Terreiro fala em descaso com corpo de Mãe Stella: 'nua e enrolada num lençol'

salvador
29.12.2018, 10:14:00
Atualizado: 29.12.2018, 22:26:18
(Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Terreiro fala em descaso com corpo de Mãe Stella: 'nua e enrolada num lençol'

Reclamação também é sobre a qualidade do caixão comprado pela esposa dela

Sem nenhuma roupa, enrolada apenas em um lençol branco e em um caixão de madeira baixa qualidade. Foi dessa forma que, segundo disseram representantes do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e de outros terreiros que participam das homenagens a Mãe Stella, que o corpo da ialorixá chegou a Salvador.

Ogã do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Antônio Carlos Santos afirmou que a sensação das pessoas do terreiro, ao ver o corpo da sacerdotisa, foi de descaso. "O corpo dela estava nú apenas enrolado com um lençol. Ela estava em um caixão ruim que não era à altura de Mãe Stella. Agora, sim ela tem um fim merecido". 

Do terreiro ao cemitério: veja como foi o funeral de Mãe Stella

Antônio se refere ao caixão que Mãe Stella estava sendo velada, na cidade de Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano desde o dia da sua morte, na última quinta-feira (27).

O Tribunal de Justiça da Bahia em Nazaré determinou a transferência do corpo de Mãe Stella de Oxóssi para o Ilê Axé  Opô Afonjá,  em Salvador. Na decisão, a juíza Caroline Rosa de Almeida Velame Vieira  ainda determinou que o sepultamento não fosse realizado em Nazaré, onde estava sendo organizado pela esposa de Mãe Stella, a psicóloga Graziela Domini.

O pedido foi feito à Justiça pela Sociedade Cruz Santa, entidade civil que  mantém e administra o Ilê Axé  Opô Afonjá. As petições foram  protocoladas  durante a madrugada desta sexta. 

Na decisão, a juíza entendeu que "se deve conceder à comunidade o exercício do culto religioso, ante a supremacia do princípio que aqui seria violado, de forma irreversível, do exercício livre da religião da qual a Iya Stella de Oxossi era líder, bem como a proteção do patrimônio histórico e cultural do exercício da religião de matriz africana".

No pedido para a Justiça, a Sociedade argumentou que era necessário fazer as "obrigações religiosas referente a religião de matriz africana candomblé, o ritual do sepultamento e, subsequente, do axexê". 

Uma sacerdotisa do Afonjá, que preferiu não se identificar, criticou a forma como Graziela estava conduzindo a despedida da esposa. “Graziela colocou um caixa de madeira de caixote, o mais barato e mãe Stella estava nua no caixão, enrolada apenas em lençol branco", afirmou.  

Depois que o corpo chegou em Salvador foi embalsamado e colocado em outro caixão de madeira. O corpo foi envolto em um tecido de morim cru branco, que remete a Oxalá - o pai da vida e da morte. 

Durante a madrugada deste sábado (29), centenas de religiosos ligados ao candomblé acompanharam o velório da ialorixá. A maioria comemorou a possibilidade de ser feito o sepultamento com rituais. 

"A transferência do corpo para Salvador foi uma vitória. Xangô fez Justiça. Mãe Stella tinha que passar por esse rito. Tinha que ser sepultada aqui em Salvador. Mãe Stella chegou num patamar que pertence a todas as casas de axé do Brasil. Ela tem o respeito de todas as casas", explica Josuel Queiroz, professor e guia de turismo que é ogã do Terreiro do Cobre, do Engenho Velho da Federação. 

Mãe Cida de Nanã destacou que o cortejo com os rituais do candomblé que estão sendo feitos desde a chegada de Mãe Stella em Salvador fazem justiça à sua trajetória. “Agora sim Mãe Stella está tendo as homenagens que merece”. 

O corpo de Mãe Stella foi enterrado às 11h deste sábado (29) no cemitério Jardim da Saudade, em Brotas. Em seguida, aconteceram rituais secretos e restritos para escolher quem sucederá a ialorixá no comando do terreiro que foi fundado em 1910.

A esposa de Mãe Stella foi procurada pelo CORREIO para falar sobre as críticas ao sepultamento, mas não atendeu as ligações. 

De enfermeira a zeladora do axé
Mãe Stella de Oxóssi, Odé Kayodé, foi a quinta ialorixá a comandar o Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá fundado em 1910 por Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha. Ela nasceu Maria Stella de Azevedo Santos, em 02 de maio de 1925. Enfermeira de formação e também escritora, publicou seu primeiro livro em 1988. Chamado E daí Aconteceu o Encanto, o livro foi escrito em parceria com Cléo Martins e traz histórias sobre as origens do Opô Afonjá e das primeiras ialorixás que comandaram a casa. 

Mãe Stella também é autora dos volumes Meu tempo é agora (1993); Òsósi - O caçador de alegrias (2006) que traz ìtans (narrativas míticas) de Oxóssi, sei orixá regente; Òwe-Provérbios (2007), uma coletânea de ditos em Iorubá e brasileiros acompanhados das interpretações da escritora; o infantil  Epé laiyé - terra viva(2009), que narra a história de uma árvore que ganha pernas; e Opinião(2012), reunião de crônicas selecionadas entre as que a ialorixá publicou na imprensa baiana.


Correção: Ao contrário do que foi publicado anteriormente, Cida de Nanã não é ialorixá e sim Otun Dagan do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. A matéria foi corrigida às 22h18.


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