Turismo: uma viagem pela trilha do Rio Urubamba no Peru, através do Valle Sagrado

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07.08.2017, 15:58:00
Atualizado: 07.08.2017, 16:12:52

Turismo: uma viagem pela trilha do Rio Urubamba no Peru, através do Valle Sagrado

Um passeio começando por Cusco

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Diferentemente da maioria dos viajantes que chegam à região de Machu Picchu, o relato da nossa viagem ao Peru começa no final. Resolvemos fazer diferente, apesar desta não ser uma reportagem sobre esse antigo santuário inca, mas apreciarmos a sua história ao longo de toda a nossa viagem -, e saímos do Brasil via Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Fizemos o reverso. Desembarcamos de avião em Cusco, capital da civilização inca, a 1.076 km de Lima, e retornamos pela mesma cidade, de ônibus,  depois de quatro noites intensas, com micos divertidos durante a trilha do Rio Urubamba, que corta o Valle Sagrado da região cusquenha.

Expedição do Hotel Explora do Valle do Sagrado passa pelo Parque Arqueológico de Saqsayhuaman, com uma vista incrível de Cusco

Mico 1
Foi justamente no nosso primeiro passeio, que deveria ter sido de 32 quilômetros se eu não tivesse caído da bicicleta no meio do percurso. A van que nos deixou na comunidade de Taray, a 1 hora e 40 do Hotel Explora do Valle Sagrado, estava muito próxima. Depois de receber os primeiros-socorros pelo guia, acompanhei o resto do passeio na perua. Vimos muitos terraços nas montanhas onde os incas plantavam milho e batatas, além de resquícios de como a civilização desviou o rio. Estamos falando de um povo que incluiu várias etnias e que foi achado pelos espanhóis no Século XVI. Um detalhe: junho é a época da colheita na região. Então vimos muitos campos cobertos de milho com grãos gigantes – únicos no mundo -, durante nossa pedalada. Belezura ver el maíz secando ao sol!

Época de colheita: campos cobertos de milhos com grãos gigantes

Volta
Muitos pisco sours (‘caipinha’ peruana à base de pisco, clara de ovo e limão) depois, continuamos o relato da volta. Escolhemos viajar à noite para economizar no hotel. O ônibus saiu às 22h e chegou em La Paz, capital da Bolívia, às 13h. O bus custou $US 21.90 e foi comprado online no TicketsBolivia.com. Saímos da capital boliviana às 16h30 e chegamos em Santa Cruz de La Sierra, no mesmo país, às 10h30. O mesmo site vende o bilhete, que saiu por $US 32.12. Outra vez escolhemos dormir no ônibus para gastar menos. Cansativo? Sim. Divertido? Também, mas talvez devêssemos ter ido mesmo de trem e ônibus e voltado de avião.

O famoso Trem da Morte hoje é o “trem do progresso” por ligar vários destinos

Trem da Morte
Pegamos finalmente o tão sonhado “Trem da Morte”, que está muito longe de ser perigoso. Ganhou essa fama por conta de acidentes que ficaram no passado e por transportar pessoas com doenças terminais. Hoje ganha o nome de “trem do progresso” por ligar tantos destinos e dar empregos na América do Sul. Escolhemos o Ferrobús, por possuir assentos que viram cama,  ar-condicionado, serviço de bordo, entre outras amenidades. Saiu por mais $US 10.22. Partimos às 13h20 de Santa Cruz e chegamos a Puerto Quijarro, na fronteira com Corumbá, por volta das 6h. Por um pouco mais de 60 dólares dá para chegar do
Peru ao Brasil. Também compramos on-line no TicketsBolivia.com.

De lá, passamos pela alfândega – lembre-se de tomar vacina contra a febre amarela e levar o certificado da Anvisa, já que a Bolívia o requer. Um táxi (R$ 30) depois – ufa! – e chegamos em Corumbá, onde pegamos um ônibus para São Paulo, pela empresa Andorinha. Só faltou mesmo dar uma voltinha em um torito (moto-táxi similar a um triciclo) pelo Valle Sagrado! Uma viagem de dez mi- nutos custa, em média, um dólar ou três soles (a moeda peruana é o sol).

Crianças vestidas de Pablito ou Pablucha: crença

All inclusive
Por que tantas pessoas fazem o sacrifício de viajar de trem e ônibus até Cusco, Machu Pichu ou Valle Sagrado? Porque, ao chegar lá, descobrem que é deslumbrante. Ainda não sabíamos o que nos esperava na volta – lembrem-se que esta é uma história de trás para a frente -, e escolhemos ficar no Explora (explora.com), um hotel bastante confortável no meio do Valle Sagrado, em Huayllabamba. Uma viagem mezzo mochileiro, mezzo quarentão que precisa de conforto. O sistema all inclusive do Explora tem alimentação saudável e deliciosa (café da manhã, almoço e jantar com destaque para pratos peruanos gourmet, além de lanchinhos e tapas), bebidas, incluindo uma carta de vinhos de primeira, quase todos chilenos, de onde é o grupo, que tem hotéis ainda na Patagônia chilena, Ilha de Páscoa e Deserto do Atacama.

Viagem de dez minutos no Torito custa cerca de 1 dólar

História
Os passeios também fazem parte do pacote. Co- nhecemos bastante a cultura inca, além de paisagens de tirar o fôlego, mostradas por guias peruanos formados em turismo e com um orgulho imenso da sua história. Para completar, sauna seca e mo- lhada, além de piscina e ba- nheira de hidromassagem, na casa de banho de Pumacahua (líder indígena pró-Espanha), onde o Explora encontrou pinturas do Século 18 no local e as preservou. Aparentemente, o local era moradia de uma amante de Pumacahua (1740-1815). Depois da queda da bicicleta, no dia seguinte, por coincidência, nossa exploração da cidade de Cusco começou no Mirante de Taray, de onde vimos a igrejinha e a praça – forma como os espanhóis colonizaram o Peru, conhecida como reduciones (reduções). Justamente o local da nossa “bicicletada” ou “queda nos Andes”. Meia hora depois, nos debruçamos no Parque Arqueológico de Saqsayhuaman, com uma vista incrível de Cusco, a cerca de 3,5 metros acima do nível do mar. Descemos 250 metros e chegamos ao charmoso bairro de San Blas, que tem o artesanato cusquenho mais tradicional e famoso.

Spa com história: Casa de Baños Pumacahua, do Explora, tem pinturas do Século 18

Babadook
Na descida, comecei a notar bandeiras em forma do movimento LGBTQ. Babadook! Só que não! A flâmula de Cusco é uma homenagem ao deus do arco-íris, segundo o nosso guia, Abel Santander. “O deus Sol e a deusa Água recebem com
felicidade o arco-íris, que indica chuva e é sinal de que se poderá plantar depois do Inverno. Junho marca a celebração da Festa do Sol (no dia 24 de junho), ou Inti Raymi, na língua inca, o Quéchua, o solstício de Inverno (21 de junho), além da celebração da independência do Peru, quando Simon Bolívar chegou em Cusco no dia 25 de junho”, explicou o jovem cusquenho. Ele nos contou ainda que os seus conterrâneos não são tão receptivos ao movimento LGBTQ, mas admitiu que a procura pela felicidade, comuns às duas bandeiras, pode explicar a similaridade. Que assim seja!

High times
Na mais famosa praça de Cusco, a Plaza de Armas, toda enfeitada com bandeiras do arco-íris, vimos estudantes de escolas públicas ensaiando danças típicas para as competições que acontecem durante o mês de junho. A língua Quéchua está sendo ensinada novamente há cerca de quatro anos no equivalente ao ensino médio. Orgulho de ser inca! Qorikancha, no centro de Cusco, é o principal templo da civilização inca. Trata-se do umbigo (Cusco) do puma, já que a cidade tem a forma do felino. Força (Puma), Sabedoria (Cobra) e Condor (Liberdade) formam a trilogia de deuses. Ao caminharmos pelas ruas, vimos os pontos cardeais emplacados no chão, cuja referência é a Plaza de Armas. Entrada: 15 soles, cerca de 20 reais. O Mercado de San Pedro, também no centro de Cusco, traz artesanato, comidas típicas, frutas e verduras e foi construído com estrutura metálica da empresa de Gustave Eiffel, o mesmo da famosa torre parisiense, que dirigiu a construção. Charmoso e cheio de vida, o mercado é ótimo para comprar lembranças de viagem para os amigos. Aceitam real e dólar, além do sol, claro. Entrada gratuita.

Valle Sagrado acompanha curso do Rio Urumbamba: montanhas onde os incas viveram

Gay-friendly
Cusco pode não ser abertamente gay, mas tem suas opções de bares gay-friendly. Witches Garden tem culinária peruana e internacional. O café e bar Macondo é considerado o mais artsy. O Fallen Angel é outra opção de restaurante, do mesmo dono do Macondo. Há ainda duas discos, White Vinyl e Mama África. Os endereços e horários de funcionamento você encontra aqui: prideperutravel.com. Tivemos um almoço delicioso no restaurante Cicciolina (cicciolinacuzco.com), no centro de Cusco. O tartar de truta com wasabi e caviar estava uma pornografia de gostoso, com o perdão do trocadilho com a rainha pornô italiana. No hotel
Explora também experimentamos um ceviche de truta com manga que era de comer rezando, acompanhado de um delicioso Sauvignon Blanc chileno.

Interior do hotel Explora do Valle do Sagrado: design arrojado e arte no lobby

Ponto alto
Outro passeio emocionante foi até as Cinco Lagunas. Foi o mais alto que chegamos acima do nível do mar, a cerca de 4.365 metros. Pudemos ver plantações de batata e muitas criações de alpacas e carneiros. Valeu a pena fazer a caminhada no frio para ver as lagoas no alto das montanhas, algumas cobertas de neve. Para celebrar, na descida, a van do hotel nos esperava com a cerveja Cusqueña, que tem muitas variedades, feita até de quinoa. Em Ollantaytambo, cidade que ainda conserva a arquitetura inca, e é ponto de partida do trem para Machu Picchu, assistimos a uma procissão de crianças em louvor ao Senhor de Choququilca. O mais curioso foi vê-las representando o Pablito ou Pablucha, o guardião da montanha. Apenas meninos e homens podem representar o personagem, que é metade urso e metade humano. Carregam, de forma lúdica, um chicote para controlar a procissão. No lobby do Explora, entre um gole de pro-secco e um tapa feito com carne de cuy (porquinho da índia) e aipim, vimos dois livros de Mario Testino, mais famoso fotógrafo peruano, que aliás está em exposição em Berlim até 19 de novembro, na Galeria Helmut Newton. Mas ficamos surpresos ao conhecer o trabalho genial de outro fotógrafo do Peru, Martín Chambi (1891-1973). De origem indígena, ele é considerado um dos mestres da fotografia etnográfica na América Latina.

*Colaborou o jornalista e mestre em Estudos Latino-Americanos pela Ohio University

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