plantão 24 horas e atende às solicitações pelo telefone gratuito 199.

*Luana Lisboa, orientada pela chefe de reportagem Perla Ribeiro

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