Refinaria Abreu e Lima: um bom negócio arruinado

economia
12.09.2014, 08:57:00
Atualizado: 12.09.2014, 09:19:30

Refinaria Abreu e Lima: um bom negócio arruinado

Diferença entre orçamento inicial e conta final é de R$ 11,6 bilhões
Refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, deve iniciar operação comercial em novembro deste ano (Foto: Divulgação)

O custo de processamento de um barril de petróleo na Refinaria do Nordeste (Rnest), em Pernambuco, conhecida como Abreu e Lima, será de mais que o dobro do cobrado em outros projetos. Enquanto projetos semelhantes operam com custos por barril entre US$ 25 mil e US$ 35 mil, a Rnest, que está em pré-operação e deve ser inaugurada em novembro, vai gastar US$ 80,5 mil, levando-se em conta o investimento de US$ 18,5 bilhões feitos pela Petrobras e a capacidade de refino, que será de 230 mil barris por hora.

“Foi um mau negócio”, acredita o sócio-diretor da Winc Consultoria, João Alfredo Figueiredo, especialista em captação e implantação de investimentos industriais. Ele lembra que os primeiros orçamentos de Abreu e Lima estimaram o custo de implantação da refinaria em US$ 2,3 bilhões. Os cálculos foram abandonados pela Petrobras, que iniciou as obras em 2009 com uma estimativa de investimento de US$ 13,4 bilhões.

A diferença entre a conta e o orçamento inicial é de US$ 5,1 bilhões, o equivalente a
R$ 11,6 bilhões. É o suficiente para construir uma vez e meia a ponte Salvador-Itaparica, projeto coordenado pelo secretário do Planejamento da Bahia, José Sérgio Gabrielli, que presidia a Petrobras quando o projeto de Abreu e Lima foi aprovado.

“A Petrobras está fazendo porque já começou, gastou muito dinheiro e agora não dá mais para voltar atrás. Isso às vezes acontece no setor público. Agora, que é um negócio que já saiu dos limites, não tem a menor dúvida”, afirma Figueiredo, complementando que se fosse um investimento privado, jamais teria saído do papel. “É um negócio em que deu tudo errado, a começar pela escolha do sócio (PDVSA, empresa estatal de petróleo da Venezuela), que até hoje não colocou nenhum centavo, até onde se sabe”, diz.

Para ele, um aspecto importante em relação à refinaria é saber como está a relação contratual entre a Petrobras e a PDVSA. “A única coisa que falta é a Petrobras ter que dividir com os venezuelanos. Aí vai pra Corte internacional e será um Deus nos acuda”, afirma, lembrando que no caso da Refinaria de Pasadena, comprada pela Petrobras, nos Estados Unidos, membros do conselho disseram que não tinham conhecimento de cláusulas importantes. “O prejuízo já é bastante conhecido. Mas o discurso político é de que aquilo foi certo”, afirma.  

Para ele, é importante que o Brasil se prepare para refinar o óleo pesado, produza óleo diesel internamente e reduza a dependência das importações deste produto. “Esta é a importância de Abreu e Lima. Se ela tivesse sido bem orçamentada, saído dentro do prazo, iria cumprir uma função muito importante para o Brasil, que sempre importou (óleo diesel). Infelizmente, tornou-se mais um problema que uma solução”, lamenta.

Problema
Para o presidente do conselho de administração do Instituto Miguel Calmon de Estudos Econômicos e Sociais (Imic), Adary Oliveira, as indefinições no projeto provocaram os aumentos de custos. Ele sugere que a Petrobras reveja a situação nos próximos empreendimentos dela.
“O que aconteceu com Abreu e Lima, e que acontece com diversos projetos do governo, é que eles começam a divulgar o valor do investimento na fase conceitual, quando nem se sabe ao certo o que  será construído. Isso leva a uma avaliação errada”, explica.

“Antes de se chegar ao preço, deve-se definir um projeto conceitual, que leva a um projeto básico, onde há definição dos principais componentes de uma unidade industrial e depois se parte para o que se chama de projeto executivo, que é o detalhamento. Neste momento, é possível chegar a uma expectativa de custo mais realista”, diz.

O secretário José Sérgio Gabrielli foi procurado pela reportagem, porém, informou através da assessoria de imprensa que não pretende falar a respeito do assunto neste momento. A Petrobras não respondeu aos questionamentos enviados na última segunda-feira.

Especialista destaca o impacto econômico
Custou caro, mas a Refinaria de Abreu e Lima (Rnest) será muito importante para o Brasil, em especial para a região Nordeste do país, acredita o especialista em petróleo e gás, Normando Paes, da Panergy. “O impacto econômico para o país de uma refinaria do porte da Abreu e Lima é bastante significativo”, afirma.

Ele lembra que as grandes refinarias da região Nordeste são a Landupho Alves, no distrito de Mataripe, em São Francisco do Conde (BA), e a Lubnor, que é dedicada à produção de lubrificantes, são insuficientes para atender à demanda da região. “Só Mataripe produz derivados claros de petróleo, como gasolina, nafta, querosene de aviação e GLP (Gás liquefeito de petróleo)”, diz.

Normando diz que Abreu e Lima vai regionalizar a distribuição de derivados de petróleo, reduzindo custos com o transporte dos produtos por longas distâncias. Muitos são oriundos do Sudeste atualmente, explica.

Além disso, ele acredita que a Rnest terá um impacto positivo no mercado de trabalho e para o setor de serviços de toda a região. “O impacto de uma petroquímica, de uma indústria química, numa região sempre é positivo”, diz, lembrando que os benefícios devem ultrapassar a fronteira pernambucana. “A Bahia tem uma cadeia de serviços em petróleo e gás e certamente vai oferecer para Abreu e Lima.

O único “senão” em relação ao projeto, lembra Paes, são os questionamentos que vêm sendo divulgados pela imprensa. “Abreu e Lima está sendo investigada, sofrendo questionamentos no Congresso, pela Polícia Federal em relação a sobrepreços. Agora, do ponto de vista de empreendimento e de política regional para Pernambuco e para o Nordeste, eu vejo com bons olhos. É do interesse do Brasil”, acredita.

Ele ressalta que os empregos que costumam ser gerados pela indústria do petróleo são de alta qualidade. “A gente precisa lembrar que o impacto macroeconômico da indústria de petróleo é muito grande. Gera empregos de primeira linha e de um nível salarial alto. E junto com a refinaria, você tem toda uma cadeia de serviços, como o transporte, bases de distribuição, instalação de tubulações e muito mais coisas que costumam vir atreladas”, diz.


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