Por trás das bombas: histórias de quem é frentista em Salvador

salvador
29.05.2018, 03:00:00
Atualizado: 29.05.2018, 13:54:25

Por trás das bombas: histórias de quem é frentista em Salvador

Diariamente, vê-se à frente de toda sorte de gente. Praças de qualidade e entojados da mais alta estirpe, gentis e reclamões

O sinal de luz do carro pisca, bem próximo, e Wilson balança os braços em negativa. Sentado em uma cadeira de plástico, interrompe a conversa com os três colegas para repetir o movimento. Dessa vez, diz também a frase: “Não tem gasolina aqui não”. O motorista segue viagem, na Avenida Oceânica.

O quarteto continua o papo. “Trabalhar com esse do lado? Nem precisa, já dá um trabalho”, brinca o frentista, com uniforme e boné azuis, sobre o amigo, Fábio. Há três anos, trabalhava em São Paulo, como metalúrgico em uma fábrica. Nunca diria Wilson que o destino lhe reservaria um emprego como frentista. Das máquinas pesadas, agora é regente das bombas de gasolina.  

O posto onde Wilson trabalha, em Ondina, não teve gasolina na segunda-feira (28). Os veículos passavam, ele prontamente sacudia os braços. No marasmo do dia sem clientes, reflexo do oitava dia da greve dos caminhoneiros, não falta tempo para contar como saiu da cinzenta Santo Amaro, no ABC Paulista, como operador de máquinas, para chegar ali, em frente ao mar, como frentista.

Nasceu em Ipecaetá, distrito de Santo Estevão, no centro-norte da Bahia. Aos 18 anos, com ajuda de um primo, chegou à metalúrgica, produtora de peças de eletricidades para companhias como a Coelba. De lá, saiu apenas em 2015.

Wilson Fagundes, 43, ex-metalúrgico que se tornou, há cinco meses, frentista. (Foto: Fernanda Lima/Correio)

“Achei que fosse ficar em São Paulo até me aposentar. Doce ilusão. O sonho de todo nordestino é ir para lá. Quando chegamos, vemos: São Paulo é uma ilusão”, conta. Somente o amor foi capaz de trazê-lo de volta à Bahia, quase 20 anos depois. A esposa, aprovada em concurso no Hospital das Clínicas, precisava vir para Salvador. Assim o fez Wilson, sem emprego, uma nova história pela frente. Distribuiu currículos da Paralela a Barra. Foi chamado justamente para ser frentista. 

Diariamente, vê-se, agora, à frente de toda sorte de gente. Praças de qualidade e entojados da mais alta estirpe; gentis e reclamões. É a rotina do frentista, nova conhecida de Wilson.

“Tem gente que acha que temos que fazer tudo. Jogar água no carro, limpar. Nunca pensam que isso é uma cortesia, uma simpatia”, desabafa.

Cortesia, sim, porque dever, mesmo, é encher os tanques de gasolina ou álcool. Não nesta segunda, claro, por uma impossibilidade quase óbvia. Mas, Wilson é mais praça que entojado, reserva um sorriso para cada pergunta mais dura ou atitude desagradável. “Tem que estar feliz, né, não?”. 

Feliz até se não tiver clientes, se a frota de ônibus estiver reduzida, se a gasolina faltar. A reportagem pergunta o que Wilson acha da paralisação dos caminhoneiros, o motivo de tudo aquilo. “Rapaz... sou a favor de que tudo termine bem”, torce. A esposa vai busca-lo, quando terminar o turno, às 22h. Quando precisou pegar um coletivo do Cabula, onde mora, até Ondina, não houve problema. Mas, e o futuro, Tubarão (apelido do amigo frentista)? “Só Deus sabe”, ri ele. Só não se sabe o porquê. 

O frentista matemático

São milhões de Wilson’s no Brasil. O Departamento Intersindical de Estudo Sócio Econômico (Diesse) calcula a existência de 9,2 milhões deles. Na Bahia, segundo o instituto em parceria com o Sindicato de Trabalhadores em Postos de Gasolina, são 441 mil; em Salvador, 127 mil. No comando do abastecimento de carros, motos, caminhões e ônibus, também está Evandro* (nome fictício). Na região do Iguatemi, atravessa um grupo contrário ao governo Temer, um carro de som toca “Lute” (Vamos amigo, lute, vamos amigo lute uoh ), de Edson Gomes. Ao que o jovem de 22 anos comenta:

“Eu sinto é raiva. Quem bota eles lá [os políticos] somos nós mesmos. Ainda tem essa zoada. Zoada da porra”. 

Das 14h às 22h, desde os 19 anos, Evandro põe, indiretamente, os veículos para andarem. Agora, como trabalha em um dos poucos postos que alternadamente têm gasolina, o faz com ainda mais frequência. “É o dia todo isso aqui”, relata, em um dos poucos segundos de intervalo entre um(a) cliente e outro (a). Como já sabia que assim seria, desesperados por gasolina por todos os lados, Evandro dormiu 12 horas no dia de folga, neste domingo (27). O sorriso largo está sempre na boca, apesar da correria. E dos inconvenientes. 

“Aqui tem que suportar de tudo”, ri, ao ouvir um rapaz, sentando em frente à loja de conveninências do posto, reclamar de duas mulheres supostamente fura-filas. Logo depois, embala os planos para o futuro:

“Se eu te falar, você não acredita: todos os dias penso em fazer Matemática na faculdade”.

“É por ser fácil”, embala, outra vez, aos risos. Matemática é raciocínio lógico, ele diz, para completar, em seguida: Isso eu tenho muito”. Por isso, ele estuda pelo menos 50 minutos por dia para se preparar para o Enem. “Quero mesmo é ser professor de matemática”.

A história é interrompida por mais um cliente. Um jovem com blusa vermelha, bermuda jeans e chinelo está irredutível no pedido: “Velho, eu preciso encher esse galão de gasolina. Chame aí o gerente para eu falar com ele”. Evandro nega, ri da agonia do rapaz: “E o gerente vai deixar, nego? Se comigo você não tá conseguindo”. Lá, é permitido apenas abastecer o carro. Galões não podem ser cheios, apenas se tiverem o selo do Inmetro. “Mas, eu não ligo para nada não, pô. Não quero prejudicar, atrapalhar ninguém”, diz ele. No fim, o rapaz leva o galão cheio de gasolina para casa. Ninguém quer atrapalhar ninguém, afinal. 

O agente penitenciário do Rio Vermelho 

Na única hora de descanso da jornada de 13h40 às 22h, Adailton Lima, 30, repousa numa cadeira de plástico colocada ao lado de um posto de gasolina no Rio Vermelho. A gasolina chegou naquele dia, uma longa fila já se formava. “Aqui é de boa. Normalmente, não é estressante não. Mas quero algo melhor sim”, conta. Começou a trabalhar como frentista em 2017; antes era segurança de um shopping de Salvador. “O culpado fui eu, por ter saído. Não estava satisfeito”, diz. Bem ou mal, distribuiu currículos e foi chamado para uma profissão totalmente desconhecida. 

“A gente fala que é uma área nova, né? Que queremos aprender”, conta.

O verdadeiro incômodo de Adailton, morador de Narandiba, casado e pai de Yasmin, 4, é o desrespeito contra os frentistas. Imagine, ele conta, um colega recebeu, de um cliente, uma bofetada no rosto. “Para você ver como nos tratam. O que pensa uma pessoa que faz isso”, revolta-se Adailton. Tímido, começa a traçar planos para o futuro, portanto. A mãe ainda não sabe, mas Adailton quer ser agente penitenciário federal. Há 10 dias, comprou um livro para estudar para um concurso. “Bateu a vontade de dar o primeiro passo”, diz.

Dias depois do livro comprado, Adailton começou a ouvir as primeiras notícias sobre a paralisação dos caminhoneiros, iniciada no dia 18 de maio. Sem gasolina no posto, até esta segunda, era “só sombra e água fresca”, ele relembra. Ah, “e um querendo saber da vida do outro”. Mas, para ele, é uma justa reinvindicação. O olhar de Adailton revela: os caminhoneiros são como os frentistas, precisam ser reconhecidos. É quando Adailton se recolhe novamente ao descanso.  

*Orientada pelo chefe de reportagem Jorge Gauthier.


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