Quando a vida não basta

paulo sales
26.10.2020, 05:00:00

Quando a vida não basta


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Ouço agora The Köln Concert, álbum de Keith Jarrett. É um portento de técnica e entrega emocional de um dos mais virtuosos pianistas do jazz, embora por vezes ele me incomode com seus gemidos durante as gravações. Não haverá, porém, mais gemidos, muito menos as improvisações vertiginosas e o dedilhado franco e pleno de lirismo que são suas marcas. Aos 75 anos, Jarrett vai parar de tocar. Este ano, sofreu dois derrames que deixaram o lado esquerdo do seu corpo parcialmente paralisado. “O máximo que se espera que eu recupere na minha mão esquerda é possivelmente a capacidade de segurar uma xícara nela”, confessou numa entrevista ao The New York Times.

Oscar Peterson, outro pianista prodigioso que o jazz deu de presente à humanidade, também sofreu um derrame que o paralisou quase completamente. Com perseverança impressionante, voltou a tocar – apenas com a mão direita – dois anos depois. Não era o mesmo dos tempos de Night Train, mas ainda assim era um monstro. Morreu em 2007, aos 82 anos. Há também o brasileiro João Carlos Martins, pianista clássico, que até hoje busca maneiras de se manter musicalmente ativo, apesar de sofrer por décadas com doenças degenerativas. Com persistência comovente, ele voltou a tocar este ano com o auxílio de uma luva biônica.

Para quem passou praticamente toda a vida debruçado sobre um piano, o fato de ser privado de tocar talvez possua a dimensão de uma pena de prisão perpétua. Ou pelo menos de algo profundamente desolador. Jarrett está apartado da sua arte, como se o seu instrumento estivesse do outro lado de um muro intransponível. “Não sei qual será o meu futuro. Não me sinto pianista agora. É tudo o que posso dizer sobre isso.”

Transporto esse sentimento de frustração e impotência para outra grande arte: a literatura. Jorge Luis Borges, que mais do que um deus das letras era também um leitor voraz, terminou a vida completamente cego. John Fante, igualmente cego e com as pernas amputadas por conta do avanço do diabetes, precisou ditar seu último livro, Sonhos de Bunker Hill, para a esposa. E o pior: vivendo na pobreza e no anonimato.

O caso de Tony Judt, brilhante historiador britânico, é ainda mais devastador: ele sofria de Esclerose Lateral Amiotrófica, talvez a mais cruel de todas as doenças, que paralisa progressivamente o corpo inteiro, mantendo intacto o funcionamento da mente. Também ditou seu último livro, o autobiográfico O Chalé da Memória, dos mais belos que já li, antes de morrer em 2010, com apenas 62 anos.

Nos casos de Fante e Judt, eles conseguiram driblar em parte o próprio desenlace trágico com a ajuda de abnegados que puseram no papel o que saía direto de suas mentes. Mas o processo criativo, aquele delicioso momento de devoção, silêncio e introspecção no qual a arte brota como uma nascente de rio, esse lhes foi negado. Não importa, enfim. Ambos, assim como Peterson e Martins, mantiveram incólume a chama da beleza com seu sacrifício e sua capacidade de superação.

Prossigo ouvindo o concerto de Jarrett e, não sei bem por que motivo, lembro do trecho de Cartas a um Jovem Poeta no qual Rilke aconselhava seu discípulo a investigar nos “recantos mais profundos da alma” qual o motivo que o fazia criar versos. E pedia que confessasse a si mesmo: “Morreria, se lhe fosse vedado escrever?”. Todos os excepcionais artistas citados nas linhas acima demonstram que não suportariam a vida sem a arte. Pois, como disse Ferreira Gullar, “a poesia transfigura as coisas, mesmo quando você está no abismo. A arte existe porque a vida não basta”.

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