Plumbemia: contaminação por chumbo destaca Santo Amaro em ranking estadual de malformação fetal

bahia
06.10.2019, 07:00:00

Plumbemia: contaminação por chumbo destaca Santo Amaro em ranking estadual de malformação fetal

Além de ar, solo e água do Subaé, fetos sofrem com a contaminação por meio do cordão umbilical

Solo, carne, leite, peixe, plantas, ar, sangue. Nada escapa ao chumbo, metal pesado que expõem a risco a população de Santo Amaro há quase seis décadas. Desde 1960, quando a Plumbum Mineradora, antiga Cobrac, chegou ao município, com a promessa de modernidade, até os dias atuais, moradores da cidade do Recôncavo têm convivido com um inimigo invisível: a escória.

O contato diário com a substância ao longo dos anos levou cerca de 3 mil pessoas ao diagnóstico de contaminação por chumbo no sangue, em níveis muito superiores ao permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Entre ex-funcionários da empresa, por exemplo, ouvidos pelo CORREIO, em 1993, ano do fechamento da metalúrgica, foram encontrados até 80 miligramas por litro de sangue nos operários.

“As formas de contaminação são inúmeras e uma delas é por meio dos bois e vacas que pastam na região. A carne, leite, tudo é intoxicado”, explicou o médico e professor da Universidade Federal da Bahia, Fernando Carvalho. De acordo com ele, isso acontece por algumas razões, entre elas o fato de as gestões municipais terem utilizado escória de chumbo para calçamento das ruas e avenidas de Santo Amaro, o que faz com que o metal penetre nos lençóis freáticos e polua o solo e Rio Subaé, além de dois terços da escória ainda estar no pátio da fábrica, em condições nocivas à saúde. “Se não há proteção do material, ele é carregado pelo ar e expõe, por meio das vias aéreas, a população”, afirmou.

Fernando Carvalho
Foto: Brisa Dultra/CORREIO

A química da Ufba e estudiosa do tema há mais de três décadas, Tânia Tavares, destacou que o risco não se configura na exposição a curto prazo. “Uma garrafa de água feita de plástico contém chumbo, o esmalte também. No entanto, são níveis tão mínimos que, quando entram no organismo, se perdem. O que acontece em Santo Amaro é a exposição recorrente de toda a população ao metal, seja pelo ar, solo ou águas do rio. Tudo está tomado e não há como fugir, apenas se proteger”, destacou. A pesquisadora ainda mencionou que os cerca de 3 mil contaminados, se têm contato diário com o chumbo presente na cidade e na falta de tratamento adequado, muito dificilmente vão se livrar da “poluição sanguínea”.

A tragédia, que se iniciou nos anos 60, permanece causando efeitos até hoje. Os danos causados ao meio ambiente se desdobraram em contaminação e exposição da população, primeiro com reflexos nos ex-funcionários, que acabaram, sem intenção, levando material poluído para dentro das casas, colocando em riscos as mulheres, filhos e quem mais tivesse contato com a escória. Ainda quando as fumaças saíam da chaminé, hoje desativada, da Plumbum, os primeiros sintomas começaram a aparecer. “Foi quando grande parte dos ex-trabalhadores conheceram o termo saturnismo, uma doença que afina  os  braços, paralisa as mãos,  provoca dores agudas, causa impotência sexual nos homens e nas mulheres, aborto e  malformação fetal”, contou Fernando Carvalho.

Fábrica Plumbum desativada
Foto: Arisson Marinho/CORREIO

Além disso, por causa do excesso de metais na água e no solo, segundo o médico, outras doenças foram identificadas na população santamarense, como anemia, câncer de pulmão, lesões renais, hipertensão arterial, doenças cerebrovasculares e alterações psicomotoras. 

O que se sabe, no entanto, é que, independente de quais sejam os meios de contaminação, especialistas defendem que o município de Santo Amaro necessita, além de um plano de gestão ambiental, uma comunicação entre poder público, população e mídia, “porque, é inadmissível que os anos passem e nada seja feito”, disse o presidente da Associação das Vítimas da Contaminação por Chumbo, Cádmio Mercúrio e Outros Elementos Químicos (Avicca), Adailson Pereira, o Pelé. “Essa associação não pode só existir para colecionar certidões de óbitos”.

Pré-poluídos
Após desenvolver pesquisas no solo de Santo Amaro e nos animais, os professores Fernando Carvalho e Tânia Tavares decidiram analisar amostras de sangue na população chamada de vulnerável: mulheres grávidas e crianças. Nestas últimas, o contato frequente com o chumbo pode causar danos cognitivos irreparáveis, além de todas as outras doenças que acometem os contaminados. No entanto, a parte que mais chocou os pesquisadores foi o fato de as mulheres grávidas e que apresentavam contaminação por metal pesado no sangue oferecerem riscos ao feito. 

“Em Santo Amaro, 73% das mulheres tinham alterações cromossômicas. Isso não quer dizer que a mulher esteja doente, mas que ela pode transmitir doenças por meio da placenta, quando engravidam. Por isso, passamos a monitorar anencefalia e malformação do sistema nervoso de alguns municípios da Bahia”, contou Fernando. As pesquisas, no entanto, não possuem resultados atuais, tendo sido realizadas até os anos 2002. “Em São Francisco do Conde, Santo Amaro e Terra Nova encontramos casos semelhantes. São todas áreas industrializadas”, disse o professor.

Naquela época, Santo Amaro era a terceira cidade baiana com mais casos de mortalidade por anencefalia causada por anomalias congênitas e deficiência no sistema nervoso, atrás apenas de São Francisco do Conde e Terra Nova. No mesmo período, de acordo com Fernando Carvalho, a cidade do Recôncavo era a segunda em maior número de casos de mortalidade por anomalias congênitas no coração e aparelho circulatório. “A quantidade de crianças que nasciam com malformação era muito grande e as maternidades não estavam preparadas para aquilo”, disse. 

Os números comprovaram que o chumbo também atravessa a barreira placentária e pode causar danos fetais, tendo relação direta entre os níveis de chumbo encontrados na corrente sanguínea materna. A contaminação acontece por meio do cordão umbilical e até do leite, após o parto, mostrando que há transferência do metal para o feto ou recém-nascido, afetando não apenas a viabilidade do feto, mas também o desenvolvimento do bebê. Já ao se falar em malformação congênita do aparelho cardiovascular identificadas em crianças menores de um ano, Fernando explicou que Santo Amaro, até 2002, era a cidade baiana com maior índice, enquanto a capital estava na 10ª posição.

Como os dados das pesquisas só foram atualizados até o ano de 2002, o CORREIO, por meio de dados abertos do DataSus, do Ministério da Saúde, fez um levantamento do número de nascidos vivos no municípios baianos entre 1994 e 2016, constatando que Santo Amaro teve queda de 48,2% de nascimentos. “Isso pode ser ocasionado por duas razões: a primeira é que as mulheres não conseguiram mais levar a gestação adiante, tendo aumentado a quantidade de abortos, e a outra é quanto ao crescimento de fetos que nasceram sem vida”, afirmou o médico e professor da Ufba. A cidade do Recôncavo fica atrás apenas de Itororó, que teve queda de 59,6% dos nascidos vivos no período.


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Já se forem analisados os números de malformações congênitas que afetaram crianças menores de um ano entre 1998 e 2007, o DataSus revela que Santo Amaro é, em números absolutos, o 27º entre os 417 municípios baianos com maiores índices. Salvador ocupa a primeira colocação, seguida de Feira de Santana e Camaçari. Em comparação a São Paulo, por exemplo, Fernando Carvalho explicou que os níveis de chumbo encontrados em cordão umbilical de mulheres de Santo Amaro eram mais de 4 vezes maiores do que os detectados em gestantes da capital paulista.

Desta forma, o caso do filho de Moacyr Boa Morte, Eliomar, que hoje tem 29 anos, não é isolado na cidade do Recôncavo baiano. Os números de doenças causadas pela contaminação por chumbo e outros metais também não ficam restritas aos já nascidos. É uma herança que se recebe antes de vir ao mundo e com a qual se vai ter de conviver até a morte. “Não é necessário morar em Santo Amaro para sofrer com os efeitos do chumbo deixados pela Plumbum”, lembrou Fernando Carvalho.

A esperança é que a solução para amenizar este problema que vai completar 60 anos não fique mais passando de mão em mão no poder público, não morra à espera de uma sentença. O que os moradores esperam, sejam eles contaminados ou não, é que se possa, finalmente, enxergar e tratar do que sempre foi invisível.


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