Por medo, motoboys e motoristas por app se recusam a entrar em bairros de Salvador

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02.03.2021, 05:00:00
Complexo do Nordeste de Amaralina é um dos lugares que prestadores de serviço evitam ao máximo (Arisson marinho/CORREIO)

Por medo, motoboys e motoristas por app se recusam a entrar em bairros de Salvador

Insegurança também tem afastado eletricistas e prestadores de serviço, deixando moradores na mão

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Mateus Santos Vitorino, 23, e Leonardo Santos, 27, não se conheciam, mas tinham em comum o ofício de motoboy. Os dois foram baleados quando faziam entregas em Águas Claras e Engenho Velho da Federação. Mateus se recupera no Hospital do Subúrbio e Leonardo não resistiu. Por conta desses e de outros casos, diversos serviços deixam de ser prestados total ou parcialmente em alguns bairros de Salvador. Com a implantação do lockdown parcial, quem vive nessas localidades fica sem assistência.

“Vários casos de assaltos e agressões. Isso todos os dias. Os bandidos tomam o celular, a moto, até as bags (mochilas) revistam quando o pedido é feito em ‘bocada’. Mandam abrir a bag porque acreditam que o entregador pode ser policial disfarçado”, diz Marcelo Barbosa, presidente do Sindicato dos Motoboys, Motociclitas, Mototaxista do Estado da Bahia. 

Além de quem mora em Águas Claras e no Engenho Velho da Federação, as pessoas também encontram dificuldades para receber desde uma simples pizza até pedir táxi ou transporte por aplicativo no Complexo da Mata Escura, Arenoso, IAPI, São Cristóvão e Palestina. 

Em Águas Claras, quem tenta pedir delivery sofre com recusas (Foto: Arisson Marinho)

Outro bairro na lista onde alguns serviços não entram por causa da violência é Valéria, que vem sofrendo com a guerra entre as facções Katiara e Bonde do Maluco (BDM). Desde novembro do ano passado, 21 pessoas já foram assassinadas no local.  “Quando ainda tinha pizzaria lá, estava com 12 funcionários. Antes de abandonar tudo por causa da guerra entre eles, só tinha trabalhando comigo três entregadores, porque os demais desistiram de trabalhar com medo de serem vítimas”, contou o ex-dono de uma pizzaria que fechou o estabelecimento.

Casos
O caso mais recente de violência a trabalhadores que prestam serviços à população em bairros considerados violentos aconteceu no dia 11 de fevereiro, quando Mateus Santos Vitorino, 23, saiu de empresa de entrega de petiscos em São Marcos para levar um pedido no Loteamento Condor, em Águas Claras. “Quando chegou, duas ou mais pessoas balearam ele nas costas. O bairro passa por uma briga entre duas facções e acharam que ele era informante do grupo rival”, declarou a dona do estabelecimento, Elisangela Santos de Andrade. 

Segundo ela, Mateus vem evoluindo na recuperação no Hospital do Subúrbio. ‘Ele ainda continua sem sentir as pernas, teve algumas febres, mas já está podendo receber visitas”, disse ela. Elisângela disse que vem perdendo os funcionários porque eles não querem mais entrar em alguns bairros. Ela tinha 15 entregadores e hoje está só com cinco. “Tem uma galera que prefere não entrar por mais que fale que a polícia está na nua, nada adianta”, declarou.   

No dia 10 de janeiro, o também motoboy Leonardo Santos, 27, saiu de uma casa de comida oriental no Calabar para entregar um pedido na localidade do Forno, no Engenho Velho da Federação. “Ele chegou a ficar com receio do local, mas o pedido foi feito por uma cliente antiga. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Leonardo foi morto lá e a moto foi encontrada dias depois desmanchada”, contou um primo da vítima, que também é motoboy e por uma questão de segurança preferiu não revelar o nome. 

Leonardo foi morto quando fazia uma entrega (Foto: Reprodução)

Ele, assim como outros colegas entregadores, não entra em locais que considera de alto risco. “Lá mesmo no Engenho Velho, só na principal. A mesma coisa é no Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e a Chapada do Rio Vermelho. Já no IAPI não entro de forma alguma. Muito roubo de moto, colegas já foram espancados e já levaram tiro”, contou ele. “Prefiro entregar mais em bairros nobres, porque o risco é menor, infelizmente. A gente sabe que as pessoas de bairros mais humildes precisam, mas estamos cansados de sermos vítimas dessa violência”, declarou.  

Motoristas de APP
Trabalhando como motorista de aplicativo desde setembro 2016, quando o serviço chegou em Salvador, Wesley da Silva, 37, já ouviu muitos relatos de colegas vítimas da violência e, com base nisso, garantiu que não entra em alguns bairros. “A Palestina é impossível. Muitos amigos já foram assaltados lá. No Engenho Velho da Federação só se não tiver jeito. A 300 metros da rua Apolinário Santana tem uma boca-de-fumo muito pesada, que os caras andam armados a qualquer hora. Em São Cristóvão, não entro na Fazenda Cassange e no Planeta dos Macacos, pois as duas são rivais”, contou ele. 

Motoristas evitam ao máximo entrar no Engenho Velho da Federação (Foto: Arisson marinho/CORREIO)

Nenhum lugar lhe causa mais pavor, no entanto, que Mata Escura. Foi lá, no dia 13 de dezembro de 2019, na comunidade Paz e Vida, que uma chacina marcou a categoria e suas famílias. Quatro motoristas de aplicativo foram espancados, torturados e depois assassinados. “Aquilo foi terrível para todo mundo. Para as famílias das vítimas, para nós colegas, para a sociedade. Foram trabalhadores brutalmente assassinados gratuitamente e sem chance de defesa”, disse Wesley.

O Sindicato dos Motoristas por Aplicativos e Condutores de Cooperativas do Estado da Bahia (Simactter-BA) disse que são muitos lugares de Salvador que a categoria não entra ou acessa apenas de forma parcial. “São locais onde o tráfico é mais agressivo. Mata Escura, onde houve a chacina, Palestina, o complexo do Nordeste de Amaralina ... É uma roleta russa. Pode ir e não voltar mais”, declarou um dos diretores da entidade, Átila do Congo.   

Os taxistas também fazem suas restrições. “Trabalho há mais de 20 anos e hoje sei onde devo e não devo ir. Por exemplo, não entro no Arenoso e nem no Boqueirão (Santa Cruz). Antes de sair, aviso: ‘só vou até a principal’. Não adiante insistir. Tenho amor à vida”, disse o motorista de táxi Manoel Anunciação, 60. No entanto, o presidente da Associação Geral dos Taxistas, Denis Paim, diz o contrário. “O taxista vai em qualquer lugar. Não tem essa dificuldade, até porque é um carro padronizado”, afirma Paim. Somente neste ano cinco foram assassinados.  

Outras categorias 
Outras categorias também resistem em acessar alguns bairros. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção e da Madeira do Estado da Bahia (Sintracom-BA), funcionários de uma empresa terceirizada da Embasa foram atender um chamado de moradores de Rio Sena, no mês passado, quando os três trabalhadores foram agredidos. “ A violência foi tão grande que os ataques continuaram mesmo com os trabalhadores já dentro do carro. O veículo ficou avariado”, declarou o presidente da entidade, Carlos Silva. Ele disse que tem chegando relatos de trabalhadores que evitam alguns locais por questão de segurança. 

Em nota, a Embasa disse que “sempre busca conciliar a prestação dos serviços à população com a segurança dos seus trabalhadores. Assim, nos casos em que porventura haja alguma dificuldade no acesso para realização de serviços, como em algumas situações de retirada de ligações clandestinas, por exemplo, a empresa busca dialogar com a comunidade, por meio de lideranças locais, para viabilizar a entrada. Como se trata de casos pontuais, não há dados estatísticos consolidados sobre o assunto”, disse a nota enviada ao CORREIO. 

No caso do fornecimento de energia, o CORREIO conversou com alguns funcionários de empresas terceirizadas pela COELBA. Eles são responsáveis por fazer manutenção elétrica em redes ou residências. “Na Suburbana é um problema. Ninguém quer ir. Quem é que vai sozinho no Bate Coração (Paripe)? Quem vai lá dentro da Lagoa da Paixão? Em Santa Luzia do Lobato? Nesses casos, a gente só entra com a polícia”, relatou um eletricista. 

A Coelba por sua vez, esclarece que, “em casos pontuais de dificuldade de acesso em determinadas áreas, os colaboradores são orientados a priorizar a segurança. Nessas situações isoladas, registradas eventualmente à noite, os empregados são orientados a retornarem para a base e realizarem o atendimento no dia seguinte. Se necessário, a empresa recorre a apoio policial ou entra em contato com líderes comunitários para intermediar a entrada das equipes técnicas para a realização do serviço. A Coelba trabalha para garantir o fornecimento de energia para a população, mantendo a segurança dos profissionais de campo”, disse nota.

Locais já ocupados pela polícia também assustam

Mesmo quando há a intervenção maior da Secretaria de Segurança Pública (SSP), os trabalhadores se recusam a entrar em alguns pontos de Salvador, como Sussuarana, Bom Juá e Engenho Velho da Federação, bairros já ocupados pela Polícia Militar.

“Mas é óbvio. Essas ações duram apenas alguns dias e a gente está lá o tempo todo”, diz o motoboy Antônio Francisco. 

Em julho do ano passado, o Engenho Velho de Brotas foi ocupado por unidades do Batalhão de Choque, Grupamento Aéreo (Graer) e Esquadrão Águia. As ações preventivas e ostensivas foram realizadas nas localidades do Forno e Baixa da Égua. A guerra entre as facções Bonde do Maluco (BDM) e o Comando da Paz (CP) deixou por 15 dias consecutivos o bairro nos noticiários policias.

“Mas não durou muito. A polícia tirou a base móvel de lá e os caras voltaram a agir, subindo e descendo com armas. Como é que entra? Infelizmente, as entregas para lá eu e muitos outros não fazemos”, acrescenta Antônio.

Em Sussuarana, quando a PM ocupou a localidade de Parque Jocélia, após um intenso confronto entre traficantes em dezembro de 2020, é que o motorista de app Jorge Luís Freitas, 25, conseguia entrar na região, mesmo assim com receio: “Não tem como se sentir seguro ali. Só para entrar já dá medo. Uma rua estreita que não tem outra saída. Se acontece algo, até para tentar fugir é impossível”.

Em dezembro, a PM reforçou o policiamento de Bom Juá e São Caetano, palco da guerra entre três grupos rivais.

“Medidas temporárias não resolvem o problema. A polícia tem que ficar mais tempo, de alguma forma. Se for lá agora, não encontra uma polícia. No dia, tinha viatura saindo até pelas janelas”, declarou o motoboy Fabrício Cruz, 35.

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