Petroleiros baianos temem demissões e desabastecimento após venda da RLAM

bahia
27.04.2019, 17:00:00
Atualizado: 27.04.2019, 18:26:12
(Foto Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Petroleiros baianos temem demissões e desabastecimento após venda da RLAM

Protesto dia 30, em São Francisco do Conde, também citará aumento de preços

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Em resposta ao anúncio de desinvestimento da Petrobras na Refinaria Landulpho Alves (RLAM), os petroleiros irão realizar um protesto na próxima terça-feira (30) em frente à sede, localizada no município de São Francisco do Conde, no Recôncavo baiano. A categoria teme os impactos negativos da privatização da refinaria, como demissões em massa, aumento de preços dos comunistíveis e desabastecimento.

A companhia é a primeira do Sistema Petrobras no Brasil e a segunda do país em capacidade de processamento, responsável por 99,32% do refino de petróleo na Bahia e por 20% da arrecadação de Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do estado.

O anúncio da venda integral de oito refinarias foi realizada nesta sexta-feira (26) pela Petrobras. Ainda não há data para venda das unidades. O especial "O Petróleo era Nosso'", do jornalista Donaldson Gomes, já previu no início deste mês a venda da Refinaria Landulpho Alves (Rlam), em São Francisco do Conde, e também o arrendamento da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen), em Camaçari. 

Confira o especial 'O Petróleo era Nosso'

Além da RLAM, sofrerão desinvestimento pela Petrobras as seguintes refinarias: Abreu e Lima (RNEST), Unidade de Industrialização do Xisto (SIX), Gabriel Passos (REGAP), Presidente Getúlio Vargas (REPAR), Alberto Pasqualini (REFAP), Isaac Sabbá (REMAN) e Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste (LUBNOR).

A RLAM produz diesel, gasolina, querosene de aviação, asfalto, nafta, gases petroquímicos, parafinas, lubrificantes, GLP e óleos combustíveis.

O Sindicato dos Petroleiros da Bahia (Sindipetro) acredita que a venda da refinaria no Recôncavo trará impactos negativos à geração de empregos no estado já que, caso uma empresa privada possa comprar a refinaria, pode reduzir o quadro de funcionários. Atualmente, 870 trabalhadores concursados trabalham na refinaria e outros 1.200 terceirizados atuam no local.

“O número é ainda maior quando você vai ver a cadeia produtiva do entorno, o serviço, a manutenção, o transporte, a alimentação, dentre outras. Dos concursados, poucas serão transferidos para outros estados e boa parte dos terceirizados serão demitidos. Uma outra parte será empregada na nova empresa por um tempo e ficará até transferir conhecimento e depois serão substituídas por profissionais com preços mais baixos”, analisou o diretor do Sindipetro Deyvid Bacelar, que destacou que esse processo ocorre em terceirizações de estatais no país.

A Petrobras, no entanto, argumenta que os projetos possibilitarão "dar maior competitividade e transparência ao segmento de refino no Brasil".

"As diretrizes estão de acordo com os pilares estratégicos da companhia que têm como objetivo a maximização de valor para o acionista, através do foco em ativos em que a Petrobras é a dona natural visando à melhoria da alocação do capital, aumento do retorno do capital empregado e redução de seu custo de capital", afirmou a Petrobras, em nota.

Os petroleiros ainda temem que o preço dos combustíveis e do gás de cozinha aumentem, além da diminuição na arrecadação de impostos.

"No caso da Bahia, além do próprio estado, municípios como São Francisco do Conde, Madre de Deus, Candeias e São Sebastião do Passé serão os mais prejudicados, não só pela diminuição dos impostos, mas também pela redução dos postos de trabalho, pois são nesses municípios  onde se concentram o maior número de trabalhadores terceirizados que prestam serviço à Petrobras", argumenta o sindicato.

O diretor do Sindipetro, Deyvid Bacelar, destaca que a empresa que se instalar no local não terá a mesma função social que a Petrobras tem como empresa estatal.

“Eles vão perseguir ainda mais a política de preços de paridade internacional e se o preço variar para cima, não terá como amortecer isso para que a população não sinta. Com isso, os preços ficarão ainda mais altos e as empresas não vão querer perder dinheiro. Fora que cidades com acesso mais difícil poderão ficar até desabastecidas, já que a Petrobras possuía um braço apenas para levar combustíveis para esses lugares por conta do papel social”, afirmou.

O funcionário da RLAM Atilla Barbosa já passou por outro processo de privatização durante sua vida. Ele era funcionário da Copene, que foi incorporada à Braskem. Em 2005 resolveu fazer o concurso da Petrobras para a RLAM e saiu da Braskem em 2006.

"Ser funcionário de uma estatal e de uma empresa privada é diferente. As relações de trabalho são diferentes, os objetivos comerciais são diferentes e a responsabilidade social também. O clima está muito ostensivo na refinaria porque a empresa disse que pode transferir a gente para outras regiões mas também que a refinaria será transferida operando. Isso quer dizer que algumas pessoas terão que ser mantidas no sistema para manter a planta operacional", disse.

De acordo com ele, o medo de demissão dos colegas é real e muito presente.

Em São Francisco do Conde, a atividade de refino de petróleo na unidade da Petrobras responde por 92% do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). 

O CORREIO tentou falar com a prefeitura da cidade, mas não obteve respostas até o fechamento da reportagem.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas