Salvador viveu guerra entre deuses, orixás e santos durante a última grande pandemia

baianidades
11.04.2020, 06:15:00

Salvador viveu guerra entre deuses, orixás e santos durante a última grande pandemia

Na época do cólera-morbus, o arcebispo tentou reduzir a participação do candomblé na Igreja Católica

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Na primeira sexta-feira deste mês, a imagem peregrina do Senhor do Bonfim saiu em procissão pelas ruas de Salvador. O cortejo foi um dos acontecimentos mais tocantes neste nosso confinamento, ao recuperar, de forma intencional, períodos outros nos quais a fé foi convocada para serenar angústias.  

A imagem já havia descido a Colina Sagrada na grande seca de 1842; na terrível epidemia do cólera de 1855 e também para pedir, em 1942, embora a súplica só tenha surtido efeito três anos depois, o fim da Segunda Guerra Mundial.

Em 2020, quando a comitiva do Bonfim passou pelo Pelourinho houve um encontro marcante com a história. Neste mesmo dia, na porta da Catedral Basílica de Salvador, foi colocada a imagem de São Francisco Xavier. O que pode ser interpretado como um simples aceno de duas figuras poderosas, na verdade, reascende uma rivalidade iniciada há dois séculos.

São Francisco Xavier é, oficialmente, o padroeiro de Salvador. Esta escolha foi feita em 1686, quando a cidade enfrentava uma epidemia de varíola. Nascido na Espanha, Francisco Xavier morreu na China, enviado em uma missão para evangelizar os povos do oriente.

Relíquia que contém pedaço do osso de São Francisco Xavier e fica na Catedral Basílica de Salvador (Foto: Márcio Shimamoto/Catedral Basílica de Salvador)

Ele era um jesuíta. Ou seja, pertencente à Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola. Esta mesma companhia foi a primeira a se estabelecer aqui na Bahia, com a missão de catequizar os índios.

Quando a varíola veio, os jesuítas de Salvador recorreram a um dos ex-integrantes seus para pedir proteção. O clamor fazia, sim, muito sentido. Francisco Xavier morreu acometido por uma forte febre na China (muito antes do coronavírus).

Romanização
No entanto, a história de disputa começa somente em 1855. Na última coluna que escrevi aqui neste brioso CORREIO, lembrei das grandes epidemias que Salvador enfrentou e venceu ao longo da história. Uma das mais cruéis foi exatamente a pandemia de cólera-morbus. A estimativa é que 25 mil pessoas tenham perdido a vida nesta província.

Neste período, o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, Dom Rômulo Antônio de Seixas, iniciou uma ação para recuperar o prestígio do padroeiro e combater o caráter mais festivo e laico do catolicismo na Bahia. Este movimento ficou conhecido como “romanização”, pois a ideia era reformar os modos tropicais seguindo o modelo mais rígido da cúria romana.

Trocando em miúdos, dizia-se que o catolicismo baiano tinha “muita reza e pouca missa. E muito santo e pouco padre”, conforme conta o historiador Onildo Reis David, em dissertação defendida na Ufba, em 1993. A ação do arcebispo era clara contra o candomblé, as Irmandades e as festas de largo, permeadas em laços sincréticos com a Igreja Católica.

Um dos imaculados mais populares e requisitados na época do cólera era São Roque, o santo médico católico, que no candomblé é representado por Omolú-Obaluaê, o orixá da cura e doença.

Baiana joga pipoca na festa de São Roque e Obaluaê (Foto: Arrison Marinho/CORREIO)

Usando o clima de medo provocado pela moléstia, Dom Rômulo dizia que a epidemia era fruto da “mão de Deus” contra os pecados humanos. Tentou-se, nesta época, fortalecer o culto a santos que não tivessem relação direta com o axé, como o Sagrado Coração de Jesus e São José.

O arcebispo primaz criou ainda, segundo Onildo Reis, a Irmandade de São Francisco Xavier e distribuiu indulgências (o perdão) para quem participasse dos novenários e festa do santo.

Por conta da enorme quantidade de mortos, muitas irmandades organizaram procissões pela cidade. A primeira delas foi a do Senhor Bom Jesus dos Passos, na Igreja da Ajuda.

Dom Rômulo também preparou a procissão de São Francisco Xavier, trazendo junto a ele a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira do Império brasileiro e que gozava de enorme popularidade entre os fiéis.

Procissão com a imagem do Senhor do Bonfim pelas ruas de Salvador para combater a covid-19 (Foto: Arrison Marinho/CORREIO)

Mesmo com todo este esforço, o cortejo que ganhou as ruas e teve mais devotos foi o de Senhor do Bonfim, ocorrido em 6 de setembro de 1855.

É preciso aqui um esclarecimento religioso importante. Senhor do Bonfim não é um santo, mas a própria personificação de Cristo morto e ressuscitado. Na relação com o axé, representava a equivalência a Oxalá, criador da terra (aiyê) e do homem.

No museu da Igreja do Bonfim, uma pintura retrata como foi esta procissão. No primeiro plano dá pra ver o andor com a imagem, em um enorme cortejo com estandartes ocupando o largo. Entre os devotos há adultos e crianças. Brancas e negras.

Senhor do Bonfim é a guarda imortal da Bahia.

[Esta crônica é dedicada a Felipe Campos e Marcos Murilo, importantes colaboradores desta coluna].

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