Um roteiro pelas livrarias mais bonitas do mundo

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11.08.2019, 06:00:00

Um roteiro pelas livrarias mais bonitas do mundo

Entre elas, está a Bertrand, a mais antiga do planeta, fundada em Lisboa em 1732

Dizem que incutido é pior que doido. Pois foi bem assim que, cotejando as listas das livrarias mais bonitas do mundo, publicadas em sites, jornais e revistas, senti vontade de conhecer algumas delas. Primeiro desafio: vencer o pânico de avião. Nada que não se administre quando o desejo assume o controle dos neurônios. Embarquei em dezembro do ano passado para Buenos Aires, levando na bagagem de mão a expectativa de um Natal diferente e o endereço da El Ateneo Grand Splendid.

Esta livraria, que figura sempre nos primeiros lugares em todos os rankings do gênero, é simplesmente monumental – cinco andares – e está instalada em um teatro construído pelo empresário Max Glücksmann em 1919 na Avenida Santa Fé, no bairro da Recoleta. Desde 2000, abriga cerca de 200 mil livros em suas galerias e uma cafeteria no palco, que ainda mantém as cortinas gregas carmesim. O ano inteiro segue lotada de turistas, que se interessam, sobretudo, por sua arquitetura suntuosa, que preserva o projeto original dos arquitetos Peró e Torres Armengol.

El Ateneo: com cinco andares, está instalada em um teatro construído em 1919 em Buenos Aires e conta com 200 mil livros (foto: Shutterstock)

O teto da livraria reserva outro espetáculo para os olhos: foi pintado à mão pelo artista italiano Nazareno Orlandi. Nas estantes, predominam os lançamentos, numa diversidade de títulos, e é possível encontrar bons livros em todos os gêneros. Há ainda CDs e DVDs, com destaque especial para o jazz. Trouxe de lá Poesía Completa de Alejandra Pizarnik em edição capa dura da editora espanhola Lumen.

Não posso avaliar positivamente a cafeteria do El Ateneo, pois provamos um nhoque insosso, bastante aguado e o garçom foi desatencioso. Sigamos.

Ainda na capital portenha, que ganhou em 2011 o título de Capital Mundial do Livro, outorgado pela Unesco, estive na Eterna Cadência em um dia de pouco movimento. Localizada na Rua Honduras, em Palermo, ela é compacta, charmosa e convida a uma boa leitura, acompanhada por um café sem pressa – há um restaurante com pátio aberto na lateral da casa, um sobrado de 1920. O mais interessante é que a livraria, criada em 2005 por Pablo Braun, funciona também como editora e já publicou mais de cem títulos, entre eles livros de Sylvia Molloy, Lina Meruane e do brasileiro Luiz Ruffato.

A Eterna Cadência, também em Buenos Aires, é pequena e charmosa (foto: Kátia Borges)

Na rota dos livros 
Em julho deste ano, dei sequência à minha saga livreira durante uma viagem em família por alguns países da Europa. Adaptamos o roteiro de modo a não atrapalhar os passeios “normais”. É humanamente impossível dar conta de todas as dicas dos amigos, embora elas sejam valiosas. Segui minha lista pessoal. Sabia de antemão que seria um desafio encontrar a Acqua Alta, em Veneza, localizada às margens do Grande Canal. Tem esse nome porque quando a água sobe por lá – fenômeno que ocorre principalmente na Primavera – invade a livraria. Farei suspense por enquanto, ok?

Comecemos, pois, pelo bairro do Chiado, em Portugal, onde tive ao alcance dos olhos duas livrarias maravilhosas. A poucos metros do hotel, estava a Bertrand. “Compre um livro e leve o carimbo da livraria mais antiga do planeta”. É assim que os vendedores costumam seduzir os clientes, sobretudo turistas. Localizada na Rua Garret, funciona também como uma espécie de museu e exibe nas paredes capítulos de sua longa história, devidamente registrada no Guinness Book. Criada em 1732, por Pedro Faure, ela foi reconstruída após o terremoto que arrasou Lisboa em 1755.

A Bertrand, em Lisboa, tem o título de ‘livraria mais antiga do planeta’, segundo o Guinness (foto: divulgação) 

Parte do seu charme – além do valor histórico – vem do fato de ter sido um dos pontos de encontro prediletos de Eça de Queiroz, que ali se reunia com outros escritores em debates intermináveis. A Bertrand do Chiado funcionou ainda como QG da resistência à ditadura salazarista e é possível elencar os clientes famosos pelos nomes que batizam as estantes. Saramago e Sophia de Mello estão entre eles. Hoje, a rede possui mais de 50 livrarias e integra o Grupo Porto, um dos gigantes do setor em Portugal.

Logo na entrada, um atendente cabeludo e extremamente bem-humorado me conduz pela loja. Digo a ele que desejo ver o setor dedicado à poesia. Enquanto fala sobre o espaço, com suas estantes imensas de madeira lustrada e a hora do planeta em três relógios, ele sugere que eu leve o novo de Filipa Leal.

Folheio o livro, Fósforos de Metal Sobre Imitação de Ser Humano, e decido ficar com ele.

Vejo também um de Adília Lopes, Estar em Casa. Peço. Os dois livros são editados pela Assírio e Alvim e saíram de lá devidamente carimbados: “comprado na livraria mais antiga do mundo”.

Mas falei sobre ter ao alcance dos olhos duas livrarias maravilhosas, não foi? Me referia à Sá da Costa, na mesmíssima Rua Garret, quase colada ao café A Brasileira, onde a estátua de Fernando Pessoa enfrenta o assédio diário de milhões de turistas. Embora tenha sido considerada insolvente em 2013, justo no seu centenário, eu a encontrei de portas abertas e funcionado como alfarrabista – o que aqui chamamos de sebo – e editora. Seu acervo inclui edições originais de clássicos, um amontoado interessante de postais e fotos de escritores, além de objetos diversos e muita (cof, cof, cof) poeira.

Bem ao contrário da famosa e clean Ler Devagar, com seu icônico ciclista voador, que também fiz questão de visitar, dentro da elegante LX Factory. Trata-se de um antigo complexo industrial de 1846, na Rua Rodrigues de Farias, no Bairro Alto, que teve seus galpões restaurados e adaptados para abrigarem lojas e bares descolados. Pois, bem, o ambiente de fábrica empresta um charme ainda maior a esta livraria, criada em 1999, e que é dividida em três níveis nos 600 metros da extinta Gráfica Mirandela. Seu acervo possui cerca de 50 mil livros e o local abriga também exposições de arte.

A bicicleta voadora é marca da Ler Devagar (foto: Shutterstock)

Passando pela Ler Devagar, vale a pena conhecer a exposição permanente de brinquedos e objetos do italiano Pietro Proserpio, 80 anos, que fica no último andar. Em meio aos livros, as geringonças criadas por ele, batizadas livremente de cinemáticas, levam direto a um mundo de sonhos. E é dele a criação da bicicleta voadora, marca da livraria, que abriga ainda uma grande rotativa desativada. O projeto foi criado pelo escritório de arquitetura Kaputt! A ideia inicial foi do empresário José Pinho que reuniu nada menos que 150 sócios, todos ainda acionistas.

A inspiração de Hogwarts
Claro que não havia como ir a Portugal sem passar pela Lello, na Cidade do Porto. Assim como a El Ateneo, esta é uma livraria que sempre figura entre as primeiras nos rankings das mais belas do planeta. Assim, pegamos um comboio bem cedo em Lisboa e rumamos para nosso destino.

A chegada ao Porto, com o rio Douro e a ponte de Dom Luís ao fundo, é das coisas mais belas e, mesmo com o sol escaldante de verão, a experiência é única.

A Lello cobra um ingresso de 5 euros (cerca de 25 reais) e, ainda assim, as filas de turistas na porta do prédio de estilo neogótico são enormes.

Não há tempo delimitado para as visitas – e o valor do ingresso pode ser abatido na compra de um livro –, mas a multidão que se acotovela entre as estantes em selfies e mais selfies faz com que cada um defina rapidinho seu roteiro dentro da livraria que inspirou Harry Potter. Sim, a Lello, criada em 1881 pelos irmãos Antônio e José Pinto de Sousa, foi o cenário que inspirou a famosa escadaria de Hogwarts no livro mais famoso da escritora inglesa J.K. Rowling, que morou na cidade portuguesa nos anos 1990, no período em que escrevia Harry Potter e a Pedra Filosofal.

A Lello, em Porto, inspirou escadaria de Hogwarts na saga de Harry Potter (foto: Shutterstock)

As escadarias sinuosas trabalhadas em madeira, o grandioso vitral no teto e o carpete vermelho formam o cenário ideal para fotos bem no clima da trama, que é festejada em um setor inteiramente dedicado ao pequeno mago. Mas, se a sua for mesmo fuçar o acervo, saiba que ali se encontra um exemplar da primeira edição de O pequeno príncipe devidamente autografada, que custa em torno de 20 mil euros. As meninas são muito atenciosas e é possível encontrar bons exemplares a preços razoáveis, mas não achei nada, nenhum título sequer de Florbela Espanca. A procura de ingressos é tão grande que criaram até uma lojinha-bilheteria ao lado.

Saímos de lá com a certeza de que a Lello merece mesmo estar em todos os rankings do gênero, mas faltava ainda conferir a Shakespeare and Company, em Paris, e a Acqua Alta, em Veneza, além da não menos bela Bookàbar, em Roma. A Shakespeare é ponto de parada certo para quem vai visitar a Notre Dame, passeio clássico numa das cidades mais incríveis do planeta, mesmo após o incêndio que devastou parte da catedral em abril deste ano. Para chegar até lá é só atravessar a rua e pegar a fila do outro lado. Ao contrário da Lello, não paga nada para entrar, mas a fila é líquida e certa.

Na Shakespeare and Company, em Paris, é proibido foto ou vídeo (foto: Shutterstock)

O espaço é um pouco menor, apesar dos seus dois andares, e a lotação turística acaba atrapalhando as compras e a leitura. Por essa razão, é simplesmente proibido fazer fotos ou vídeos dentro da livraria, um modo de preservar a privacidade de quem está ali por amor aos livros e não às selfies. A sessão de poesia é muito boa e é quase impossível sair sem levar ao menos um título. Comprei uma coletânea de poetas beats editada pela City Lights e organizada por Lawrence Ferlinghetti e um exemplar de Black Unicorn, de Audre Lorde, que a simpática moça no caixa fez questão de carimbar.

Muito mais que livraria 
Criada em 1951 por George Whitman, com o nome de Le Mistral, a livraria tem fama não só por vender livros, mas por ter abrigado uma espécie de pensionato literário. Conta a lenda que, para ficarem por ali de graça, os autores precisavam ajudar no trabalho, ler um livro por dia e escrever em uma página sua autobiografia. Trinta mil escritores teriam passado por lá. Mas a história não começa aí, não. Na verdade, Whitman recriou o ambiente da Shakespeare and Company que existiu entre 1919 e 1940, aquela que figura no livro Paris é uma festa, de Hemingway.

A Shakespeare original foi fundada pela editora Sylvia Beach – uma longa história –, que deu a bênção para a mudança de nome. Hoje a filha de George Whitman, batizada como Sylvia em homenagem à fundadora da livraria, gerencia o lugar. E o mais incrível é que ela manteve o sistema de pensionato literário com as mesmas regras do pai, além de mil outras coisas. Ficou interessado? Acesse o site oficial e arrisque uma estadia por lá. Vale ainda conferir o sebo ao lado, bastante frequentado, e, após sair, tirar aquela selfie marota diante do balcão de livros, com o letreiro ao fundo.

Outra livraria sempre em destaque em todas as listas das mais bonitas é a Bookábar, em Roma. Ela fica dentro do Palácio de Exposições, na Via Nazionale, mas tem entrada independente. No dia em que pintei por lá, o prédio estava em reforma, cercado de tapumes e andaimes. Mas, internamente, a estrutura seguia luminosa e elegante.

Especializada em arte contemporânea, impressiona por seu design clean, obra do arquiteto Firouz Galdo,

que criou um projeto realmente belo, no qual predominam o branco e a iluminação indireta. São cerca de 500 metros, com três salas grandes, um pequeno auditório e um acervo que inclui livros, CDS e DVDs.

Há ainda uma pequena loja de produtos alternativos (uma tentação para o bolso), que vende camisetas, óculos, bolsas e outras coiseiras criativas, e uma deliciosa cafeteria, onde o tempo parece que não passa. Estava meio vazia, no dia em que a visitei, um domingo, ainda assim, fechava 22 horas. Os atendentes deixam todo mundo à vontade e você pode simplesmente ficar por ali, sem consumir nada, só pensando na vida ou folheando algum livro numa das mesas internas ou nas que ficam do lado de fora, um pátio bem agradável. Não vá esperando o mesmo conforto na Acqua Alta, em Veneza, a cereja desta expedição ao universo das livrarias.

Finalmente, a Acqua Alta 
Fomos a Veneza com a disposição de conhecer a cidade e seus canais, claro, mas a minha expectativa era localizar a livraria. Um comboio em Roma e, três horas depois, chegamos à Estação de Santa Lucía. De lá, uma lancha-taxi até a Praça de São Marcos e então um emaranhado de ruelas e pequenas pontes. A Igreja de Santa Maria Formosa é o ponto de referência que mais se repete quando a intenção do turista é encontrar a Acqua Alta, que fica localizada rente ao Grande Canal.

Na Acqua Alta, em Veneza, os livros ficam em gôndolas (foto: Shutterstock)

Simpáticos como poucos na Europa, os italianos vão orientando os fanáticos por livros desde a praça, onde aportam as lanchas-taxi e os ônibus aquáticos. Trata-se em tudo de um lugar especial e confesso que o meu coração ficou feliz. Os gatos reinam por lá, misturados aos livros empoeirados, acomodados em gôndolas. Não há placa visível, então é preciso realmente procurar, sair perguntando a um e a outro, ou se orientar por aplicativos e, claro, bater perna sob o sol escaldante do verão europeu. A experiência vale cada gota de suor. Principalmente pela bagunça que faz na cabeça.

Eleita a mais bonita do planeta pela BBC e pelo Telegraph, ela contradiz tudo que se pode esperar de um lugar em termos de padrões de beleza. Combina mais com a expressão baiana “armengue” – daí vem parte do seu charme. Idealizada em 2004 por Luigi Frizzo, um homem apaixonado por gatos, Rudolf Steiner e Corto Maltese, possui um acervo rico em termos de literatura veneziana, com destaque para os livros raros. Mas não vá procurando organização, a ideia por lá é se perder entre amontoados de títulos, muitos deles dispostos dentro de gôndolas de tamanho real, outros em banheiras.

A entrada é gratuita e você pode fotografar à vontade. Os turistas fazem fila em dois pontos para as selfies. O primeiro é uma escadaria feita com livros velhos e molhados numa das muitas cheias em Veneza, empilhados junto a um muro numa espécie de pequeno quintal. O segundo é uma cadeira rente ao canal, em cuja porta, verde, velha e meio caída, está escrito o nome da livraria. Dali você pode avistar as gôndolas passando. Confesso que me identifiquei demais com aquela loucura toda e saí de lá com a certeza de ter visitado realmente a livraria mais bonita do planeta.


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