Positividade tóxica: excesso de animação pode prejudicar saúde mental

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11.04.2022, 06:00:00
(divulgação)

Positividade tóxica: excesso de animação pode prejudicar saúde mental

Em vez de tentar suprimir emoções negativas do outro em momentos de dor, o melhor é oferecer apoio

Um ambiente profissional onde tudo é tratado com excesso de positividade, sendo que a rotina não reflete o mesmo, pode prejudicar a saúde mental do trabalhador. Assim como, animar o colega de trabalho quando as coisas não vão bem para ele, também pode ser negativo.

Quando alguém tenta suprimir as emoções negativas de uma outra pessoa por meio de frases animadas como a de que o sucesso só depende de si, e a de que felicidade está sempre à mão, é um sinal de positividade tóxica.

O consultor e gerente de Recursos Humanos da RHF Talentos, Ademi Bezerra, define a situação como, “consequência de uma ditadura das redes sociais, porque ninguém coloca os erros e fracassos, que são a base do aprendizado, em voga”. destaca. “Além disso, se ouve muito no trabalho que é preciso entregar e superar as metas, mas dificilmente você ouve um ‘como você está?'”, conclui.  

De acordo com a psicóloga Ingrid Nayan, ao contrário do que parece ser senso comum, ser sempre positivo não faz com que as pessoas deixem de ter sentimentos negativos. Tentar disfarçá-los pode causar o efeito reverso, ou seja, potencializá-los, o que, se não acontecer imediatamente, pode acumular e prejudicar a saúde mental. [confira no box] 

A valorização do sucesso e as narrativas que descrevem apenas o momento de glória dos profissionais mais bem sucedidos, segundo Ademi, é o que motiva a positividade tóxica sob o trabalhador. A ideia distorcida de que um único exemplo de sucesso é a garantia de que qualquer um vai alcançar o mesmo patamar ao se esforçar ao máximo, é outra justificativa.  

No ambiente corporativo, a pressão pode aparecer disfarçada de incentivo quando a empresa não oferece ao profissional todos os recursos necessários para o exercício do trabalho e, ao invés de tratar o problema, utiliza a positividade tóxica para justificar o déficit na produção, com falas como: ‘só depende de você’; ‘é possível, você vai conseguir’ ou ‘basta você aprender um pouco mais’. 

“Colocar que algo só depende do trabalhador é uma violência psicológica, porque a pessoa precisa ter contato com os sentimentos e com o que eles geram para sair mais forte, mas reprimir e botar embaixo do tapete traz a síndrome de burnout, uma crise de ansiedade ou até agressiva”, explica o consultor de RH, que também é psicólogo de formação.

Para o bombardeado de positividade, a longo prazo, o resultado é o adoecimento e a perda de produtividade. Para a empresa, consequentemente, o que se observa é uma baixa na lucratividade. De acordo com levantamento realizado pelo Ministério do Trabalho e Previdência, nos primeiros sete meses de 2021 foram concedidos 108.263 benefícios por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) para trabalhadores com transtornos mentais e comportamentais no país. 

A primeira crise de ansiedade que a autônoma, Naile Cedraz, 35, teve na vida, ocorreu no trabalho. A rotina exaustiva, o excesso de cobrança, a exigência de tarefas não relacionadas a sua função, aliados ao ambiente nutrido de positividade tóxica, levou a profissional a buscar ajuda psicológica. "Eles me diziam: ‘aqui não falta nada, você tem um trabalho bom’. Alegavam que lá tinha copa para a gente comer, como se fosse algo incrível, mas era só o mínimo”, conta Naile. 

O esforço para evitar as mazelas da positividade tóxica deve partir da corporação, mas também deve ser um cuidado do profissional consigo mesmo. Ademi esclarece que as empresas precisam investir em espaços de escuta e na capacitação dos líderes, para que saibam lidar e acolher pessoas. 

Do outro lado, o trabalhador deve escolher alguém de confiança para contar o que sente, de preferência, que seja de fora do ambiente corporativo, além disso, ter autocompaixão e auto gentileza - se tratar como trataria alguém na mesma condição. 

BOX: o que as emoções dizem sobre a vida profissional

Alegria: um ambiente que se disfarça de saudável pode refletir no trabalhador a mesma característica, ou seja, fingir alegria passa a ser uma forma de suportar a rotina profissional para parecer estar bem e evitar perguntas desconfortáveis.

Raiva: na vida profissional o sentimento pode impulsionar conflitos ou pode ser usado pelo trabalhador como um combustível ruim para produzir mais, isto porque, usar a raiva como motor aumenta o cansaço físico e mental.   

Ansiedade: a exigência de cumprir tarefas que fogem do papel do profissional, o excesso de trabalho e a tentativa de entregar resultados dentro de prazos insuficientes pode desencadear o sentimento, que aparece quando a preocupação com o que precisa acontecer paralisa a ação que levará ao resultado. 

Frustração: é o sentimento que pode surgir quando o profissional percebe que não está conseguindo dar conta de uma rotina exaustiva, mas que ao mesmo tempo pode achar que pode não estar fazendo tudo que poderia para cumpri-la. 

Medo: o medo de não conseguir ser tão bom quanto os outros parecem ser ou tão feliz quanto os outros demonstram, pode gerar, no trabalhador, o receio de se impor diante de situações que fazem parte da rotina profissional.   

fonte: psicóloga Ingrid Nayan

*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

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