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Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 05:30
Amigos, como já é de conhecimento geral, nas eleições deste ano os eleitores escolherão dois senadores. Isso significa que dois terços da composição do Senado - ou seja, 54 das 81 cadeiras - estarão em disputa. Trata-se de uma renovação expressiva, com potencial para mudar profundamente o perfil da Casa a partir de 2027. >
Diante desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que polarizam os dois principais campos ideológicos do país, já iniciaram uma disputa intensa pelo controle do Senado Federal.>
Cada um tenta escalar o que considera seus melhores “jogadores” para a partida. E há um motivo estratégico claro: por ter menos integrantes que a Câmara dos Deputados, o Senado é politicamente mais fácil de controlar. Além disso, concentra atribuições decisivas, como a aprovação do procurador-geral da República, dos diretores do Banco Central e dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).>
Não custa recordar que Lula não conseguiu até agora aprovar no Senado o nome de Jorge Messias para o STF, indicado para substituir Luís Roberto Barroso, justamente por falta de apoio suficiente na Casa. O Senado também é responsável por julgar processos de impeachment contra o presidente da República.>
Se a situação de Lula já é delicada com a atual composição do Senado, ela pode se tornar ainda mais difícil após as eleições deste ano. Bolsonaro, por sua vez, aposta alto: lançou nomes de peso para tentar formar maioria, como seu filho Carlos Bolsonaro, que deve disputar uma vaga por Santa Catarina, e Michelle Bolsonaro, cotada para concorrer pelo Distrito Federal.>
Do lado de Lula, a movimentação é semelhante. Pensando no Senado, o presidente vai exonerar a ministra do Planejamento, Simone Tebet, para disputar por São Paulo. Pelo mesmo estado, também é cogitada a candidatura da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. No Paraná, Lula pediu à presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, que entre na corrida pela Câmara Alta.>
Na Bahia, surgiram nas últimas semanas rumores de que o governador Jerônimo Rodrigues (PT) poderia ser retirado da cabeça de chapa para dar lugar ao ministro da Casa Civil, Rui Costa. As chances disso acontecer, contudo, são mínimas - eu diria, praticamente nulas.>
A prioridade de Lula é o Senado. E, se ele considera Rui Costa seu melhor quadro eleitoral no estado, a tendência é escalá-lo para disputar uma vaga de senador. Demais disso, trocar a cabeça de chapa seria uma operação de alto risco político: qual discurso consistente o PT teria para justificar a substituição do governador? Isso significaria admitir erro na escolha e poderia colocar em xeque a confiança do eleitorado.>
O movimento de Lula é inequívoco: sua principal aposta na Bahia está no Senado. Mesmo que o PT não mantenha o comando do Palácio de Ondina, o presidente poderá sustentar presença política relevante no estado caso consiga eleger seus senadores. O problema é o inverso: sem uma base sólida na Casa Alta, até um eventual novo mandato presidencial se tornaria vulnerável. Historicamente, a eleição do governador na Bahia costuma puxar as vagas para o Senado. Mas esse padrão não é uma lei.>
Em 1962, Waldir Pires foi derrotado na disputa pelo governo e, ainda assim, seu grupo conquistou as cadeiras no Senado.>
Abre parêntese aqui. Não se pode descartar que uma chapa “puro-sangue” do PT seja toda derrotada por transmitir ao eleitorado a imagem de “avareza política”, ao não dividir espaço com aliados. Fecha parêntese.>
O fato é que Jerônimo Rodrigues já deve ter percebido: para Lula e para a cúpula do PT, a prioridade não é o governo estadual, mas as cadeiras no Senado. Como sugere a velha canção dos anos 2000, o presidente parece disposto a entoar um “tô nem aí” para o Palácio de Ondina. Pode até abrir mão do anel - o comando do estado -, mas não aceita perder os dedos: a maioria no Senado na eleição deste ano.>