Salvador tem história de amor de estátua por cinema e de ódio entre duas escolas

baianidades
18.08.2019, 06:30:00

Salvador tem história de amor de estátua por cinema e de ódio entre duas escolas

A primeira ironia deste texto é dispensar incontáveis e hábeis escritores baianos por um câmbio estrangeiro. Só encontrei em Jorge Luís Borges, ainda por cima de tudo argentino, a elucidação definitiva para dois casos insólitos de amor e ódio consumados na velha cidade da Bahia.

Uma rápida digressão em dois parágrafos.

Borges narra, em “O Encontro”, a história de dois amigos que, lá pra tantas, chambreados pelas talagadas no álcool, brincam de duelar com armas brancas – valendo-se da larga coleção de um deles. O primeiro escolhe uma adaga com o símbolo de um gavião. O outro, pouco calculista, recorre a uma lâmina mais modesta. O joguete se acirra e, aquele de posse da arma mais letal, fere o amigo de morte.

Depois da tragédia consumada, as testemunhas presentes descobrem que aquelas adagas haviam sido, num passado remoto, de dois rivais ferozes. O ódio que sentiam foi transmitido aos dois instrumentos e permaneceu encrustado por toda eternidade.

Fim.

Depois da audácia de resumir a genialidade do escriba buenairense em poucas linhas, toco meu saveiro do Rio Prata para o cais da Cidade Baixa. E, sim, se já estamos nas águas guardadas pelo Forte São Marcelo, não custa subir a Ladeira da Montanha até chegar à praça do povo e do poeta.

Lá está Castro Alves, impávido em bronze, com a mão estendida para o céu do Condor. A impressão atemporal é que aquela estátua sempre esteve ali, nascida na fundação da cidade, levantada pelos capatazes de Thomé de Souza, ainda em 1549.

A verdade, porém, é que o monumento sequer completou 100 anos – uma prova que onipresença vence a jovialidade da peça. Onde hoje fica a estátua já foi o Teatro São João, inaugurado pelo Rei D. João VI, que veio ao Brasil fugido do exército de Bonaparte.

O amor
A casa de espetáculo foi palco de declamações homéricas de Castro Alves, o grande poeta romântico do país. Amenizam as boas línguas que foi lá que conheceu Eugênia Câmara, a atriz portuguesa que o fez se apaixonar completamente. Aos 24 anos, ele morreu precocemente de tuberculose, com uma ferida no pé provocada por um auto disparo acidental.

Em 1923, no mesmo ano que o teatro São João foi demolido após um incontrolável incêndio, o italiano Pasqueale de Chirico esculpiu a peça, com a mão direita do poeta estendida num eterno recital.

Foto: Reprodução

Naquela porção de terra da Cidade Alta mora nossa história de amor. No Natal de 1919, antes mesmo da estátua de Castro Alves ser levantada, foi inaugurado, bem ali em frente, o Cinema Guarany. O nome, escolhido em plebiscito, marcou aquele que viria a ser o grande cinema de rua da Bahia no século XX.  

Em meados da década de 1980, o espaço foi rebatizado de Glauber Rocha, em tributo ao grande expoente do Cinema Novo e idealizador da “Estética da Fome”.

Glauber costumava brincar entre os amigos que era a reencarnação de Castro Alves. As semelhanças são mesmo muitas. Embora separados no tempo por 92 anos, os dois nasceram no mesmo dia: 14 de março.  

Os dois tiveram também trajetórias marcadas por paixões instáveis, amor à arte, militância política e defesa da condição humana contra todo tipo de degradação. Se Castro Alves se notabilizou pela defesa dos escravos, em prol da libertação, Glauber defendeu os famélicos, o sertanejo e o povo brasileiro durante a Ditadura Militar.

Em 1981, morreu vítima de um ataque bacteriano, acelerado pelo consumo de álcool. Tinha 42 anos. A idade de morte trocada de Castro Alves, que partiu aos 24.

Se foram ou não a reencarnação um do outro, os dois deixaram, ao menos, que seus espíritos se encontrassem nos espaços que carregam seus nomes e, principalmente, parte da história que construíram.

Foto: Arquivo CORREIO

As palavras fortes de Castro Alves fizeram barulho no teatro São João, mesmo local onde hoje está seu monumento. Já Glauber assistiu grandes obras no Cine Clube Walter da Silveira, que funcionava ali no Guarany. Anos depois, películas com sua própria assinatura, viriam a ser aplaudidas na tela grande daquele cinema.

A estátua e o cinema se amam e estão de frente uma para o outro. Num gesto de amor que vence o tempo, se encontram num braço estendido.   

O ódio
Mas, nessa viscosa cidade da Bahia, nada poderia ser apenas um conto hollywoodiano com final de amor. A rivalidade é também elemento dessa equação e, nesse caso, há uma curiosidade transcendental instalada na Rua Waldemar Falcão, em Brotas.

É lá que funciona o colégio estadual Luís Viana. O colégio é tão grande que é onde está a maior zona eleitoral de toda a Bahia.

É preciso esclarecer que, no estado, houve dois governadores com nome de Luís Viana. O primeiro, que ficou conhecido como Conselheiro Luís Viana, e o segundo, seu herdeiro de sangue, Luís Viana Filho, que dá nome à mais importante avenida de Salvador: a Paralela.

O conselheiro Luís Viana, que batiza o monumental colégio em Brotas, foi governador da Bahia de 1896 a 1900, bem no início da República no país. Foi durante seu governo que houve a Guerra de Canudos, finalizada em um massacre gigantesco ao arraial de Antônio Conselheiro.

Foto: Reprodução

O presidente do país durante esta campanha assassina era Prudente de Morais, primeiro civil a ocupar o cargo máximo. Na época da guerra, ele estava licenciado por problemas de saúde e o vice assumiu o posto. Este era Manoel Vitorino, baiano, e também ex-governador do estado.

Entre Viana e Vitorino a relação não era das melhores. Havia suspeitas que o primeiro fosse um monarquista disfarçado, que queria abalar a recém-instalada República e, por isso, perdeu os primeiros combates em Canudos com as tropas estaduais.

Vitorino também tinha preocupações com a força que Luís Viana começava a criar em seu estado natal, consolidando-se com uma poderosa liderança capaz de pulverizar os demais políticos.

O fato é que, de posse do cargo de presidente, Manoel Vitorino autoriza o envio das tropas federais a Canudos. Num primeiro gesto que, depois de resistir bravamente a quatro expedições militares, viria a dizimar o povo sertanejo do arraial.

Foto: Reprodução

Da rivalidade dos dois, marcada de sangue por uma guerra vil, o bairro de Brotas guarda para todo sempre esta disputa. Na ponta da rua Waldemar Falcão, anos depois de construírem a escola Luís Viana, fizeram o colégio estadual Manoel Vitorino. Um bem pertinho do outro.

Como as duas adagas de Borges, eles estão predispostos a se odiarem por toda eternidade.

[Esta coluna é dedicada a meu pai, Jorge Uzêda, que me contou esta curiosa história de rivalidade entre Luís Viana e Manoel Vitorino].


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