Quem ganha na pandemia? Consumidor chega a gastar até 30% a mais nos mercados

coronavírus
06.06.2020, 13:00:00
Atualizado: 06.06.2020, 19:20:35
(Foto: Shutterstock)

Quem ganha na pandemia? Consumidor chega a gastar até 30% a mais nos mercados

Procon-BA registra quase 300 denúncias contra supermercados durante a pandemia; cobrança de preços abusivos estão entre as principais queixas

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De um dia para o outro, a professora Erica Matos se surpreendeu ao ver o pacote de leite em pó ficar R$ 7 mais caro, na ida ao mercado, nesta última semana. “Vi por R$ 19 e não comprei. Quando voltei no dia seguinte, o mesmo leite estava por R$ 26.  Mandei cancelar, quando estava no caixa. Eu não aceito um abuso desses”, conta. 

A professora Erica Matos viu o leite em pó ficar R$ 7 mais caro no mesmo supermercado, de um dia para o outro
(Foto: Acervo Pessoal)

Mesmo com a necessidade de isolamento social, para conter o avanço do coronavírus, o consumidor está comprando mais, ainda que tenha diminuído sua frequência nas lojas,  optado também por serviços de delivery. Em redes como o Atakarejo, o valor médio gasto pelo consumidor (ticket médio) cresceu cerca de 30%, de acordo com o  diretor comercial, Milton Amorim. Sendo que, no delivery, o gasto é o dobro do da loja física. “Neste momento, o setor do varejo alimentar foi dos que menos sentiram o impacto em termos de faturamento”, diz. 

Quem também tem percebido esse impacto é a designer de interiores Jeovana Dultra, sobretudo, depois que viu o quilo do feijão a R$ 9. Desde o início do isolamento social, há pouco mais de dois meses, ela tem gastado 60% a mais do que costumava gastar para manter a despensa abastecida.

A designer de interiores Jeovana Dultra está gastando R$ 2 mil para abastecer a despensa
(Foto: Acervo pessoal)

“Meu supermercado, hoje, chega a R$ 2 mil. Tudo está mais caro, principalmente os produtos indispensáveis como feijão, arroz e carnes. O consumo  de produtos de limpeza aumentou com detergente, desinfetante, água sanitária, álcool e sabão”.

Primeira necessidade
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto no mês março, as vendas do varejo baiano caíram tanto em relação a fevereiro 2020 (-9,7%), quanto frente a março de 2019 (-7,6%), o setor de supermercados cresceu 3% em meio à pandemia. Os números são referentes ao mês em que foram iniciadas as medidas de isolamento social, comparados com o mesmo período do ano passado.

Categorias como hortifruti, açougue e tudo que é necessário para produzir refeições, contribuíram bastante nessa expansão. Também itens de limpeza e higiene, como destaca o presidente da Associação Baiana de Supermercados (Abase), Joel Feldman, pesam mais no orçamento. 

Essas categorias tiveram incremento em torno de 15%, assim como as merendas para as crianças. Produtos como álcool e água sanitária cresceram 500% e 30%, no volume de vendas, respectivamente. Mesmo assim,  “não há nenhum risco de desabastecimento. As indústrias seguem produzindo e distribuindo regularmente”, garante Joel. 

Os preços são atualizados nas gôndolas, a cada entrada de nota fiscal de compra, o que acontece diariamente. Mas, se não existe risco de faltar, por que o valor dos produtos mais demandados pelas famílias subiram tanto? Ao comentar esse questionamento, feito pelos consumidores ouvidos pelo CORREIO, Feldman rebate que itens específicos de combate ao coronavírus aumentaram os preços, porque as indústrias não estariam preparadas para o aumento de demanda. 

“Os supermercados não controlam a cadeia de custos da indústria, apenas repassam as atualizações de preços. No caso da água sanitária há uma enorme escassez, incluindo dificuldade de matéria-prima para embalagens. Em relação ao álcool a demanda ocasionou uma indisponibilidade de matéria-prima”. 

A professora Maria José da Conceição é mais uma consumidora que confessa estar gastando além do que esperava, não só pela compra de mais itens de limpeza ou por fazer todas as refeições em casa.

A professora Maria José da Conceição está bem mais seletiva na hora de ir as compras: 'não levo a primeira coisa que vejo na prateleira'
(Foto: Acervo pessoal)

“O aumento é  grande  e a gente nota essa diferença. Se o preço estiver muito absurdo eu vou lá e troco. Não pego a primeira coisa que vejo na prateleira. Tenho feito essa seleção”.

Carrinho cheio
Se a crise não chegou no faturamento dos supermercados, no bolso do consumidor, no entanto, o coronavírus tem feito estrago. De acordo com levantamento feito a pedido do CORREIO, pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE-FGV), os dados nacionais do Índice de Preços ao Consumidor Brasil (IPC/BR-10), refletem a realidade de Salvador, onde a variação acumulada dos alimentos da cesta chegou a quase 5% (4,76%), entre março e maio. 

No 1º trimestre anterior, que compreende os meses de dezembro de 2019, janeiro e fevereiro de 2020, o índice foi de 3,94%. “Tivemos sim, uma carestia dos alimentos entre março e maio, vinculada ao aumento da demanda, desvalorização do real frente ao dólar e também por efeitos sazonais e de safra”, analisa o coordenador adjunto do IBRE-FGV, André Braz. 

Além desses fatores, o presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Gustavo Casseb Pessoti, acrescenta, ainda, outras questões: o oportunismo da pandemia, o pânico do desabastecimento e também a diminuição da concorrência, visto que os produtos importados estão mais caros por causa do câmbio nas alturas. 

“Todo esse conjunto de argumentos e, claro, o oportunismo do momento, justifica essa elevação de preços nos itens de primeira necessidade. Viemos de gerações, lá nos anos 80, que viveram o desabastecimento total e aí a gente acha que o mundo vai acabar. O pânico desajusta. Com certeza, esse pânico estava no início da pandemia e continua presente até agora, contribuindo para que o consumidor pague mais”, explica. 

De 23 de março a 31 de maio, a Superintendência de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon-BA) recebeu, em todo estado, 297 denúncias contra supermercados. O superintendente do órgão Filipe Vieira destaca que entre os produtos que tiveram os preços mais questionados estão os da cesta básica, hortifruti, além de produtos de higienização e de cuidados pessoais.

“No início, os registros eram para máscaras e álcool em gel. Porém, houve mudança nas denúncias, que passaram a ser sobre a alta dos preços da cesta básica, hortifruti e outros itens de primeira necessidade”, analisa Vieira.

Ao se deparar com uma situação que lhe pareça abusiva, o consumidor pode fazer a denúncia pelo aplicativo Procon-BA Mobile, que é gratuito e tem versões para Android e iOS. 

Bolso vazio
Diante desse impacto, a alternativa é mesmo economizar. Um outro aplicativo pode ajudar na tarefa. O Preço da Hora Bahia, lançado pelo governo estadual, permite que o consumidor pesquise o preço de qualquer produto vendido no varejo, nos estabelecimentos situados  a 30 km da sua localização. Até o momento, foram mais de 215 mil downloads.  

“Os preços são extraídos das notas fiscais. O preço do produto fica disponível no app por 72 horas, ou até ser substituído por uma venda mais recente”, conta Jadson Bittencourt, da Secretaria da Fazenda do Estado.

A estratégia da publicitária, Carol Coutinho tem sido evitar os exageros. Tudo bem que uma bala, um chiclete e uma Nutella... Ainda passa, porém, R$ 17 por cinco cabeças de alho, não deu para aceitar. “Senhora, o alho ficou R$ 17 - nesse momento perguntei o valor do quilo, que estava por quase R$ 60 e pedi para ela cancelar o item da compra. Tenho evitado o desperdício e venho organizando o que utilizaria com lazer e combustível para comprar comida”. 

Leia também: Consumo na Quarentena - Cinco dicas para não gastar demais na ida ao supermercado

No caso da também publicitária, Ana Carla Peixoto, na hora de comprar produtos de hortifruti, ela optou pelo mercadinho perto de casa: “os mercadinhos têm sido uma alternativa mais em conta para estes itens. Como no mercado que sempre compramos percebemos um aumento de 20%, esta economia tem feito uma diferença no orçamento”, considera.

Para não perder o rumo dos gastos, a administradora Lila Ribeiro não só está buscando  mercados com preços mais em conta,  como também optou por definir um teto máximo de gastos. “Vejo que existe um ‘querer se aproveitar do momento’. Me espantei com a carne, especificamente o cupim. Pagava entre R$ 16 e R$ 18 o quilo.  Ultimamente, está acima dos R$ 25. Agora, descobriram o cupim!”. 


PRODUTOS NA CESTA BÁSICA SUBIRAM ATÉ 20%

Afinal, que mundo é esse que deixou a batata inglesa 20,90% mais cara, nos últimos três meses? Segundo o Índice de Preços ao Consumidor Brasil (IPC/BR-10), em Salvador, seguindo o comportamento nacional, este é o item que foi o maior ‘vilão’ da cesta básica de março a maio. 

O estudo, porém, destacou outros ‘vilões’. Os ovos (19,45%), feijão preto (17,07%), feijão carioca (13,94%), o leite tipo longa vida (9,54%) e o arroz (5,12%) também impactaram o bolso. 

(CORREIO Gráficos)

Quanto ao ovo, a substituição da carne vermelha foi um dos fatores que favoreceram a alta, como acrescenta Braz: “O ovo subiu muito de preço, sobretudo,  no período da Quaresma”. “Em um momento que as refeições em casa aumentaram e pelo fato de serem produtos que fazem parte do prato principal, esses itens também estão sujeitos a questões de safra e entressafra, que acabam interferindo na variação desse preço”, explica o economista e coordenador adjunto do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas (IBRE-FGV), André Braz.  

Em sentido contrário, o frango inteiro está na lista daqueles que caíram de preço. A redução chegou a 4,74%, no último trimestre (março a maio). No trimestre anterior (dezembro de 2019 a fevereiro de 2020), o produto estava 12,20% mais caro. Porém, a queda, devido a regulação da demanda  de frango pela China, não deve durar muito tempo.

“A criação de frango exige muito milho e o item é uma commodity (matéria-prima bruta) cujo o preço é negociado em bolsa.  Dadas as desvalorizações do Real, o milho tende a encarecer o custo da criação de aves”. 

Braz destaca que o consumidor precisa fazer uma boa lista e usar a internet como aliada para pesquisar preços. “A gente sabe que com o isolamento social não vai dar para bater perna fazendo pesquisa de preço, porém a internet pode ajudar nisso. A internet pode ajudar na pesquisa, a conferir esses valores e a dar preferência ao comércio que oferece alguma economia”.   


É SEU DIREITO

Quando os preços são considerados abusivos? A relações institucionais da Proteste Associação de Consumidores, Juliana Moya,  explica que toda vez que o fornecedor não conseguir apresentar nenhuma justificativa para o aumento, o preço é considerado abusivo.

“Um pequeno aumento em decorrência da maior procura é um aumento justificado, uma vez que os fornecedores têm liberdade para determinar os preços de acordo com o comportamento do mercado. Mas um aumento, como de 100% de 200% como o do álcool em gel, por exemplo, sem nenhum problema de abastecimento, é um aumento injustificado e abusivo”.

O que fazer ao identificar esse tipo de situação? O consumidor pode denunciar à Superintendência de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon-BA). As queixas também podem ser registradas no Canal Reclame Proteste, através do site www.proteste.org.be/reclame.

O descumprimento de ofertas é também uma reclamação recorrente.  O que a lei garante?  “Caso haja descumprimento, o consumidor deve entrar em contato com os canais de atendimento da loja e solicitar que o anúncio seja cumprido. Ele tem o direito de pedir outro produto ou prestação de serviço equivalente ou de cancelar a compra, obtendo a devolução integral dos valores pagos”, destaca Juliana Moya.


'ARMADILHAS' PARA  O CONSUMIDOR

Ilhas ou iscas? Apesar de as ilhas, normalmente, virem acompanhadas de cartazes que indicam "promoção", os preços nem sempre são mais baixos. Além de ‘desovar’ o estoque, elas servem para aumentar a saída de mercadorias perto da validade. Os itens considerados essenciais são colocados na parte de trás da loja.  Portanto, cuidado com esse trajeto e foco na lista de compras.

O truque da prateleira Mercadorias mais caras ficam na altura dos olhos de adultos e os mais baratos ficam sempre na parte de baixo. Os produtos são organizados de acordo com o ângulo de visão e alcance das mãos, logo vale a pena fazer esse agachamento por um preço mais baixo. 

Seis por meia dúzia Para fazer com que o consumidor compre mais, é comum ver promoções do tipo "compre três e pague dois".  Faça sempre as contas do valor total e divida pela quantidade de unidades para saber se, realmente, vale a pena. É importante avaliar, também, se você vai consumir essa quantidade de produto, mesmo que o último seja de ‘graça’.

Corredor inofensivo? É aquele mesmo que fica próximo aos caixas com produtos tentadores, como salgadinhos, chocolates e refrigerantes. Ele está mais abastecido do que nunca, nesse momento de pandemia. Em caixas rápidos, para pequenos volumes, são feitos verdadeiros corredores de produtos. Sim, eles favorecem a compra por impulso.

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