Relato: 'Da minha varanda acompanhei o fogo cruzado que abateu o soldado Wesley'

textão
29.03.2021, 14:30:00
Atualizado: 29.03.2021, 15:18:14

Relato: 'Da minha varanda acompanhei o fogo cruzado que abateu o soldado Wesley'

Morador fala sobre tarde e noite de terror na Barra, com desfecho trágico, e critica tentativa de uso político do caso

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Texto publicado originalmente no Facebook do jornalista João Paulo Gondim, que faz o relato em primeira pessoa. Leia na íntegra: 

moro em um prédio localizado em frente ao farol da barra, área da tragédia de hoje. da minha varanda, sobre a avenida almirante marques de leão, acompanhei o início do fogo cruzado que abateu o soldado wesley. 

primeiro, eu o vi chegar na encruzilhada da marques de leão com o largo do farol proferindo frases que não pude entender daqui de casa. depois, ele atirou contra os policiais que estavam na marques de leão. ao começar a reação dos policiais saí da varanda pra evitar que alguma bala sobrasse pra mim. 

após o cessar-fogo, voltei pra janela, de onde vi o corpo do soldado wesley no chão.

francamente, vi pessoas influentes nas redes sociais, como a deputada bia kicis, querendo pintar o pobre soldado wesley como mártir, herói ou algo do gênero. há quem escreva por aí que “o policial morreu por se recusar a prender trabalhadores que tentam ganhar a vida honestamente em plena pandemia”. nada disso. ele morreu pois mandou bala em colegas de farda. é preocupante que a triste morte do pobre soldado possa servir de estopim pra ações orquestradas & golpistas país afora. torço pra que a tragédia do policial no farol da barra não desencadeie tentativas de golpe por apoiadores do presidente. 

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ao longo do dia, fui algumas vezes à varanda pra acompanhar o desenrolar daquele evento. embora visse atos do soldado wesley como gritos & empurrões em viaturas & tiros pro alto, não pretendi registrar pelo celular tais cenas. sei lá, me incomoda um pouco esse voyeurismo eletrônico partout, todo mundo empunhando aparelhos pra filmar tudo a cada instante. mas não recrimino as pessoas que têm essa sanha de sempre sacar a câmera do bolso, ainda mais em situação bizarra como aquela no entorno do farol. imaginei que o triste evento de hoje à tarde seria fartamente documentado, como de fato ocorreu, vide a profusão de vídeos em sites & redes sociais. 

mas confesso que tb achei deprimente ver aquele homem em surto. não me senti à vontade em filmar nas vezes em que estive na varanda. enfim, foi um episódio tristíssimo. triste para o pobre soldado, que morreu; triste para os companheiros de corporação dele, que tiveram que reagir violentamente a um colega de farda; e triste para os moradores da região que, angustiados, foram submetidos a uma tarde de terror. 

que a morte do soldado wesley não deflagre tentativas golpistas de quem já demonstrou flertar com a tirania.

***

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