Pesquisas baianas deixam frutas mais saborosas

economia
27.08.2018, 06:00:00
((foto: Rodrigo de Azevedo))

Pesquisas baianas deixam frutas mais saborosas

​​​​​​​Cientistas da Embrapa Mandioca e Fruticultura participam de jornada para divulgar mais de 90 trabalhos

Começa hoje (27) em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, a 12ª Jornada Cientifica da Embrapa Mandioca e Fruticultura. Durante cinco dias vão ser apresentadas mais de 90 estudos. Todas as linhas de pesquisa são voltadas para ajudar os agricultores em problemas do dia a dia, unindo ciência e alimentação. 

“Os estudos indicam soluções para melhoramento genético, biotecnologia, sistema de produção e manejo integrado de doenças”, afirma Francisco Laranjeira, pesquisador e coordenador da Jornada. O tema principal deste ano é o Cientista Profissional. “Queremos mostrar que a vida do cientista vai muito além de estar em uma bancada de laboratório, fazendo experiências com tubos de ensaio. Ser cientista é muito mais que isso. É ter comprometimento, ética, rigor, verdade. Estas não são palavras jogadas ao vento. São qualidades que se deve usar como roupa. São requisitos para quem quer se tornar um grande cientista”, completa Laranjeira.

O CORREIO listou alguns dos trabalhos realizados na unidade e que serão apresentados na jornada. Eles são desenvolvidos para solucionar problemas frequentes nos pomares com o objetivo de aumentar a resistência e produtividade das lavouras, evitando o uso de defensivos agrícolas prejudiciais à saúde do solo, das plantas, dos agricultores e dos consumidores. E também melhorar os sabores das frutas, contribuindo para aumentar o consumo de alimentos saudáveis. 

Banana

Aos 30 anos, Manassés Santos Silva é taxativo. “Eu não consigo viver sem ciência e sem pesquisa”, diz o cientista. Todos os dias, ele reserva mais de dez horas por dia para estudar a influência da temperatura na produção de sementes de banana. “A bananeira tem sementes e elas são difíceis de germinar. Estamos buscando uma forma de estimular esta germinação”.

A pesquisa começou em 2014, e deve durar pelo menos mais seis anos. “Sou fanático pela natureza, pelo meio ambiente, apaixonado pela biologia. A cada dia tem algo novo e interessante para descobrir no mundo. Eu amo ser cientista. Eu me sinto como uma ferramenta de inovação na agricultura”, acrescenta Manassés. 

A pesquisa faz parte de um Programa de Melhoramento Genético criado há mais de 40 anos. O núcleo desenvolve novas cultivares de frutas resistentes a pragas, mais produtivas e saborosas. É uma pesquisa considerada essencial. A Banana é a fruta mais consumida e comercializada no mundo. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial e só no ano passado produziu 7 milhões de toneladas.

Pesquisador quer desenvolver variedades de banana mais saborosas e cheirosas (foto: Rodrigo de Azevedo)

“Nós desenvolvemos novos cultivares tanto de interesse do produtor, como do consumidor. Estamos pesquisando como combater doenças que limitam a produção da banana, como a sigatoka negra. São doenças como esta que obrigam o produtor a usar mais fungicidas. Queremos desenvolver variedades que permitam ao agricultor usar menos produtos químicos para fazer o controle de pragas. Mas também fazemos cruzamentos com plantas diferentes para produzir frutos mais saborosos e cheirosos”, acrescenta Edson Perito Amorim, coordenador do programa e cientista há mais de 20 anos.

Mamão

Já pensou em extrair da folha do mamão uma substância capaz de combater doenças e pragas nas lavouras?. É o que esperam os cientistas da Embrapa. “Nós estamos buscando uma alternativa para cuidar de doenças que prejudicam a qualidade do mamão após a colheita, como a antracnose. Acreditamos que a própria planta pode nos dar uma solução”, diz Eliseth Viana, 42 anos, doutora em microbiologia agrícola e coordenadora do estudo.

Ainda não há prazo para conclusão da pesquisa. A antracnose é uma doença causada por um fungo capaz de fazer murchar todas as partes da planta e necrosar caule e frutos. Muito comum nas lavouras, o fungo se tornou um desafio para a jovem estudante Luise de Oliveira Sena.

Eliseth e Luise trabalham no combate a doenças como a antracnose, que prejudicam a qualidade do mamão (foto: Alessandra Vale)

Aos 23 anos, a estudante de engenharia agrônomica da Universidade Federal do Recôncavo Baiano já participou de mais de quatro pesquisas científicas. Atualmente passa a maior parte do dia nos campos ou laboratórios estudando as ciências agrárias e os mamões. 

A bolsa de iniciação científica não passa dos R$ 400 reais por mês, mas nem de longe, o valor desestimula a jovem cientista. “Fazer ciência é uma forma de poder dar um retorno a sociedade. Nós trabalhamos com pequenos agricultores, é um público que merece este retorno. O estágio é apenas um incentivo para continuar”, pontua Luise.

Quem também se dedica ao mamão, preocupado em inovar a produção da fruta, é o professor Hermes Peixoto é também um dos coordenadores da pesquisa do SIMPMamão, um software lançado esta semana pela Embrapa. O dispositivo monitora pragas do mamoeiro e permite que o agricultor deixe de lado as antigas planilhas manuais.

O sistema é simples. Através de um dispositivo móvel, como celular ou tablet, o produtor preenche planilhas digitais com informações sobre a lavoura. Os dados obtidos no campo, como a quantidade de frutos doentes ou a presença de insetos, são sincronizados no sistema. O software analisa as informações e apresenta soluções de manejo para as pragas encontradas, indicando em quais áreas específicas devem ser aplicados os defensivos.

O uso do sistema pode significar uma economia de R$ 400 por hectare na pulverização. “A ideia é reduzir o número de aplicações e, consequentemente, diminuir o resíduo de agrotóxicos nos frutos. Quanto menos se aplicar esses produtos químicos, melhor para o meio ambiente e para quem está aplicando. Segundo os estudos, o monitoramento, agora disponível em software, chegou a reduzir até 50% das aplicações. Isso é 50% de economia para o produtor”, explica a pesquisadora da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Fabiana Sasaki.

A tecnologia faz parte da área conhecida como digital farming ou agricultura 4.0. O sistema foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores do Núcleo de Tecnologia da Informação da Embrapa em parceria com o estudante de Engenharia da Computação da Universidade Federal do Recôncavo, Andersoney Rodrigues. 

O programa vem sendo desenvolvido desde 2005 e já foi testado em cinco fazendas do Sul e Extremo Sul da Bahia, principais produtoras de mamão do Brasil.O instrumento é indicado para monitorar duas das principais pragas do mamoeiro, a pinta-preta e o ácaro-rajado. As duas são frequentes no Brasil. A pinta-preta é provocada por um fungo que provoca manchas pintadas na superfície do mamão e pode provocar a perda de 100% da plantação. Já o ácaro rajado destrói as folhas. O software já está disponível de graça no site da Embrapa.

Maracujá 

Não faz muito tempo que o irmão caçula de uma família de nove irmãos saiu de casa, na zona rural, para estudar. O filho de agricultores queria descobrir novas formas de produzir alimentos. Em busca disso, Onildo Nunes já rodou o mundo. Se formou em engenharia agronômica, se tornou mestre em agronomia, fez pós doutorado, e aos 40 anos é responsável pelo programa de melhoramento genético do maracujazeiro na Embrapa. 

“É uma coisa de amor. Uma vontade de conseguir algo que possa servir a sociedade. É uma paixão”. A Bahia é o maior produtor nacional de maracujá. Responsável por 50% da produção do Nordeste e cerca de 43% da produção nacional.

Atrás de soluções inovadoras para o cultivo da fruta, Onildo coordena várias pesquisas e uma equipe de 12 estudantes. Jovens interessados em seguir a carreira científica. 
São cientistas como Idália Souza dos Santos, de 28 anos. Ela pesquisa uma nova variedade de maracujá que seja resistente a CABMV, uma virose que endurece os frutos e pode diminui pela metade a produção de um pomar. 

“A ciência é união. A gente trabalha com o alimento e com pequenos agricultores, que plantam o que vai para a nossa mesa. A gente tenta melhorar o cultivo exatamente para isso. Para servir a muitas pessoas. A ciência também tem esta função. Faz a gente sair do nosso ego e começar a pensar nos outros. É uma ciência mais humana. Ser cientista é ser um apaixonado por mudar e melhorar a vida dos outros seres humanos”, diz a estudante bolsista do mestrado em recursos genéticos vegetais.

Centro de Excelência

A unidade da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano ocupa mais de 260 hectares no município. É o maior polo de pesquisa agrícola do país com foco na mandioca e na fruticultura tropical, especialmente nas culturas do abacaxi, laranja, limão, mamão, maracujá e banana, que estão entre as frutas mais consumidas no mundo. 

A instituição foi criada, exatamente, para desenvolver inovações tecnológicas que pudessem ajudar na produção de alimentos, na manutenção da produção agrícola e no combate aos problemas que afetam a agropecuária brasileira. Tem sido assim desde 1973. E esta ciência se torna cada vez mais necessária diante de fatores climáticos adversos, da falta de estrutura no campo, e das pragas e doenças que atingem as lavouras.

A Embrapa Mandioca e Fruticultura é a única do país e abriga atualmente mais de 70 pesquisadores e 220 estudantes, que se debruçam todos os dias sobre as ciências agrárias. Quem visita o local pode ver de perto, por exemplo, os chamados bancos de germoplasma. São áreas que guardam exemplares de alimentos do mundo inteiro. Só no espaço reservada aos citrus, existem mais de 500 espécies de laranjas e limões trazidos de várias partes do mundo. Um acervo gigantesco que vem sendo reunido há mais de 40 anos.

Tempo

As pesquisas podem levar décadas para serem concluídas. Mas o tempo é tratado como um aliado pelos cientistas. Que o diga o professor Hermes Peixoto, um dos fundadores da Embrapa. Aos 80 anos, o cientista trabalha todos os dias. Se envolve nas pesquisas com a mesma empolgação e curiosidade de um jovem iniciante.

O trabalho em conjunto é apontado como um dos segredos da sua longevidade. “Eu sempre trabalhei com equipe. Nunca sozinho. O trabalho individualizado não beneficia a ciência. Eu vivo dentro do laboratório, rodeado de jovens cientistas, e posso auxiliá-los. Eu me sinto realizado com isso”, diz o pesquisador, autor de mais de 150 livros, mestre em microbiologia agrícola e especialista em fitopatologia, que é o estudo das doenças das plantas.

Hermes Peixoto tem 80 anos e segue na ativa no fazer científico (Foto: Alessandra Vale)


Com 53 anos de trabalho, ele atua ao lado de 2 estagiários e 26 estudantes de graduação e pós-graduação. “Meu sonho era chegar a esta altura da vida e poder ser útil. E posso dizer que estou ativo e moderno”, acrescenta. Apesar dos cortes no orçamento que atingem os projetos e instituições de pesquisa de todo o país, o pesquisador demonstra confiança: “As pesquisas passam por um momento de muita dificuldade. Mas os projetos existem, as ideias também e as inovações surgem a todo momento”, finaliza o cientista.


 



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