Veja as estratégias dos fiéis que deram um ‘jeitinho’ para diminuir o percurso do Bonfim

salvador
17.01.2019, 18:43:00
Atualizado: 17.01.2019, 19:38:09

Veja as estratégias dos fiéis que deram um ‘jeitinho’ para diminuir o percurso do Bonfim

Teve gente cortando caminho, pegando carona ou começando já no meio do trajeto

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Quem tem fé vai a pé, mas nem sempre. Que a celebração ao Senhor do Bonfim é uma manifestação de crença linda, ninguém duvida, mas a caminhada de 8 km é também um desafio para muita gente. O sol forte, o calor, a multidão e a distância podem fazer a diferença entre um momento de louvor e um mau fim, com bolhas nos pés ou assaduras.

Pensando nisso, alguns fiéis resolveram dar o famoso ‘jeitinho’ e fizeram a procissão sem, necessariamente, percorrer os mais de 8 mil metros que separaram as igrejas de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no bairro do Comércio, e a Basílica do Senhor do Bonfim, na Cidade Baixa.

Multidão segue a imagem do Senhor do Bonfim (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

Teve gente cortando caminho, pegando carona em parte do percurso ou começando a caminhada já no meio do trajeto. Se isso vale? "O importante é ter fé", responderam os entrevistados, e torcer para que o santo não repare na 'roubadinha'.  

Quem gostou disso foi o mototaxista Alex Sacramento, 25 anos, que é católico, mas foi à festa para trabalhar. Ele contou que, nas primeiras horas em que o cortejo começou, realizou mais de 10 viagens.

“A gente vê que a pessoa está cansada, aí oferece o serviço. Alguns pensam um pouco antes de aceitar, mas muitos topam”, contou.

Cortejo com animado de diversas formas (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

No percurso, não faltaram pontos de mototáxi e taxistas para atender aos passageiros dispostos a encurtar o caminho. “Deus perdoa”, brincou uma mulher antes de colocar o capacete, no Largo de Roma. Na Calçada, o aposentado Raimundo Alcântara, 81, foi de muletas para a festa.

“Eu só vim olhar o cortejo passar. Vou deixar para ir na igreja mesmo é amanhã (18), por causa do tumulto de hoje. Antes eu fazia a procissão do início ao fim, mas desde que a artrose apareceu, eu não faço mais. Ando até ali e volto, mas Senhor do Bonfim me perdoa”, contou, apontando para uma sinaleira 500 metros à frente.

Parcelado
O casal Manuel Pereira e Maria Santos usam de outra tática. Casados há 59 anos, eles seguem a procissão do Senhor do Bonfim desde que estão juntos. Hoje, os 81 anos dele e as 76 primaveras dela já não permitem cumprir o roteiro do início ao fim, mas eles encontraram um jeitinho.

Foto: Gil Santos/CORREIO

"A gente inicia a caminhada nos Mares, onde moramos, e vamos até a igreja do Bonfim. O importante é chegar", afirmou seu Manuel, ou Major Pereira, como é conhecido no bairro, na esperança de que o santo não repare que faltou metade do caminho.

E por falar em roteiro, há décadas a procissão segue pelas mesmas ruas e avenidas, mas em 2019 teve gente inventando moda. A avenida Engenheiro Oscar Pontes e a Rua Barão de Cotegipe entraram no percurso de alguns fiéis, para fugir da multidão ou diminuir um pouco a caminhada.

A nutricionista Márcia Garcia, 36, garante que não está roubando o santo.

“É porque a concentração da multidão me agonia. As ruas paralelas são menos cheias e levam à Basílica da mesma forma”, explicou.

Fiéis fizeram ajustes no caminho para chegar na Colina Sagrada (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO)

Outros fiéis tentaram fugir do sol, caminhando o máximo possível embaixo das marquises dos prédios ou descansando na sombra de árvores e postos de combustível. Uma roda de capoeira foi improvisada no trajeto, mas embaixo do viaduto Américo Simas, na sombra.

O produto que mais fez sucesso na procissão foi a garrafinha de água mineral. Chapéu, protetor solar e tênis também marcaram presença entre os corajosos que, assim como a reportagem, fizeram o trajeto do início ao fim. Na subida da Colina Sagrada, a aposentada Idalina Lima, 66, retirou as sandálias e terminou o percurso descalça.

“Meus pés estão doloridos, mas também tenho o hábito de sempre fazer essa parte do caminho descalça”, disse.

Lá em cima, da janela central da igreja, o padre Edson Menezes falava da necessidade de buscar a paz. Nem precisava. Depois da caminhada de 8km sob um sol escaldante, os fiéis não queriam guerra com ninguém.  

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas