Região de Cajazeiras lidera denúncias por aglomeração na pandemia

coronavírus
22.04.2020, 05:00:00
Rua de Cajazeiras X (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Região de Cajazeiras lidera denúncias por aglomeração na pandemia

Em um mês, bairro teve mais de 1,2 mil reclamações; saiba como denunciar

Apesar das campanhas públicas alertando para a importância de permanecer em casa para conter a disseminação do coronavírus, ainda é possível observar locais de Salvador que têm registrado forte movimentação de pessoas nas ruas. De acordo com a Ouvidoria Geral do Município, os dados de reclamações do Disque Coronavírus revelaram que a região de Cajazeiras bombou em denúncias de aglomerações. A central recebeu, ao todo, 1.243 ligações relatando descumprimento do confinamento na localidade.

Superpopulosa, a região tem grande atividade comercial e possui mais de 60 mil habitantes, segundo o IBGE, o equivalente à população de Santo Amaro, no Recôncavo, embora estimativas extraoficiais apontem um número dez vezes maior. Mesmo debaixo da chuva que caiu nesta segunda-feira (20), o pessoal não se intimidou e o CORREIO fotografou um fluxo ativo em Cajazeiras X. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), até esta sexta-feira (17), os bairros de Cajazeiras II e XI tinham três casos cada um. 

Morador do bairro, o policial aposentado Jair Santos Vieira explica que, de fato, há uma concentração de pessoas na famosa Rótula da Feirinha, onde há venda ambulante e hipermercados.

“É uma rotatória que dá para vários acessos, dali vai para Itapuã, para o Aeroporto, então é entrada para tudo, as pessoas precisam passar por ali, não tem como. E também porque tem ali dois mercados grandes, todas as redes de farmácias e ainda camelôs vendendo frutas e verduras. Não tem como fechar essas coisas porque tudo é essencial”, descreve.

Para Bárbara Trindade, líder comunitária do bairro, a situação é preocupante porque o movimento não está limitado só às saídas para compras no comércio local. Na última sexta-feira (17), do prédio onde mora ela conseguiu ver uma das praças lotada e com som de paredão rolando solto. Horas depois, a própria fiscalização da prefeitura bateu no local junto com a polícia militar e mandou todo mundo para casa. 

Ela também relata que outro dia um caminhão de doação de alimentos chegou ao bairro e houve aglomeração para a retirada das cestas. “A gente está se esforçando ao máximo, mas infelizmente o pessoal está desacreditado do problema”, acredita ela. 

Cajazeiras X nesta segunda-feira (20)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20) (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20) (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20) (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20) (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20)
Cajazeiras X nesta segunda-feira (20) (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O barbeiro Edson da Paz, que vive em Águas Claras, bairro adjacente, opina que muitos comércios e ambulantes da região estão abertos porque não têm escolha: ou é a exposição ao coronavírus ou à miséria. “A galera ainda está trabalhando na rua porque não tem auxílio do governo. Muita gente que conheço não tem casa própria, precisa trabalhar pagar o aluguel e não morrer de fome porque daqui que entendam e consigam ter acesso aos auxílios, a pessoa passa fome”, comenta ele, que está com o estabelecimento fechado em cumprimento aos decretos que regulamentam as atividades essenciais.

Depois de Cajazeiras, os bairros de Pernambués, Liberdade, Itapuã e Paripe completam o TOP 5 de reclamações por aglomeração. Na outra ponta, dos menos denunciados, estão as ilhas de Maré e dos Frades, Horto Florestal, Politeama, Horto Bela Vista e Alphaville I e II. Os dados coletados pela Ouvidoria são referentes ao período de 16 de março a 19 de abril, portanto pouco mais de um mês. Nesse intervalo, foram recebidas 109,5 mil ligações, que resultaram em 44,3 mil registros encaminhados aos órgãos para providências. Ainda segundo a Ouvidoria, a maior parte das ligações foi por demanda de fiscalização de bares com aglomeração e atividade sonora.

Pernambués, o vice-líder

Líder comunitária de Pernambués, a dançarina Léo Kret atesta que o movimento ainda é constante nas ruas do bairro, mas explica que o fenômeno se dá porque o comércio do local também é concentrado na Avenida Tomaz Gonzaga, assim como na Rótula da Feirinha.

“Por isso é mais fácil notar a movimentação, mas está bem abaixo do normal. Todos estão preocupados com o coronavírus, porém não estamos acostumados a essa rotina de isolamento e distanciamento social, o baiano é caloroso. É novo para todo mundo, mas cabe a cada um se conscientizar de que esse vírus tem um poder de transmissão muito alto e que o nosso sistema de saúde já não dá conta da demanda natural da cidade, imagine com um aumento exponencial”, observa.

Segundo ela, a presença de pessoas muito juntas é mais frequente nas casas lotéricas de Pernambués por causa da liberação do auxílio de R$ 600 prometido pelo Governo Federal. “Mas acho que isso é uma situação que tem acontecido em toda cidade porque a população ainda não se habituou a usar a tecnologia”, salienta. 

Usando luvas e máscaras, a líder comunitária conta que reuniu três voluntários para distribuir à população folhetos informativos sobre os riscos da covid-19 e formas de prevenção à doença. Léo acrescenta, ainda que, na localidade onde mora, no Alto do Cruzeiro, ela conta que os bares têm respeitado os decretos e têm se mantido de portas fechadas.

Fiscalização

Responsável pela fiscalização do cumprimento dos decretos de medidas restritivas para conter o vírus em Salvador, a Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) informou que a força-tarefa iniciada há um mês realizou 9,8 mil vistorias, 774 interdições e cassou o alvará de 82 estabelecimentos comerciais.

As ações abrangeram todos os bairros da capital e foram feitas em 6,2 mil bares e restaurantes, 1,1 mil clínicas de estética, salões de beleza e barbearia, 568 academias, 508 instituições de ensino, 264 templos religiosos e 219 lojas em comércio de rua com área superior a 200 metros quadrados. 

Desde o dia 1º de abril, quando entrou em vigor o decreto que determina a organização das filas e atendimento nas agências bancárias, 101 agências foram vistoriadas e 30 notificadas. Além disso, sete interditadas, mas tiveram o atendimento restabelecido após passarem por adequações para o funcionamento.
 
Também foram vistoriados 115 shoppings e centros comerciais, 73 supermercados, 66 barracas de chapa, 51 quadras e campos de futebol, 39 casas de eventos, 38 obras, 21 call centers, 12 postos de combustível, 14 aglomerações de pessoas, nove veículos com atividade sonora, oito comércios de peixe e seis casas lotéricas, três cinemas, três clubes sociais, três food trucks, um parque infantil, um caça níquel, uma mercearia e uma sauna.
 
Só neste último fim de semana, de sexta-feira a domingo (19), mais de mil estabelecimentos foram vistoriados pela força-tarefa do município em 105 bairros de Salvador. Ao todo, 112 pontos de comércio e lazer foram interditados, entre os quais 85 bares, 19 barbearias, duas quadras de esporte, uma lanchonete, uma casa de eventos, um supermercado, uma loja de variedades, uma loja de celular e uma mercearia. Quatro estabelecimentos comerciais tiveram o alvará de funcionamento cassado.

“A atuação firme da Sedur tem gerado um resultado muito positivo e os proprietários dos estabelecimentos estão se conscientizando sobre a importância de os manterem fechados. Aqueles estabelecimentos que insistirem em funcionar de forma irregular sofrerão as penalidades”, afirma o diretor de fiscalização do órgão, Átila Brandão Júnior.

COMO DENUNCIAR AGLOMERAÇÃO?

É possível denunciar aglomerações e descumprimento de decretos de forma sigilosa pelo site do Fala Salvador (www.falasalvador.ba.gov.br), pelo e-mail da Ouvidoria Geral do Município (ouvidoria@salvador.ba.gov.br) ou pelo telefone 160. A ligação custa um pulso de ligação normal para número fixo, que varia de cada operadora. 

Por e-mail e pelo site é possível enviar fotos, mas não é obrigatório. Para denunciar a atividade que está ocorrendo, é preciso descrever o endereço com ponto de referência, o tipo de estabelecimento (bar, restaurante, etc), a quantidade aproximada de pessoas e se há atividade sonora (carro, caixa, paredão).

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