Siga o dendê: 12 tabuleiros mágicos para comer acarajé em Salvador

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29.03.2022, 06:03:00
Cristiane Marques de Jesus faz seu ritual no Garcia antes de começar a trabalhar (Foto: Paula Fróes)

Siga o dendê: 12 tabuleiros mágicos para comer acarajé em Salvador

Do Bonfim a Itapuã, uma rota para desfrutar de bons acarajés e abarás na cidade

Os tabuleiros estão em bairros nobres e em todas as quebradas, uns bem simples e outros cheios de atrativos. “Antigamente o tabuleiro tinha muita coisa, caruru, sarapatel, acaçá, fruta...”, conta a chef Leila Moreira, do restaurante Dona Mariquita, ela própria registrada como uma Baiana de Mingau. 

Hoje, a maioria das baianas se concentra na feitura da dupla acarajé e abará e no bolinho de estudante, mas muitas seguem mantendo os ensinamentos do axé, como faz a baiana Cristiane Marques de Jesus, a Kika, lá no Garcia: antes de começar o trabalho, ela distribui seus 7 mini-acarajés para os erês. “Temos que cultivar as nossas raízes”, afirma. 

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Segundo a Associação Nacional das Baianas de Acarajé (Abam), Salvador tem cerca de 3,5 mil baianas – que foram duramente golpeadas pela pandemia. Mas elas voltam, aos poucos, à antiga rotina e se reinventam em estratégias de vendas e comunicação. Além de devidamente regulamentada, a baiana de acarajé é patrimônio em três esferas: da Humanidade pelo Iphan, Imaterial da Bahia e Cultural de Salvador. 

E, antes de tudo, é motivo de paixões e disputas acaloradas. Por isso, a ideia de fazer um roteiro com dicas de boas baianas pela cidade é um tanto quanto perigosa. Sendo assim, pedi ajuda a gourmets, chefs e apreciadores dos mais diferentes perfis, para conseguir traçar uma rota do tabuleiro. Segue o cheiro que deve ter um perto de você...

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Dona Ângela dos Santos, a Neinha: 47 anos de trabalho na Avenida Sete (Foto: Paula Fróes)

Onde comer 

1. Pelourinho/Abará do Taboão 
Se você não quer ficar na dúvida entre o abará e o acarajé (ou outras tentações) o Abará do Taboão é a pedida ideal. Pois no seu reluzente caldeirão, colocado todas as tardes ali pertinho da Casa do Benin, a única estrela é o abará, que já vem com camarão e pimenta na massa, receita da família há mais de 60 anos, quando vender abará temperado ainda não era moda na cidade. A tradição foi passada da baiana Olga para sua filha Jaciara Cupertina, de 71 anos, atual titular do ponto, que trabalha com as filhas Telma e Tatiana, e com o neto Helder. “Quantas vezes mudo a rota só para passar pelo Taboão e assegurar meu abará?”, pondera o gestor cultural Chicco Assis, degustador de outros carnavais. Dando uma pequena modernizada, agora a baiana oferece uma versão sem pimenta, para os mais sensíveis. E os acompanhamentos? Só pimenta e camarão. Pra que mais?

Rua Padre Agostinho Gomes, perto da entrada do Taboão, de terça a sábado, a partir das 17h. Preços: R$ 7 e R$ 8 (com camarão)

 2. Mercês/ Acarajé da Neinha (@acarajedaneinha) 
 O movimento no tabuleiro de Neinha começa cedo, a partir das 13 h. Instalada estrategicamente na encruzilhada entre a Av. Sete e o Politeama há 47 anos, o local é parada obrigatória para quem quer um acarajé crocante, feito da mesma maneira, desde sempre, com “feijão bom, azeite bom e uma massa bem batida”. Vestida como manda o figurinho e acompanhada de dois ajudantes, Dona Ângela Maria Santana, 64 anos, vem do Iapi para comandar a função diária no ritmo frenético da avenida mais movimentada da cidade. “Ela é clássica”, resume a jornalista Silvana Moura. “Os camarões são grandes e o vatapá é no ponto”, atesta a chefe Angélica Moreira, do Ajeum da Diáspora. 

 Av. Sete, em frente ao Sebrae, de segunda a sábado, das 13h às 19h; Preços: acarajé e abará, R$ 7 e R$ 10 (com camarão); bolinho de estudante (R$ 5) e cocada de amendoim (R$ 7)

3. Garcia/ Acarajé da kika
Cristiane Marques de Jesus, 43 anos, é conhecida mesmo como Kika. A baiana favorita do ator e afrochef Jorge Washington conta que está na labuta desde os 12, quando começou a ajudar sua ialorixá na feitura e venda dos quitutes. Depois atuar ao lado do Centro Médico Garibaldi e na Praça Pedro Archanjo, no Pelourinho, ela resolveu colocar seu tabuleiro no Garcia, bairro onde mora, oferecendo acarajé, abará e bolinho de estudante, sempre a partir das 15h. Seus segredos: lavar bem o feijão, deixar a massa branquinha e temperar de forma equilibrada. Além do sabor e da crocância”, atesta Jorge, os acompanhamentos como o vatapá, o caruru e o camarão fazem a diferença. “É tudo muito gostoso. E eu nem gosto de comer acarajé com muito acompanhamento, mas o de Kika é diferenciado”.

Rua Clemente Pires, vulgo Beco do Álvaro, em frente ao Tempero do Abdala, das 15h às 20h30; Preços: acarajé e abará, R$ 8  e R$ 10 (com camarão); bolinho de estudante (R$ 4) 

4. Pituba/ Acarajé Dária e Laura (@acarajedariaelaura) 
 Dária e Laura são mãe e filha e formam uma dupla afinada, que está há 36 anos na Rua dos Maçons, na Pituba. Pertinho de onde mora a chef Leila Carreiro, do restaurante Dona Mariquita, no Rio Vermelho, de onde ela testemunha a fila se formar, todos os dias, antes delas iniciarem as vendas, às 17h30. “O acarajé é uma delícia”, resume Leila, que serve todas as iguarias baianas no seu restaurante, mas não dispensa a ida ao tabuleiro. Aos 54 anos, Laura conta que o segredo é manter a qualidade dos ingredientes e gostar do que se faz. Atualmente, ela acompanha de perto a filial no Multi Shopping da Boca do Rio e sua filha Daila, de 27 anos, fica na Pituba. 

Rua dos Maçons, s/n°, na esquina do supermercado RedeMix, Pituba ; de segunda a sábado, das 17h30 às 21h;

Avenida Octávio Mangabeira, Boca do Rio, de terça a sábado, das 16h às 20h;

Preços: acarajé e abará, R$ 11 e R$ 13 (com camarão/Pituba) e R$ 10 e R$ 12 (Boca do Rio); cocada, bolinho de estudante e passarinha (R$ 7) 

5. Tororó/Acarajé da Lica (@acarajeeabaradalica) 
Depois de temporadas no Barbalho e na Mata Escura, a baiana Aline Santos Palma, a Lica, de 42 anos, instalou seu tabuleiro no Largo do Tororó, há pouco mais de um ano. Ela não vem de uma família tradicional de baianas, mas nem por isso tem menos zelo com a feitura do bolinho que virou sua fonte de renda. “O acarajé dela é do tamanho que eu gosto, médio. E o vatapá é divino”, atesta a chef Angélica Moreira, do Ajeum da Diáspora, moradora do bairro e conhecedora de vários tabuleiros da cidade. Um dos segredos é o feijão: “Só uso feijão macaço, pois ele deixa a massa leve e crocante. Tenho o mesmo fornecedor há sete anos”, afirma Aline, que fez curso no Senac Pelourinho, estudou gastronomia da Universidade Católica e chegou ser chef em um restaurante, antes de se tornar baiana. 

Largo do Tororó, próximo à distribuidora de água, das 17h30 às 21h30 (segunda a sexta) e das 17 h às 21h30 (sábado); Preço: acarajé e abará R$ 7 e R$ 8 (com camarão) 

6. Rio Vermelho e Itapuã/Acarajé da Cira (@acarajedacira) 
Xanddy prefere o de Itapuã: “Não é apenas pela fama, mas é pelo sabor diferenciado mesmo. Tem cheio e gosto da nossa Bahia”. Já Margareth, que se declara uma “gourmet de acarajé”, cai de amores pelo do Rio Vermelho: “o acarajé é muito especial, eles prezam pelo sabor, pela qualidade do azeite, os camarões são grandes e bem temperados, uma delícia. Nota 10”. O acarajé da baiana Cira, que morreu em 4 de dezembro de 2020, no dia de Iansã, virou uma unanimidade na cidade. Praticamente todas as pessoas entrevistadas nesta matéria têm um lugarzinho em sua lista para o tabuleiro aberto por Cira em 1967. Além do acarajé, sempre fresco e crocante, e da apresentação impecável, o tabuleiro mantém a fartura e a tradição de oferecer itens como cocada puxa e doce de tamarindo – itens cada vez mais raros de se achar nas ruas da cidade.  

Largo da Mariquita, Rio Vermelho, de segunda a quinta (14h30 às 23h), sexta ( 14h30 à 0h), sábado (11h à 0h) e domingo (11h às 22h30)
Rua Aristides Milton, s/n Itapuã (71) 3249-4170, de segunda a domingo, das 10h às 22h; Preços: acarajé e abará, R$ 12 e R$ 15 (com camarão), bolinho de estudante, passarinha, cocada e doce de tamarindo (R$ 9) 
 

7. Rio Vermelho / Acarajé da Dinha (@acarajedadinha) e Acarajé da Regina (@acarajedaregina) 
Se o Largo da Mariquita é o território de Cira, o Largo de Santana é dividido por outros dois tabuleiros tradicionais, que merecem nossa atenção. De um lado, está o Acarajé de Dinha, baiana que morreu em 2008 e popularizou a fama do Rio Vermelho como melhor point de acarajé de Salvador. Do outro, lado está Dona Regina, cujo tabuleiro original surgiu na Graça há mais de 40 anos, e completa a tríade especial do azeite no bairro mais boêmio da cidade. 

Dinha: Largo de Santana, s/n, das 15h às 22h (seg a sex), das 13h às 22h30 (sáb) e das 12 às 22h (dom). Preços: Preços: acarajé e abará, R$ 13 e R$ 15  (com camarão), bolinho de estudante, R$ 7

Regina: R. Guedes Cabral, 81, das 12h às 18h (quar a sex, das 15h às 21h e sáb a  dom, das 11 às 21h). Preços: acarajé e abará, R$ 12 e R$ 14  (com camarão) , bolinho de estudante, R$ 6
 

8. Brotas/Acarajé da Meire (@acarajedemeirebrotas) 
Brotas é aquele mundão de divisões geográficas difíceis de definir, e certamente tem várias baianas boas espalhadas em seu território. Como ex-moradora do bairro, quero indicar o Acarajé da Meire, descoberta recente. Fica próximo do fim de linha e oferece um acarajé saboroso, com acompanhamentos generosos.  Dá para sentar e saborear com calma, tomando uma cerveja muito gelada.  

Rua Professor Alipio Franca, 1, de segunda a sábado, das 15h às 22h; Preços: acarajé e abará, R$ 10, R$ 12 (com camarão) e R$ 14 (com siri); bolinho de estudante (R$ 4)

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Rita e Rene assumiram o posto da mãe, Dona Alaíde: tradição no tabuleiro (Foto: Paula Fróes)

9. Ondina/Acarajé da Alaíde (@acarajedaalaide) 
Rita, Rene e Rosana são as filhas de Dona Alaíde, 72 anos, e agora seguem adiante com a tradição de baianas de acarajé da família. Devido a alguns problemas de saúde, a matriarca não tem vindo mais no tabuleiro, que já soma 20 anos no local, ao lado da Paróquia da Ressurreição. Seguimos a estratégia de minha mãe. Meu pai acorda 4h, coloca o feijão de molho, bate a massa... toda a família ajuda”, conta Rita, que abandonou a enfermagem para se tornar baiana. O resultado da dedicação, atesta a professora da UFBa Denise Carrascosa, é um acarajé maravilhoso e um vatapá é extraordinário. “Sempre passo lá nas quartas, no intervalo das aulas, e estou sempre levando gente para experimentar”, diz Denise, que é professora do curso de Letras e expert no assunto dendê. 

 Av. Oceânica, s/n, Ondina, ao lado da Igreja da Ressurreição, de terça a sexta, das 15h às 19h30; Preços: acarajé e abará, R$ 10 e R$ 12 (com camarão), bolinho de estudante (R$ 5)

10. São Gonçalo do Retiro/ Acarajé da Cida (@baianacida) 
Com a pandemia, o delivery passou a ser a realidade de muitas baianas de acarajé. Cida Santos ou Cida de Nanã, depois de décadas de trabalho nas ruas, só está oferecendo seus quitutes nesta modalidade ou em eventos. Integrante da família ilustre do Ilê Axé Opô Afonjá, onde aprendeu a cozinhar, Cida é neta de Mestre Didi e foi a modelo inspiradora de Bel Borba para homenagear as baianas no monumento em Amaralina. “Ela tem axé e respeita a ancestralidade da comida preferida de Yansã”, diz a jornalista Silvana Moura, pesquisadora e amante da cultura negra, “especialista” no assunto baiana de acarajé. “Ela faz um acarajé crocante, um vatapá de chorar e um abará de gemer”, elenca.

São Gonçalo do Retiro/ Acarajé da Cida . Peça o seu:  71 99155-3466; Preços: acarajé/ abará, R$ 5 e R$ 6 (com camarão), porção 12 pequenos R$ 15 Taxa de entrega a combinar

11. Paralela/ Acarajé da Olga (@acarajedaolga) 
O fechamento do supermercado Extra, na Paralela, fez a baiana Olga, 64 anos, procurar outro ponto para seu tabuleiro. Mas ela acabou ficando bem próximo, para garantir a fidelidade da clientela conquistada em 15 anos. Foi difícil mas deu tudo certo”, resume a filha Rosângela Pereira, 48, que trabalha com a mãe.  Gente exigente como a chef e professora do Senac Ana Paula Tadeu, do restaurante Saborana, que destaca, além da crocância e do tamanho sem mesquinharia, a qualidade do camarão e do vatapá.  “As vezes as pessoas reclamam do preço de um acarajé, mas é uma refeição e dá muito trabalho”, resume.

Rua professor Jairo Simões, na rua das faculdades, ao lado do antigo Extra, de segunda a domingo, das 16h30 às 22h; Preços: acarajé e abará, R$ 10 e R$ 13 (com camarão), bolinho e cocada (R$ 5)

12. Bonfim/Acarajé da Kátia 
Nascido e criado na Cidade Baixa, o cantor e compositor Rodrigo Sputter, vocalista da banda de rock The Honkers, conhece bem os tabuleiros de sua área, já que é amante das iguarias de dendê. Ela conta que já conhecia Kátia há um bom tempo e imaginava que ela vendia pouco, porque fica próxima do tabuleiro de Jandira (@acarajedajandira), famosa na região. Mas um amigo recomentou e ele foi tirar a prova. “É muito gostoso e crocante”, convida. “O tabuleiro é muito simples, então a gelera não imagina que é tão bom.  Ela chega por volta de 15h e acaba rapidinho. É muito gostoso e crocante, os ingredientes bons, tá sempre quentinho. É bom chegar cedo”, convida Rodrigo, que manda a dica precisa: fica entre o coco do China e a Panemix, em frente ao Castelinho. Procure saber. 

 Rua da Imperatriz, 79, Bonfim, de segunda a sábado, das 15h às 19h;  Preços: R$   7 e R$ 8 (com camarão)
 



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