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Juliana Rodrigues
Publicado em 21 de maio de 2026 às 11:00
Atrás do jaleco e do estetoscópio, uma epidemia silenciosa avança pelos hospitais e Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do Distrito Federal. Não se trata de um novo vírus, mas do esgotamento profundo de quem cuida. >
Quem cuida também adoece
O diagnóstico na linha de frente do atendimento público é o colapso psicológico de quem cuida da saúde da população. A crise de saúde mental na categoria não é um caso isolado; dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam que 95% dos profissionais de saúde do país relatam impactos negativos em sua saúde mental devido às condições de trabalho, com quase metade (50%) sofrendo de ansiedade ou depressão.>
No Distrito Federal, por exemlo, esse cenário nacional se reflete no cotidiano das unidades de saúde, onde o desgaste progressivo tem provocado um ciclo constante de adoecimento emocional e pedidos de afastamento médico.>
O esgotamento do sistema é alimentado por quatro fatores principais relatados na rotina dos hospitais:>
Déficit crônico de pessoal: com escalas incompletas, os servidores frequentemente absorvem a demanda de dois ou três colegas de trabalho.>
Ambiente de insegurança: episódios de violência verbal e física por parte de pacientes frustrados com o tempo de espera tornaram-se comuns em UPAs e hospitais regionais.>
Assédio moral: relatos de pressões hierárquicas desproporcionais e gestão sob pressão constante alimentam o sentimento de desvalorização profissional.>
Infraestrutura precária: a falta de insumos básicos gera o chamado "estresse moral" a angústia de saber exatamente o que o paciente precisa, mas não ter os meios físicos para oferecer o tratamento.>
Licenças por burnout e depressão lideram os afastamentos na rede pública, sobrecarregando quem fica e gerando novos colapsos. >
Embora a Secretaria de Saúde ofereça apoio psicológico, sindicatos criticam a eficácia das ações por focarem no indivíduo sem corrigir a estrutura precária que causa o adoecimento.>
O cenário observado em diversas regiões do país acende um alerta que ultrapassa o bem-estar individual e se consolida como um desafio nacional de segurança pública e eficiência estatal. >
Quando o profissional de saúde adoece, o reflexo é sentido imediatamente pelo cidadão que depende de um SUS ágil e de qualidade em qualquer estado brasileiro. >
Para reverter esse quadro, órgãos como o MPDFT e entidades representativas da saúde defendem a realização de concursos regulares para recompor os quadros, a adoção de protocolos rigorosos de segurança e uma gestão mais humanizada, com enfrentamento do assédio moral e da sobrecarga de trabalho. >
Enquanto essas reformas estruturais não avançam na velocidade necessária pelo Brasil, os corredores das unidades de saúde seguem como palco de uma luta dupla, em que o servidor tenta vencer a enfermidade do próximo enquanto batalha para preservar a própria sanidade.>