‘Superoutro é o Coringa brasileiro’: o filme baiano que é mais louco que o hollywoodiano

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03.11.2019, 11:30:00
Atualizado: 04.11.2019, 14:13:02

‘Superoutro é o Coringa brasileiro’: o filme baiano que é mais louco que o hollywoodiano

História de ‘super-herói’ perambulando por Salvador completa 30 anos; Bertrand Duarte comenta semelhanças entre loucura e revolta de personagens

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Quando éramos adolescentes, eu e meu irmão Téssio adorávamos um programa que tinha na Rádio Metrópole chamado ‘Cu da Madruga’. Talvez só nós dois e mais uns 30 abestalhados em toda a cidade ouvissem aquela porcaria boa, mas o motivo que levava a gurizada a parar pra acompanhar um programa de rádio, salvo engano, toda quinta à noite, era um só: a loucura.

Retalhada em postas, envolvia o fascínio pelo non-sense, ou o desregramento, a rebeldia (que vinha no próprio nome do programa) e até o desrespeito/desaforo com que os apresentadores tratavam alguns ouvintes que entravam na linha pra, igualmente, falar bobagem.

Na época -- final dos anos 90 pra início dos 2000 --, o Brasil não operava num nível de surrealidade e loucura tão alto como hoje, e certa anarquia fazia bem, animava as coisas em meio à pasmaceira analógica.

Em 2007, já digital, consegui meu primeiro estágio de Jornalismo, por acaso, na Metrópole, num site tão anárquico quanto o ‘Cu…’ chamado O Aranha (há muito morto e enterrado). Quando nasceu o projeto, levei James Martins, meu colega de sala no Cefet, pra fazer junto comigo.

Deu tão certo (ou errado, enfim) que a coisa desaguou num programa de rádio que era, veja só, uma tentativa de cópia do 'Cu da Madruga': o Cacete Armado.

Entanto, o bonde da graça já tinha passado: ouvir palavrão em meio de comunicação já era mais comum, ser sem-noção já não era tão novidade assim e, por não sermos tão loucos, a maluquice não deu tão certo. O Cacete desarmou em seis meses.

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Bom, agora sim vou começar a falar do ‘Superoutro’ -- que terá exibição especial no Cine Glauber durante o Panorama Coisa de Cinema na próxima terça, motivo pelo qual resolvi falar sobre ele -- e começar a juntar as pontas, pra não parecer um texto tão louco como o ‘Coringa’.

Cartazes do 'Superoutro', de Edgard Navarro, e do 'Coringa', de Todd Phillips (Foto: Reprodução)

Passei o Réveillon de 2010 pra 2011 na casa dos avós de Carolina Duarte, em Villas do Atlântico. Eu namorava uma moça que morava por ali e meu amigo Álvaro Andrade namorava com Carol, que é sobrinha de Bertrand Duarte. 

Betrand faz o protagonista de ‘Superoutro’, filme de 1989 que, portanto, está completando 30 anos de lançado pela mente insana de Edgard Navarro.

Bertand passou lá na festa. Embora eu não recorde quase nada daquela noite, mais pelo lapso temporal que pelo teor alcoólico, uma coisa lembro de ter comentado: a ‘cena da cagada', na qual se faz um close no cu de Betrand largando o barro.

É uma das cenas marcantes do filme, assim como a passagem da masturbação com close na chibata e trilha do 'Roletrando', de Silvio Santos.

Bom, não lembro o que ele respondeu. Talvez tenha sido evasivo, e acho mesmo que por algum tempo chegou a ter vergonha da coisa (pode ser engano meu, mas lembro de ter ouvido algum comentário nesse sentido). 

Passados 10 anos, James, meu amigo que ainda está na Metrópole, perguntou a ele (recentemente) sobre a cena, matando de novo minha curiosidade. Eis a resposta, em vídeo (hilário, garanto).

Aliás, leia a partir daqui
Por óbvio, não voltei a fazer a pergunta sobre a ‘cena da cagada’ a Bertrand, mas voltei a incomodá-lo essa semana para saber se ele, assim como eu, achava o ‘Coringa’ (de Todd Phillips, sucesso atual de crítica e bilheteria) muito parecido com o 'Superoutro'.

Argumentei que ambos são personagens com problemas psiquiátricos que, de alguma forma, têm essa situação agravada pela desassistência do estado e da própria sociedade -- no caso do 'Superoutro', ele já surge louco de início, mas dá pra supor as condições pregressas quando é despejado de casa, por exemplo --, e, diante disso, ambos se rebelam contra a sociedade de forma violenta.

“O Superoutro é o Coringa brasileiro”, concorda Betrand, acrescentando sua visão ampliada sobre os casos.

“Ambos são cidadãos excluídos pelo sistema, e que cada um pira de acordo com a sua cabeça, mente. O Coringa se defende devolvendo à sociedade o mal que foi impetrado a ele e o Superoutro devolve com agressividade também, com algumas situações antissociais, que não deixa de ser uma espécie de devolução dessa agressão que ele sofre, embora ele tenha um componente mais ingênuo, que tá nas fantasias, na imaginação dele”, analisa. 

Para o ator, os maus tratos sofridos pelo 'Superoutro' nesta Gotham dos trópicos potencializaram o auto-flagelo da personagem-título. 

“Ele quer uma mulher, ele quer ser um homem normal. Mas pra isso ele tenta se libertar de outra forma, e é onde entra a questão da esquizofrenia, que talvez tenha um componente de gatilho, que detonou essa esquizofrenia por conta do mau trato que ele talvez tenha sofrido antes. Isso porque ele já começa o filme pirado, vagando pelas ruas, e meio que despejando talvez os componentes conservadores que ele recebeu na cabeça”, lembra ele, citando uma cena de masturbação com uma revista de sacanagem que ele acha no lixo. “Ele também tem a fase do arrependimento, que vem toda a carga cristã”, complementa.

Como não são as mesmas histórias, os rumos de cada loucura também seguem caminhos diferentes. Enquanto o Coringa, ao ‘apertar seus gatilhos’, escolhe fazer mal aos outros, o Superoutro, ironicamente, escolhe a si mesmo como alvo.

Para o caso de você não ter assistido aos filmes, não vou falar muito além disso -- embora eu possa garantir que, na produção local, que é muito mais louca e original, você vai se chocar e rir com muitas cenas, como as dele invadindo um prédio na Graça, dançando ‘Faraó’ na Avenida Sete, escarrerando um crente pelo Tabuão ou jogando bosta em alguém na Barra. Pronto, sem mais spoiler, pra você não mandar eu tomar naquele lugar, de madrugada.

Enquanto os laureus para seu 'Coringa' não vem, vale lembrar que o média-metragem baiano venceu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção (Edgard Navarro) e, claro, de Melhor Ator (Betrand Duarte) do Festival de Gramado, o nosso Oscar, em 1989. Você não é louco de deixar de assistir.

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