'Que Exu ilumine o Brasil', pede Paulinho às vésperas da Olimpíada

correio afro
21.07.2021, 11:00:00
Atualizado: 21.07.2021, 11:22:45
Camisa 7 do Brasil em Tóquio, Paulinho herdou a devoção ao candomblé da mãe e avó (Foto: Marco Galvão/CBF)

'Que Exu ilumine o Brasil', pede Paulinho às vésperas da Olimpíada

Atacante do Bayer Leverkusen representa a seleção na busca pelo bi e é conhecido por dribles e postura contra racismo religioso

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Que Exu ilumine o Brasil. É o que pede o meia-atacante Paulinho, um filho de Odé (Oxóssi), orixá patrono da nação Ketu. Há estudiosos que apontam, inclusive, que o candomblé de origem Ketu surgiu em Salvador, na Barroquinha. A relação do carioca com a Bahia tem uma outra curiosidade: profissional desde os 16 anos, ele estreou pelo Vasco jogando contra o Vitória (goleada de 4x1 no Barradão, a única do Vasco no santuário rubro-negro em toda a história) pelo Campeonato Brasileiro de 2017. Começou fazendo história: além da assistência para Guilherme Costa que sacramentou a goleada, se tornou o mais jovem a jogar pelo Cruzmaltino no século XXI, superando Philippe Coutinho. Hoje é atleta do Bayer Leverkusen, da Alemanha, e também é o único da seleção brasileira de futebol masculino declaradamente praticante do candomblé. Na terça-feira (20), ele contou sua história no site Players Tribune em um depoimento cujo título é a frase que abre este texto.

"Minha família tem ligação forte com o candomblé e a umbanda. Minha avó, minha mãe, minha tia… É algo que passa de geração para geração. Tenho muito orgulho da minha religião", escreveu o atacante. 

O candomblé para Paulinho é mais que uma religião. Ele prefere chamar de filosofia de vida. "Uma coisa bem pessoal, que toca o meu coração. Sou eu comigo mesmo, entende? Cultuar essa filosofia me traz muita energia boa, muito axé. Como assentado e praticante, vou ao meu pai de santo sempre que estou no Brasil e peço proteção aos orixás, principalmente ao meu Pai Oxóssi e à minha Mãe Iemanjá", afirmou. 

Paulinho vai vestir a camisa 7 da Seleção em Tóquio. Na imagem, ele equilibra a bola na cabeça durante treino no CT do Palmeiras, em São Paulo (Foto: Marco Galvão/CBF)

A postura de Paulinho em se assumir como devoto de uma religião de matriz africana é corajosa, segundo o babalorixá Milton de Oxóssi, que também é historiador. De acordo com o Censo do IBGE em 2010 (último disponível), 94.139 pessoas se declararam de candomblé, umbanda e outras religiões de matrizes africanas na Bahia. Isso representa menos de 1% da população estimada no estado pelo mesmo IBGE em 2019. Um número seguramente abaixo da realidade. Somente em Salvador, há 1.165 terreiros de candomblé registrados no Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba. 

Milton lembra que as religiões de matrizes africanas sofrem preconceito histórico – foram alvo até criminalização no Brasil, sendo motivo para prisão baseada na "Lei da vadiagem", que constava no Código Penal de 1890. Também não eram incomuns as chamadas Delegacias da Vadiagem e Delegados de Costumes e Diversões, que reprimiam fortemente os terreiros.  

"Isso gerou na sociedade um temor. Muitos daqueles que frequentavam as casas escondiam e passavam adiante esse cuidado. Fora dos círculos de segurança, havia um estigma de que religiões afro têm a ver com bruxaria ou feitiçaria para prejudicar a vida do outro, algo que sabemos que não faz qualquer sentido", explica o historiador. 

Na Olimpíada do Rio-2016, Comitê Organizador não deu espaço para religiões de matrizes africanas (Foto: MB Media/Getty Images)

O preconceito não ficou no passado e chegou aos Jogos Olímpicos. No Rio-2016, por exemplo, o Comitê Organizador não contemplou religiões de matriz africana no centro ecumênico da Vila, que ofereceu cerimônias do cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo das 7h às 22h, com rituais em português, espanhol e inglês. 

Clique aqui para ler o texto completo de Paulinho no Players Tribune.

Essa exclusão histórica é uma das hipóteses para que somente Paulinho, camisa 7 em Tóquio, seja devoto do candomblé e assumido entre os 18 convocados. Sabendo dos preconceitos que a sua religião sofre, ele afirma que vai utilizar a visibilidade que o esporte lhe deu para tentar construir um mundo melhor. 

"Quero que essa corrente de luta contra a discriminação siga se alongando. Não interessa a crença. Cada um pode manifestar sua fé do jeito que bem entender. O que defendo, como uma pessoa que tem voz, é que eu não posso me dar o direito de permanecer calado. De não me posicionar diante de preconceitos e negligências", afirmou Paulinho. 

O Brasil estreia nos Jogos de Tóquio-2020 quinta-feira (22), às 8h30, contra a Alemanha. No domingo (25), enfrenta a Costa do Marfim e, no dia 28, fecha a fase de grupos contra a Arábia Saudita.

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