Rei ao mar: nos 100 anos do Carnaval, Rei Momo chegou para a festa de escuna

clarissa pacheco
21.02.2021, 07:00:00

Rei ao mar: nos 100 anos do Carnaval, Rei Momo chegou para a festa de escuna

Ferreirinha, primeiro Rei Momo do Carnaval de Salvador, reinou por 29 anos, quando passou a coroa para o filho

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Essa história de escolher Rei Momo pelo voto é recente, coisa de 1990 para cá. Em 2020, quando teve Carnaval, o comerciante Dilson Chagas, o Dilsinho, foi eleito num concurso realizado no Clube Fantoches da Euterpe, evento que homenageou o primeiro e mais longevo Rei Momo do Carnaval da Bahia - o Ferreirinha. E ele fez história. Em 1984, quando o Carnaval de Salvador completou 100 anos de sua história moderna, o funcionário público Milton Ferreira da Silva declarou que só passaria o cargo - hereditário por natureza - ao filho. Ele já estava com a coroa na cabeça há 25 anos.

"Não existe votação para a escolha de reis. O cargo é hereditário. Depois de mim será o meu filho. A Bahia comemora este ano os seus cem anos de folia e eu comemoro também os meus 25 anos de Rei Momo. Não admitiria nunca outro em meu lugar. Mas não precisou fazer nada porque o povo não deixou. O meu povo", disse na época Ferreirinha, motorista, funcionário público e rei há 25 anos.

De fato, quatro anos depois, após 29 reinados, passou a coroa ao herdeiro, Milton Ferreira Filho. Mas, o Carnaval de 1984, o do centenário da festa, teve direito a extravagância. O rei subiu no trio e recebeu as chaves da cidade, mas não sem antes fazer um cortejo marítimo pela Baía de Todos-os-Santos. 

Escuna do Rei Momo saiu de Bom Despacho às 10h30 do dia 1º de março de 1984 em direção ao Yacht Clube da Bahia (Foto: Carlos Casaes/Arquivo CORREIO)

Saiu de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, por volta das 10h30 do dia 1º de março, uma quinta-feira, com toda a comitiva a bordo de uma escuna toda enfeitada. O CORREIO publicou uma matéria sobre a travessia na edição do dia seguinte: "Num clima alegre, muita música e muito calor, o Rei Momo atravessou ontem pela manhã a Baía de Todos os Santos e desembarcou no Iate Clube, sendo acompanhado por diversas embarcações e grande número de foliões. Antes, se apresentou (sem sair do barco) para quem estava no Porto da Barra", dizia um trecho da publicação de 2 de março de 1984.

O trono foi colocado bem no alto da embarcação, mas o rei não suportou o calor e desceu para a parte mais baixa da escuna, em meio aos demais membros da comitiva e de uma orquestra própria.

"O cortejo para a abertura oficial do Carnaval seguiu com muito samba, confete e serpentina até o Porto da Barra, onde ele foi saudado por grande número de pessoas. Ao se aproximar do local, todos os participantes da comitiva foram surpreendidos pelo aparecimento do Coringa, símbolo do Carnaval de Cem anos da Bahia, que de uma lancha saudou o rei e agitou todo mundo com suas piruetas e palhaçadas", dizia outro trecho da matéria.

Depois de desembarcar no Yacht Clube, o Rei Momo foi acompanhado por uma multidão até o Porto da Barra. Lá, dois trios o aguardavam para a abertura oficial da festa - o Superbox e o Traz-os-Montes. Naquele ano, pediu que as pessoas aproveitassem a festa com "alegria e relaxamento": "Muito pouca gente vai conseguir brincar outra vez cem anos de carnaval. É uma data muito importante e quase única. Talvez somente os meus netos possam comemorar outros cem anos. Por isso, a ordem é muita animação", decretou. A festa seguiu até o final da tarde.

Comitiva do Rei Momo; Ferreirinha completava 25 anos de reinado (Foto: Carlos Casaes/Arquivo CORREIO)

Ferreirinha foi o primeiro e mais longevo Rei Momo do Carnaval de Salvador. Durante 29 Carnavais, reinou absoluto como dono das chaves da cidade. No restante do ano, era motorista, funcionário público. Mesmo tendo sido eleito em 1959 num concurso, Ferreirinha dizia que reinados eram hereditários e, por isso, não aceitava ser substituído por outro que não seu filho. Assim permaneceu por quase três décadas.

Durante a folia, era amado e paparicado, como escreveu Nelson Cadena, colunista do CORREIO, em 2019, ano em que o posto completou 60 anos.

"Gostava disso, lamentava apenas o fato de que durante o Carnaval era chamado de Ferreirinha, enquanto no resto do ano era chamado de Rei Momo", disse Cadena.

Em outro artigo, Cadena mostra que, em 1976, em seu 17º Carnaval como Rei Momo, Ferreirinha teve sua 'metamorfose' acompanhada pela revista Viver Bahia, publicação oficial da Bahiatursa. A maquiagem, cuidadosa, levava mais de duas horas e transformava o mortal em soberano.

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