Sofrimento na folhinha rubro-negra

victor uchôa
16.02.2019, 05:00:00

Sofrimento na folhinha rubro-negra


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Na Bahia (ou mais especificamente em Salvador), a sapiência que emana das ruas manda avisar repetidamente que o ano só começa de verdade depois do Carnaval.

A depender da predileção por um ou outro festejo, tem quem defenda um marco diferente: o ano começaria, efetivamente, após a Lavagem do Bonfim ou passada a Festa de Iemanjá (a festa é dela e o nome é este, sempre bom lembrar).

Mas, de uns tempos pra cá, os torcedores do Vitória ganharam autonomia para estabelecer uma nova pedra fundamental na folhinha: o ano rubro-negro começa no primeiro vexame da temporada.

Perceba que o planejamento é minuciosamente elaborado para, em data itinerante - tal qual a Lavagem do Bonfim, o Carnaval ou a Lavagem de Itapuã -, o time passar uma vergonha logo no início (gregoriano) do ano.

Daí, quem estava atento solta aquele velho “eu já sabia”. Por outro lado, quem estava (com razão) mais focado no Verão do que na bola toma aquele choque de realidade e passa a dar um pouco de atenção ao contínuo e gradual processo de varzearização do Vitória. Pronto: está simbolicamente aberto o ano rubro-negro.

Às vezes (só às vezes), estes vexames inaugurais servem para dar um freio de arrumação que visem prevenir vergonhas futuras. Mas, nos últimos anos, as humilhações de abertura só têm servido para os dirigentes repetirem as mesmas bobagens que levam a lugar nenhum.

Difícil apontar, passando o olho em temporadas recentes, qual o pior time montado pelo Vitória, mas o de agora briga fortemente pela dianteira, até porque os mandatários conseguiram conduzir, num curtíssimo espaço de tempo, um clube que tinha o maior orçamento da sua história a uma situação pré-falimentar – e a eliminação da Copa do Brasil só alargou o buraco financeiro.

A situação é tão periclitante que ver jogadores  como Leandro Vilela em campo causa até a tresloucada sensação de que um Uillian Correia da vida não é tão ruim (só que é). Enquanto isso, Léo Gomes esquenta o banco.

A verdade é que o Vitória parece ter atingido o objetivo que buscou temporada após temporada, de uns anos pra cá: virou um time fraco, inexpressivo, que não impõe respeito nem diante de equipes do interior da Bahia ou de pouca representatividade no Nordeste, nivelado que está com eles (ou abaixo, como se viu esta semana).

Agora, que o rubro-negro passou sua primeira vergonha e 2019 começou de verdade, o presidente Ricardo David tem duas opções: 1) seguir com sua conhecida conversa mole de que tudo vai se resolver ou 2) convocar uma entrevista coletiva, admitir que o time é uma carniça e que ele não faz a menor ideia do que é o futebol, deixar o orgulho de lado e dizer que vai embora, levando junto seus asseclas. A opção 2 é mais digna.

Tranquilidade mesmo só pra quem pode fazer sua programação anual baseado apenas no calendário informal das coisas da Bahia.

Por sua vez, quem se baseia na folhinha rubro-negra para começar o ano energizado, é bom buscar proteção, porque fatalmente terá que lidar com as rebordosas que recebe na caixa dos peitos.

Victor Uchôa é jornalista e escreve aos sábados.

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