Polícia Civil do Rio indicia Ramírez por injúria contra Gerson

e.c. bahia
04.02.2021, 17:15:00
Atualizado: 04.02.2021, 20:45:32
Ramírez será investigado crminalmente por suposto racismo contra Gerson (Felipe Oliveira/EC Bahia)

Polícia Civil do Rio indicia Ramírez por injúria contra Gerson

Em nota, polícia disse que coletou depoimentos, documentos e imagens da partida; Bahia critica postura da delegada

A Polícia Civil do Rio de Janeiro indiciou o meia Ramírez, do Bahia, por injúria racial contra o volante Gerson, do Flamengo. Um inquérito já havia sido instaurado um dia após a acusação feita no dia 20 de dezembro, após o jogo entre os dois times pelo Campeonato Brasileiro.

Em nota, a Polícia Civil informou que todas as testemunhas foram ouvidas e que o inquérito se baseou ainda na súmula e imagens do jogo que comprovam a indignação imediata de Gerson. "O conjunto probatório coligido em sede policial corroborou toda a dinâmica do fato e versão da vítima, desde o momento que disse ter sofrido a agressão injuriosa por preconceito até seu comportamento após o término da partida".

A nota também informou que Ramírez negou a acusação, afirmando que teria falado "joga rápido" ao atleta do Flamengo. "Após a decisão da Polícia Civil, o caso vai para o Ministério Público, que decidirá se apresentará denúncia ou não contra o jogador tricolor"

Além da esfera criminal, um outro inquérito foi aberto no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), no qual o órgão apura se oferecerá ou não denúncia contra o jogador do Bahia. No entanto, o caso deve ser encerrado, já que Gerson e os jogadores do Flamengo não compareceram na audiência em que prestariam depoimento sobre o caso.

O STJD avalia ainda punir o Flamengo pela falta caso fique comprovada a infração dos jogadores da equipe carioca. Vale lembrar que foi o próprio Flamengo que sugeriu a data dos depoimentos de Gerson, Nathan e Bruno Henrique, os dois últimos intimados como testemunhas.

Bahia contesta
Após a decisão da Polícia Civil do Rio de Janeiro, o Bahia emitiu nota oficial na qual lamentou o indiciamento de Ramírez e criticou a postura adotada pela delegada Márcia Noeli.

Segue abaixo a nota na íntegra:

O Esporte Clube Bahia vem a público lamentar o indiciamento do meia-atacante colombiano Indio Ramírez pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, muito embora a notícia não cause surpresa, tendo em vista as manifestações públicas preliminares da delegada do caso à imprensa especializada.

“Nosso jogador”. Assim ela se referiu ao volante Gerson, do Flamengo, responsável pela acusação – e que não compareceu ao depoimento perante a Justiça Desportiva -, indicando espectro de notória parcialidade.

O clube teve acesso à integralidade dos depoimentos colhidos no inquérito e pode afiançar à sociedade e à torcida tricolor que a decisão foi absolutamente despida de qualquer fundamentação probatória.

Em todos os momentos do episódio, o Bahia se comportou em busca da verdade dos fatos, sem desmerecer a palavra de Gerson, mas também considerando a presunção de inocência do seu atleta e a necessidade de se produzir prova robusta e incontestável.

Sem a apresentação de fatos novos, conforme aguardamos por mais de um mês, a diretoria tricolor seguirá apoiando Ramírez e tem convicção de será feita Justiça, ao tempo em que reafirma a sua posição de clube expoente da luta antirracista no futebol brasileiro.


Entenda o caso

Durante a partida entre Bahia e Flamengo, vencida pelo time carioca por 4x3, em dezembro do ano passado, no Maracanã, Gerson acusou o colombiano Ramírez de ter falado "cala boca, negro!".

No momento do suposto ocorrido, houve uma grande discussão no campo, que resultou também em acusação na esfera criminal, investigada pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

"O Ramirez, quando tomamos acho que o segundo gol, o Bruno fingiu que ia chutar a bola e ele reclamou com o Bruno. Eu fui falar com ele e ele falou bem assim para mim: "Cala a boca, negro". Eu nunca falei nada disso, porque nunca sofri. Mas isso aí eu não aceito", acusou Gerson em entrevista pós-jogo.

"Em nenhum fui racista com nenhum dos jogadores, nem com Gerson, nem com qualquer outra pessoa. Acontece que quando fizemos o segundo gol botamos a bola no meio do campo para sair rapidamente e o Bruno Henrique finge e eu arranco a correr e eu digo a Bruno que” jogue rápido, por favor”, "vamos irmão, jogar sério”. Aí ele joga a bola para trás e Gerson, não sei o que me fala, mas eu não compreendo muito o português. Não compreendi o que me disse e falei "joga rápido, irmão", se defendeu Ramírez.

Ramírez chegou a ser afastado das atividades pelo Bahia, enquanto uma apuração interna foi realizada pelo clube. na leitura labial feita por especialistas contratados pelo tricolor, foi constatado que o jogador não usou a palavra "negro" durante os diálogos.

Sem a comprovação de que o colombiano havia cometido a injúria, Ramírez foi reintegrado ao elenco do Bahia e vem sendo peça importante na luta do Esquadrão para escapar do rebaixamento.

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