Sífilis: entenda como uma doença da Idade Média se tornou epidemia na Bahia

bahia
17.03.2019, 05:04:00
(Foto: Agência Brasil)

Sífilis: entenda como uma doença da Idade Média se tornou epidemia na Bahia

Casos aumentaram 518% em todo o estado; Brasil está em alerta com a doença

Feudos onde não havia mobilidade social – quem era rico morria rico; quem nascia pobre viveria como pobre a vida inteira. A crença de que todos os planetas e até o Sol giravam em torno da Terra. Mulheres sendo caçadas e mortas, acusadas de bruxaria. Todas essas eram coisas que existiam na Idade Média, mas que foram refutadas ou, felizmente, deixadas para trás. 

No entanto, na saúde, a Idade Média não ficou totalmente no passado. De tempos em tempos, doenças que datam de um período tão antigo da História voltam a assustar. Esse é justamente o caso da sífilis – uma infecção que se proliferou nos tempos medievais, mas que chega ser citada na Bíblia e tem cura. Mesmo assim, em pleno ano de 2019, é considerada epidemia no Brasil. 

Na Bahia, de 2012 para 2018, o número de casos saltou de 1911 para 9900 – ou seja, um crescimento de 518% em todo o estado, segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). Boa parte desses casos está em Salvador: foram 3.597 ocorrências de sífilis na cidade no ano passado. Em 2010, foram apenas 10, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS).

No Brasil, oficialmente, a doença só passou a ser de notificação compulsória em todas as formas a partir de 2014. Em nota, o Ministério da Saúde informou que mudou a forma de notificação da sífilis em setembro de 2017, justamente para evitar subnotificação. 

Mas uma realidade é ainda mais preocupante – quando a doença infecta gestantes e bebês. Em dez anos, de 2008 a 2018, a sífilis em gestante cresceu mais de 808%, em todo o país. As ocorrências, que eram 7.304, pularam para 59.022.

Na Bahia, o aumento foi ainda maior: de 293 casos em 2008 para 3.647 no ano passado. Ou seja, um acréscimo percentual que passa dos 1.244%. 

“Nunca foi uma doença rara, mas aumentou muito”, diz a técnica do programa estadual de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs)/AIDS Aliucha Magalhães. Para ela, o crescimento da sífilis está diretamente ligado à evolução do vírus da AIDS, o HIV. Ainda que não se tenha chegado à cura, o tratamento avançou muito. 

Dessa forma, o uso do preservativo tem sido deixado de lado.

“As pessoas não têm mais medo de morrer de HIV, principalmente as gerações mais novas. Só que isso facilita a entrada de outras DSTs, a exemplo da sífilis”, alerta Aliucha. 

Mais de uma vez
Outro fator que é comum é a chamada reinfecção. O paciente adquire a doença, se trata com penicilina e fica no curado. No entanto, sem usar camisinha, volta a ter sífilis.

Como aponta a psicóloga Milena Pérsico, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e da Faculdade Anísio Teixeira (FAT), a origem dessa ‘cadeia’ costuma ser justamente uma relação estável – seja um namoro, um casamento ou simplesmente um relacionamento fixo. 

Não se trata, diz ela, de falta de acesso ao preservativo, nem de falta de informação.

“As pessoas têm consciência que existe a doença, mas a questão é que, se tem tratamento e tem cura, elas acreditam que está tudo certo. Isso é banalizado, de certa maneira”, explica Milena, que pesquisou casos de sífilis em adolescentes e gestantes em Feira de Santana, durante o mestrado em Saúde Coletiva. 

No entanto, a própria facilidade em diagnosticar a sífilis hoje pode influenciar o aumento do número de casos, segundo a coordenadora do programa de controle das DSTs do município, Helena Lima. O teste rápido para a doença pode ser feito em qualquer unidade básica de saúde. 

Cerca de 30 minutos depois, já dá para saber se a pessoa tem sífilis ou não. “Desde o ano passado, a gente trata sífilis como epidemia e isso faz com que a população fique mais mobilizada, a exemplo da campanha do Carnaval”, cita Helena, referindo-se aos testes realizados durante a folia. 

Gestantes
Mesmo que exista mais informação sobre DSTs para a população, nem todo mundo compreende todas as formas de proteção. É isso, segundo a professora Milena Pérsico, que faz com que o número de sífilis em gestantes represente quase 40% do total de casos no estado, com um crescimento muito maior nos últimos anos. 

“Passei muitos anos atendendo pessoas, fazendo entrevistas antes da testagem e o que permeia no coletivo é que a camisinha é o remédio para a gravidez. Muitas gestantes, por estarem gestantes, entendem que não precisam usar o preservativo porque já engravidaram. O preservativo é visto apenas como contraceptivo”, diz.  

Isso também é observado pela coordenadora do programa municipal de DSTs, Helena Lima. Ela conta que não são incomuns os casos de mulheres grávidas que chegam tardiamente para fazer o pré-natal. O exame para saber se a pessoa tem sífilis é um dos testes obrigatórios do pré-natal. “Tem mulher que chega aos seis, sete meses de gravidez. Isso é ruim até para acompanhar a saúde dela”, diz Helena.

Além disso, a reinfecção é comum entre as gestantes. Ainda que elas compareçam às unidades básicas de saúde para os exames, façam exames e tratamentos, nem sempre são acompanhadas. Daí, não são raros os casos de mulheres grávidas que são tratadas para sífilis e ficam curadas, mas voltam a ter a doença porque o parceiro não fez o tratamento. 

“É mais difícil envolver a figura do parceiro na unidade. A gente lança o pré-natal do homem, que é um sábado por mês, para que eles sejam tratados nas unidades, mas ainda há um descompasso. Uma parte faz o tratamento e a outra não faz, então pode acontecer a reinfecção”. 

Falta de remédio
Em 2016, houve uma crise de abastecimento de penicilina – o antibiótico que cura a sífilis – em todo o país. Na época, o Ministério da Saúde chegou a publicar uma Medida Provisória para ajustar o preço do remédio no mercado. Na época, o órgão federal informou que a penicilina vinha sofrendo desabastecimento desde 2014, em diveros países do mundo. O objetivo da medida era possibilitar a entrada de novos fornecedores, garantindo competitividade.

Em janeiro, o CORREIO mostrou que a Benzetacil – um dos nomes comerciais da penicilina – estava em falta nas farmácias de Salvador. De 50 farmácias consultadas pela reportagem, apenas duas tinham o medicamento. 

No entanto, o tratamento está disponível em toda a rede pública. “No estado, não há falta. Inclusive, a gente recebeu a informação de que está sobrando, mas distribuímos para todas as redes de saúde. O tratamento é feito em qualquer unidade básica. É um tratamento simples”, diz a técnica do programa estadual de DST/AIDS Aliucha Magalhães. 

Através da assessoria, o Ministério da Saúde informou que tem garantido a oferta de testes rápidos e do medicamento para toda a população. “Desde 2016, o Ministério da Saúde vem trabalhando com prioridade em uma estratégica nacional para qualificação da atenção à saúde para prevenção, assistência, tratamento e vigilância da sífilis”, dizem, em nota. 

Sífilis congênita, em bebês, também aumentou mais de 600%
Diretamente ligada à sífilis em gestantes, a sífilis congênita também cresceu em todos os aspectos – tanto na Bahia quanto no Brasil. Enquanto no estado os casos saíram de 193, em 2008, para 1.311, no ano passado (crescimento de 679%), o aumento no Brasil foi de 445% - de 5.376 para 23.935. 

“Ela passa de mãe para filho. O bebê já pode nascer com algumas manifestações. Pode ter alterações ósseas, gânglios aumentados, lesões cutâneas, alguma meningite causada por sífilis. E tem as manifestações tardias, que são de surdez, alterações oculares, neurológicas, mandíbula curta”, cita a técnica do programa estadual de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs)/AIDS Aliucha Magalhães. 

Quando a criança nasce com a sífilis congênita, é um sinal de que a mãe teve a doença na gestação, não fez o tratamento durante a gravidez ou não descobriu a tempo. A transmissão da doença, nesses casos, é chamada vertical. 

“A mulher precisa ser diagnosticada na gestação para a gente conseguir reverter. A gente faz um teste logo no primeiro trimestre, repete no segundo e no terceiro”, explica a a coordenadora do programa de controle das DSTs do município, Helena Lima. Se o diagnóstico for positivo para sífilis, a medicação deve ser iniciada até 30 dias antes do parto para que a criança não tenha a infecção. 

Mesmo assim, quando os bebês nascem com sífilis, a doença é tratável. Na prática, de acordo com Aliucha Magalhães, do programa estadual, a maioria das crianças fica saudável. “O tratamento dura 10 dias, mas ele precisa ser acompanhado por até 18 meses para confirmar, com exames de sífilis. Já o acompanhamento oftalmológico e neurológico vai até os dois anos de idade”. 

Entenda a sífilis: 

O que é a sífilis? É uma infecção causada por uma bactéria. É uma doença curável e exclusiva do ser humano, transmitida sexualmente ou da mãe para o bebê.

Quais são as fases da doença?
- Sífilis primária: logo após o contatos sexual, a doença tem um período de incubação de, em média, três semanas. Na maioria das vezes, as pessoas não veem. É quando é denominada 'cancro duro' - é uma erosão no pênis, na vagina, no ânus ou na boca. Não dói e é acompanhado de gânglios. Desaparece de forma espontânea. 

- Sífilis secundária: surge de seis semanas a três meses depois da infecção. Dura seis meses e pode voltar até dois anos depois. Pode desaparecer sem tratamento, como também pode ter lesões cutâneas, nas mãos, pé. Entre os sintomas, também febre, mal estar, cefaleia, gânglios aumentados, perda da sobrancelha e, às vezes, comprometimento do fígado. 

- Sífilis latente: quando a doença não dá nenhum sinal. Pode ser recente - menos de um ano - ou tardia, quando é mais do que um ano. 

- Sífilis terciária: é quando a doença aparece depois de 10, 20 e até 30 anos. O mais comum é ter acometimento do sistema nervoso e cardiovascular, como aneurisma, meningite, atrofia do nervo ótico, paralisia e até demência. Nessa fase, pode fazer tratamento, mas há mais chances de sequelas. 

Como é diagnosticada?
Através de testes rápidos disponíveis na rede pública de saúde. Além desse teste, é habitual fazer também o chamado VDRL, para conhecer mais aspectos da doença. 

Como é feito o tratamento?
É feito com penicilina, disponível gratuitamente em toda a rede pública. Mesmo após o tratamento, é preciso fazer exames, a cada seis meses, nos dois primeiros anos, para garantir que não tem mais a doença. 

Onde é possível fazer o diagnóstico? 
Tanto os testes rápidos quanto os do tipo VDRL estão disponíveis gratuitamente em toda a rede pública de saúde - tanto municipal, quanto estadual. Confira a lista dos postos da rede municipal aqui e os da rede estadual nesse link

Onde é possível fazer o tratamento? 
O tratamento é gratuito e está disponível em toda a rede pública. Pode ser encontrado em qualquer uma das unidades de saúde da rede municipal ou da rede estadual. 


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