Um dos maiores autores da história louvou e se declarou à Bahia, mas ela nem tchum

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20.10.2019, 03:00:00
Atualizado: 22.10.2019, 01:17:12

Um dos maiores autores da história louvou e se declarou à Bahia, mas ela nem tchum

Pequeno monumento na Barra é homenagem isolada ao escritor austríaco Stefan Zweig, autor de 'Brasil, País do Futuro'; saiba o que ele disse sobre nós

O romancista e biógrafo Stefan Zweig em foto tirada para sua carteira de identidade brasileira (Foto: Arquivo/Casa Stefan Zweig)

“Com essa cidade teve início o Brasil e, com direito podemos dizê-lo, a América do Sul”. É com tal moral que o vienense Stefan Zweig, escritor mais lido, adaptado e paparicado de seu tempo, apresenta Salvador ao mundo no livro ‘Brasil, País do Futuro’, de 1941. A frase abre o capítulo ‘A Bahia - Fidelidade à tradição’, um dos três dedicados a esta cidade-nação no bloco ‘Voo Sobre o Norte’, com escalas seguintes em Recife e Belém.

Por coincidência, cumpri o mesmíssimo itinerário há um mês: saindo de Salvador, passando rápido em escala por Pernambuco, pousei no destino final, a capital paraense, de onde tirei elementos para compor a reportagem “O que é que Belém tem?”, publicada neste CORREIO domingo passado.

Me apaixonei por Belém, Recife-Olinda idem (amor antigo), mas Zweig não deu muita bola pras duas. Poucas palavras dedicou à pernambucana, e apenas loas tímidas com pouco aprofundamento para a paraense. Antes tinha circulado pelo Rio de Janeiro — a capital definiu como a cidade mais encantadora do mundo —, São Paulo (a força do café) e Minas (o brilho do ouro), mas foi a Bahia que mais o impressionou. Para demonstrar essa simpatia quase amor, caprichou na tinta.

Só para efeito de comparação, na versão em e-book da obra — que dá pra resumir como um elogio geral ao Brasil, especialmente à sua “democracia racial” e suas potencialidades —, são duas pagininhas para Pernambuco e outras sete para o Pará, divididas com algumas digressões.

A minha ideia aqui é resumir os principais trechos das 21 páginas dedicadas a Salvador — comparada por ele com Atenas, Alexandria e Jerusalém, tal qual elas “um santuário da civilização” — e entorno. Zweig ainda deu um rolé no Recôncavo e, em Cachoeira, caiu de boca nos charutos, um vício confesso.

Sandálias da humildade sobre a efígie de Stefan Zweig, um dos maiores escritores da história, no Porto da Barra (Foto: Arisson Marinho/CORREIO) 

Bróder de Freud (com quem vivia trocando ideia) e Rimbaud, autor de biografias de Balzac, Dostoiévski, Dickens, Maria Antonieta, Nietzsche e Tolstoi, entre outros, a vinda do também romancista e dramaturgo judeu foi um acontecimento no Brasil, para onde fugiu na Segunda Guerra.

Os nazistas mandaram queimar seus livros em praça pública e, quando parecia que Hitler dominaria o mundo, em 1942, o escritor e sua esposa, Charlotte Altmann (Lotte), cometeram suicídio em casa, em Petrópolis (RJ). O local hoje é um museu.

Na carta de adeus à vida, deixou um “carinhoso agradecimento a este maravilhoso país” por “tão gentil e hospitaleira guarida”. Em nome dos baianos, que até aqui só lhe renderam homenagem num discreto monumento no Porto da Barra, sem a devida citação à paixão que nos dedicou, trago também um carinhoso agradecimento, e reproduzo algumas de suas palavras para conhecimento.

***

  • Veneração

Com essa cidade teve início o Brasil e, com direito podemos dizê-lo, a América do Sul. Nessa cidade levantou-se o primeiro pilar da grande ponte lançada sobre o Atlântico, nela originou-se de matéria européia, africana e americana a mistura nova que ainda fermenta eficazmente. Veneremos, pois, a Bahia antes de a admirarmos! Essa cidade tem a prerrogativa de ancianidade entre todas as da América do Sul.

Com seus quase 400 anos, com suas igrejas, sua catedral e seus castelos, a Bahia é para o Novo Mundo o que para nós europeus são as metrópoles milenárias, o que para nós são Atenas, Alexandria e Jerusalém: um santuário da civilização. E, como ante uma fisionomia humana, sentimos respeitosamente diante dessa cidade que ela tem um passado glorioso.

Na América do Sul nada posso comparar com essa atitude altiva e majestosa com que a Bahia olha por cima do seu porto e seus castelos para o longe, para o Atlântico.

A Bahia está presa ao passado. (...) Todavia não abdicou, conservou sua posição e, com esta, uma incomparável dignidade.

  • ‘Rainha viúva de Shakespeare’

A atitude da Bahia é a de uma rainha viúva, de uma rainha viúva grandiosa como as das peças de Shakespeare. (...) Altiva e ereta olha do alto para o mar, no qual, séculos atrás, todos os navios se dirigiam para ela; ainda traz os antigos adereços, constituídos por suas igrejas e sua catedral, e essa dignidade de atitude continua a existir na sua população.

Podem as cidades mais novas, podem o Rio, Montevidéu, Santiago, Buenos Aires ser hoje mais ricas, mais poderosas, mais modernas, mas a Bahia tem sua história, sua civilização própria, seu modo de vida próprio.

A Bahia é uma cidade conservadora, uma cidade fiel à tradição: protegeu seus antigos monumentos contra a apressada invasão do que é novo e, através dos séculos, conservou íntegra, exteriormente, sua fisionomia e, interiormente, sua tradição. (...) A quem se aproxima da Bahia pelo mar, não se apresenta ela diferente do que o fazia no tempo dos vice-reis e dos imperadores.

Ela não está empobrecida hoje, não decaiu. Estacionou apenas, e isso lhe dá a beleza que têm todas as cidades que passaram decênios e séculos sonhando, como Veneza, Bruges, e Aix-les-Bains. (...) Permaneceu ela o que era: a cidade do antigo Brasil português, e só nela percebemos a origem do Brasil e a tradição secular deste país.

Gramado onde fica efígie de Stefan Zweig é ponto de descanso da galera no Porto
Gramado onde fica efígie de Stefan Zweig é ponto de descanso da galera no Porto (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)
Monumento fica bem em frente ao Forte Santa Maria
Monumento fica bem em frente ao Forte Santa Maria (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)
Foto oficial do casal Stefan e Lotte no Brasil, distribuída aos amigos em 1940
Foto oficial do casal Stefan e Lotte no Brasil, distribuída aos amigos em 1940 (Foto: Arquivo/Casa Stefan Zweig)
  • Cenários

Há ruas asfaltadas e muito perto delas ruas calçadas com pedras brutas; na Bahia podemos, num período de dez minutos, estar em dois, três ou quatro séculos diferentes, e todos eles parecem genuínos. O verdadeiro encanto da Bahia reside no fato de nela tudo ainda ser genuíno e não propositado; as chamadas “coisas dignas de serem vistas” não se impõem ao forasteiro, acham-se incorporadas de um modo imperceptível, no conjunto.

Velho e novo, presente e passado, luxuoso e primitivo, 1600 e 1940, tudo isso se une para formar um só quadro, emoldurado por uma das mais tranqüilas e aprazíveis paisagens do mundo.

Por toda a parte nessa cidade sentimos a tradição. A Bahia, ao contrário de todas as outras cidades brasileiras, possui um traje próprio, uma cozinha própria e uma cor própria.

De todas as cidades do Brasil foi ela a que mais fielmente respeitou a tradição. Só pelas suas pedras e ruas se compreende a História do Brasil, só essa cidade nos permite compreender como de Portugal nasceu o Brasil.

  • Baianas

No permanente pitoresco o que há de mais pitoresco são as baianas, as pretas gordas, de olhos escuros, com seu vestuário especial. (...) Não é comparável com nenhum outro, não é africano, não é oriental, não é português, mas sim, os três ao mesmo tempo.

A imponência dessas baianas propriamente não está no traje, está no garbo com que o usam, no seu modo de andar, nas suas maneiras. Sentadas no mercado ou na soleira duma porta, dispõem elas a sua saia como se fosse um manto real, de modo que parecem estar sentadas dentro duma enorme flor.

Essas baianas têm no andar a mesma majestade que apresentam quando assentadas. Carregam sobre a cabeça uma arroba, cestos com roupa, peixe, ou frutas; é um prazer vê-las andarem com isso pelas ruas, de pescoço altivamente erguido, com as mãos nos quadris, com o olhar sério e desembaraçado.

  • Lavagem do Bonfim

Tive a feliz oportunidade de ver a do Senhor do Bonfim. O Senhor do Bonfim tem na Bahia uma igreja, que com uma encantadora vista está situada numa colina. (...) O grande largo é destinado aos muitos milhares de pessoas que, na maior alegria, passam as noites da semana de festas ao relento.

Um dia santo na Bahia não é apenas um número impresso em vermelho no calendário, torna-se obrigatoriamente dia de festa para o povo, dia de espetáculo, e a cidade inteira empenha-se em, de qualquer modo, festejá-lo.

Toda a fachada da igreja acha-se profusamente iluminada à eletricidade e à sombra dos coqueiros estão armadas numerosas barracas, nas quais se vendem comidas e bebidas; pretas baianas, acocoradas na relva junto de seus fogareiros, regalam o público com suas variadíssimas guloseimas baratas, e atrás delas dormem, no meio daquele banzé, seus filhos.

Hoje constitui ela uma festa da cidade inteira e uma das mais impressionantes que vi em toda a minha vida. (...) É verdadeiramente impressionante a primitividade desse cortejo.

Os cavalos são cobertos com colchas de renda, as rodas dos veículos são enfeitadas com papel de seda de várias cores, prateiam-se os cascos dos burros e douram-se os barris para a lavação, que são barris comuns do mercado.

Zweig e a esposa, Lotte, em Salvador, ano de 1940. À direita, o jornalista e professor baiano D'Almeida Vitor, indicado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo para ciceronear o casal (Foto: Arquivo/Casa Stefan Zweig)

Mas o que torna imponente o préstito são as baianas que, com fervor religioso e majestade, carregam sobre a cabeça jarras com flores durante todo o longo trajeto, com um sol intenso. Essas rainhas pretas, que a fim de completarem seu traje colorido, ainda pediram emprestado aqui um lenço rendado e acolá um colar, radiantes de felicidade por servirem ao Senhor do Bonfim e serem admiradas pelo povo, dão uma impressão aparatosa.

Em carroças muito primitivas estão sentados os rapazes, cada um com uma vassoura sobre o ombro, e sem cessar toca uma banda de música desarmoniosa, mal ensaiada. Tudo isso brilha e se agita na claridade intensa, e por trás está o mar azul e por cima o firmamento, também azul. É uma exuberância de cores e de alegria.

Já encontramos a igreja cheia. Mulheres, homens e inúmeras crianças pretas e risonhas estavam ali aglomeradas à espera do cortejo. (...) Quando o primeiro tiro de morteiro avisou que numa curva do caminho aparecera o cortejo, deu-se uma dessas explosões de júbilo que raramente eu vira. As crianças bateram palmas e sapatearam de alegria, os adultos gritaram: “viva o Senhor do Bonfim”, e a igreja inteira retumbou durante um minuto esses brados de júbilo.

Não posso deixar de confessar que alguma coisa dessa sofreguidão e desse entusiasmo se transmitiu a mim.

Percebi nitidamente uma grande sofreguidão naquela gente, que parecia um enorme animal colorido, pronto a lançar-se sobre sua presa. Afinal chegou o momento desejado. Com jeito e energia alguns policiais fizeram a multidão afastar-se para poder ter início a lavagem do templo.

E subitamente teve início na igreja uma atividade que parecia realizada por uma centena de diabos irrequietos. (...) Era um verdadeiro delírio, a mais violenta histeria coletiva que até hoje tive ocasião de observar. (...) Havia algo de tão violentamente arrebatar e contagioso nessa lavação cheia de gozo que não tive certeza de que, se me achasse no meio daqueles indivíduos exaltados, não agarrasse uma das vassouras.

Foi verdadeiramente o primeiro acesso de loucura coletiva que vi e que ainda se tornou, mais inverossímil pelo fato de ocorrer numa igreja, sem uso de álcool, de estimulantes, sem música, e em pleno dia, sob um céu magnífico e radiante.

Mas o segredo da Bahia está no fato de nela, por influência hereditária, o que é religioso misturar-se misteriosamente no sangue com o que é gozo.

  • Adeus

Com pesar, pois a Bahia é muitíssimo bonita, muitíssimo sedutora, embarco no avião que me leva para o norte, para a cidade de Pernambuco ou Recife ou Olinda. Qual dos nomes deverei usar?


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