Polícia prorroga inquérito sobre empresário espanhol morto por PMs

salvador
19.10.2018, 20:52:00
Atualizado: 20.10.2018, 21:15:50
Márcio Perez foi baleado na nuca e perdeu controle de veículo (Foto: Reprodução e Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

Polícia prorroga inquérito sobre empresário espanhol morto por PMs

Caso em Armação completou 30 dias e agora não tem prazo determinado

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A Polícia Civil prorrogou por tempo indeterminado, nesta sexta-feira (19), o prazo do inquérito que investiga a morte do empresário espanhol Márcio Pérez Santana, 41 anos, que foi morto com um tiro na nuca, durante perseguição policial no bairro de Armação, em Salvador, no mês passado.

Márcio estava chegando em casa e foi baleado ainda dentro do seu carro, um Fiat Palio (JNT-8918) branco, quando estava na companhia de uma mulher. O caso é acompanhado pela Corregedoria da Polícia Militar e pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil.

Márcio, que tinha nacionalidades espanhola e brasileira, era formado em Economia e sócio de uma empresa que presta consultoria a uma operadora de telefonia. Ele deixou duas filhas.

O inquérito completou 30 dias nesta sexta, prazo mínimo para que uma investigação termine, havendo a possibilidade de prorrogação - o que acabou acontecendo. Dois policiais militares estão envolvidos na ação e foram afastados das ruas. 

Da Espanha, um tio de Marcos, José Antonio Santana, gravou um vídeo para o programa Bahia Meio Dia (TV Bahia) pedindo justiça para o caso.

"Hoje faz um mês que Márcio foi morto em circunstâncias estranhas por dois policiais militares. Continuem lutando para que se faça justiça com Márcio e para que isso não volte a acontecer com nenhum cidadão espanhol. E, por último, peço ao governo brasileiro e ao governo espanhol que assumam a responsabilidade e dêem atenção às filhas de Márcio, de 9 e 13 anos, que passam por um momento de dificuldade econômica e emocional", disse na gravação.

Uma Missa de 30 dias será realizada pela família neste domingo (21) às 11h na Igreja do antigo Colégio Marista, no Canela.

O promotor designado a acompanhar o caso pelo Ministério Público do Estado (MP-BA), Davi Gallo, afirmou que a ação policial foi uma execução.

Após o inquérito policial ser concluído pelo DHPP, será enviado ao MP-BA, que tem como papel verificar se cabe ou não denúncia à Justiça. “Um tiro na nuca? Alguém atirou em direção a alguém e acabou matando. Foi uma execução”, disse Gallo.

“Ao meu ver, trata-se de homicídio qualificado pela impossibilidade de defesa, tanto que ele (Márcio) corre com o carro, acreditando que se tratava de um assalto, já que a viatura estava com o giroflex e os faróis desligados. A perícia deverá confirmar tudo isso”, completou o promotor, ressaltando que aguarda as investigações da polícia. 

Morte
De acordo com testemunhas, Márcio foi baleado próximo de casa, pouco depois das 22h. Ele manobrava o carro para estacionar, quando foi surpreendido por uma viatura da 58ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Cosme de Farias) que estava com os faróis e giroflex desligados. 

"Eles chegaram armados dizendo: 'Desce, desce'. Mas acho que Márcio não viu que eles eram policiais e tentou escapar e os caras começaram atirar e um tiro atingiu a nuca dele", disse uma mulher, amiga da vítima.

Pelo menos três marcas de tiros podiam ser vistas a olho nu no carro de Márcio - todas na direção do motorista: uma no para-choque traseiro, outra próximo ao cinto de segurança traseiro e mais uma no encosto de cabeça do banco traseiro, provavelmente resultado do trajeto do projétil que atingiu a nuca da vítima. 

Além das perfurações, o vidro traseiro estava quebrado e havia vestígios de sangue na lataria e parte interna do carro.

Relatos de testemunhas dão conta de que os policiais, autores do disparos contra o carro do empresário, estavam numa viatura da 58ª CIPM/Cosme de Farias - fato que chamou a atenção de policiais da 39ª CIPM (Boca do Rio), unidade que atua na área. 

Na ocasião, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA) informou que o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) apura em conjunto com a Corregedoria da PM a morte de Márcio. "Vamos investigar com celeridade e esclarecer como o fato ocorreu", afirmou, na nota, o secretário da Segurança Pública, Maurício Teles Barbosa.

O corpo do empresário foi enterrado em Ponte Caldelas, província de Pontevedra, na Espanha, onde Márcio nasceu - e onde moravam os pais da vítima.

Registro
A TV Bahia e o CORREIO tiveram acesso ao registro feito pelos militares após o assassinato, onde eles explicam o que aconteceu naquela noite. Segundo o registro, os PMs foram abordados por pessoas próximo ao antigo Centro de Convenções, por volta das 23h. Elas contaram que homens em um carro branco, modelo Fiat Palio, estavam realizando assaltos na região. Os policiais teriam identificado um veículo suspeito alguns metros à frente e ligaram a sirene da viatura, pedindo que o motorista parasse.

Ainda segundo o relato dos militares, quando os homens no veículo perceberam a presença dos policiais atiraram contra a viatura e tentaram fugir, o que deu início a uma perseguição com tiroteio. Os policiais contaram que o carro de Márcio surgiu no meio da confusão, em alta velocidade e colidiu no canteiro central. O caso foi registrado na 9ª Delegacia (Boca do Rio).


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