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Moyses Suzart
Publicado em 28 de março de 2026 às 15:00
Arlete é o cão! >
Entrar no apartamento de Arlete Soares na Barra é como voltar ao passado, enxergar uma Salvador que nem sabemos se existe mais. Pelas paredes, objetos de todo mundo, como um grande porto da capital que recebia gente de diversas etnias. Imagens católicas e de orixás se espalham pelo imóvel, móveis rústicos. Fotografias dela, de Sebastião Salgado e Pierre Verger se espalham pela parede. Difícil manter o olhar quieto com tanta informação e saudosismo. É um cheiro gostoso de Bahia e do mundo. Mas ao aparecer no corredor para nos receber, logo se vê que aquela Salvador não está em nenhum objeto da casa, mas na própria Arlete. Vestida com uma camisa que dizia “Eu quero cerveja, não sua opinião” e a carteira de cigarro na mão, ela disse a frase que é a porta de entrada para qualquer amizade: “Querem cerveja?”, ofereceu, às 9h49 da manhã de uma quinta-feira. >
É preciso uma vida inteira (e muita cerveja) para ouvir tudo que Arlete tem para contar sobre Salvador e suas andanças pelo mundo que não cabem num livro. E entre tragadas no cigarro, ela conta episódios raríssimos, entre risos e olhares ao passado, como se estivesse contando casos num boteco qualquer. Alguns até fogem da memória, mas a antropóloga e companheira para toda hora, Goli Guerreira, não deixava escapar. E em uma delas, algo que difícilmente alguém saiba que aconteceu. “Arlete, conta aquela de Mick Jagger e Dorival Caymmi”, fala Goli, numa entrevista que naquela altura já tinha se tornado uma conversa de bar. >
“Eu estava em Paris com a família Caymmi e liguei para um amigo brasileiro dono de um restaurante para podermos almoçar. ‘Poxa, Arlete, não vai dar. O restaurante estará fechado para o aniversário de Mick Jagger’. Eu disse que agora que eu iria mesmo, inclusive para fotografar o astro. Lá, Jagger estava no andar de cima, mas fez questão de descer para falar conosco. De repente, estávamos todos na mesma mesa, Dorival Caymmi e os filhos conversando com Jagger e seus amigos convidados. Virou uma coisa só”, lembra Arlete, contando com naturalidade um fato histórico desse, aos risos. >
É difícil traduzir Arlete. Apenas Jorge Amado conseguiu. “Arlete é o Cão”, resumiu o romancista do povo. “Devorada sempre pelo fogo da paixão, Arlete Soares é hoje um dos promotores de cultura mais importantes do Brasil. Faz e acontece, realiza, tira coisas do nada. De quando em vez dá-lhe o bicho-carpinteiro, e quando se procura por Arlete, ela está na Índia, no Nepal, no Tibete, no fim do mundo. Quanto a Paris, é sua outra casa, vai e volta, comanda aqui e lá. Arlete é o Cão”, descreveu Jorge Amado sobre a amiga, no livro "Baía de Todos os Santos". >
Quem vê Arlete a se balançar na cadeira que pertenceu ao seu pai (e ninguém pode sentar, só ela), insistindo em tomar uma cerveja, parando a conversa apenas para dar bom dia ao pulmão, não sabe o que essa mulher já fez na vida. Ela já fundou uma editora só para cumprir uma promessa, incansáveis projetos para promover a cultura baiana, sem contar suas viagens, como da kombi com outras três amigas pela Índia, onde ficaram nesta maravilhosa labuta por dois anos. >
O mais curioso é que tudo parece informal, nada programado, o vento do destino se programando para que os encontros aconteçam entre Arlete e a história. Sua onipresença é latente, ela estava presente em todos os momentos marcantes daquela Salvador onde pulsava cultura e se criava seu auto retrato. Ela conheceu Jorge Amado, por exemplo, depois de impedir uma catástrofe. Um porteiro do TCA estava prestes a barrar o escritor, pois ele não estava vestido a caráter (terno e gravata) em um evento. Arlete, sabiamente, fez a intervenção e ao mesmo tempo virou amiga de Amado, que resultou num encontro em Paris, onde conheceu pessoalmente Pierre Verger, nascendo a promessa que resultou no surgimento do Corrupio. Tudo assim, como uma linha reta de aleatoriedade. A cara da Bahia. >
“Sim, a editora Corrupio nasceu de uma promessa e foi uma aventura. Não existiam obras de Pierre Verger traduzidas para o português. E neste encontro, onde estavam Verger e Amado, disse que providenciaria tudo. O tempo passou e Pierre chegou com a obra pronta para eu publicar no Brasil. Era hora de cumprir a promessa”, lembra Arlete. A fotógrafa passou a procurar as editoras para publicar a obra, mas só via portas se fechando. Uma delas chegou a dizer que “livro cheio de fotos de negros não vai vender”. >
“Não teve jeito, vendi um terreno que minha mãe me deu e fundei a Corrupio para publicar apenas um livro. Foi o maior sucesso, teve elogios até de Carlos Drummond”. O resultado? O francês, já com espírito soteropolitano, chegou com outras obras para serem publicadas. “Lembro que, depois do sucesso, as editoras que negaram anteriormente procuraram Pierre para publicar suas obras. ‘Nós somos grandes editoras, seus livros vão se espalhar pelo país’, diziam. Pierre, com aquele jeito calmo, respondia: ‘já tenho minha editora, é maravilhosa’. Era a Corrupio, editora de um livro só”, lembra Arlete, parando apenas para rir, fumar um cigarrinho e oferecer cerveja. “Tem certeza que não querem uma cervejinha?”. Nessa brincadeira, a Corrupio durou 41 anos, publicando a Bahia para o mundo, com livros e cartões postais, por exemplo. >
Arlete Soares, um poço de histórias sobre Salvador e o mundo
“Quando fundei a editora, a ideia era clara: preservar, publicar, fazer circular conhecimento. A obra de Pierre Verger precisava ser cuidada, organizada e publicada. Isso era fundamental. Não dava para deixar aquilo se perder. Era um compromisso com a memória, com a história, com a relação entre Brasil e África”, explica. >
O que era um encontro entre três lendas, virou uma grande amizade entre Arlete e Pierre, independentemente da Corrupio. Eles vagavam pela Salvador e, foi graças a Soares que a obra de Verger, ao menos a maioria, está entre nós. Ela descobriu que boa parte do acervo do antropólogo estava guardado sem a devida conservação em um porão de Paris, num bar. Ela foi lá, providenciou a retirada, convenceu a companhia aérea a trazer para Salvador mais de 30 quilos de material e salvou a história. Mas, para ela, bom mesmo era vagar pela cidade com o amigo. >
“Foram mais de 17 anos andando pela cidade, para cima e para baixo, construindo coisas, olhando, registrando. Verger era um homem simples, às vezes com sapato furado, mas com um olhar imenso. A gente vivia isso intensamente. Era trabalho, mas também era vida. Um certo dia, vi que ele estava andando com um sapato furado. Levei ele até a Baixa dos Sapateiros para comprar pares novos. Lá, o vendedor disse que lhe daria um sapato para a vida toda. Pierre, já muito velhinho, disse: ‘E quanto dura esta vida toda?’, lembra.>
E assim foi vivendo Arlete, um dia após o outro, sem se preocupar com o que ocorreria com seu destino. Mas ela era o ímã da história. Sempre foi. E se engana quem acha que ela foi mera testemunha ocular de tudo que acontecia naquela Salvador eternizada por Verger, Amado, Carybé e Caymmi. Ela era a própria lenda. Enquanto Pierre já havia fotografado a Feira de São Joaquim, Arlete respirava aquilo desde criança, pois era filha de comerciante local, o vendedor de coco José Soares. Ela rodava as feiras, comia e bebia de cultura enquanto seu amigo do futuro registrava aqueles momentos, como dois desconhecidos. Arlete passou anos procurando ela mesma nas fotos de Verger. Não encontrou, mas com certeza estava ali.>
“O convívio com todas estas pessoas me marcaram muito, mas a figura do meu pai foi, sem dúvida, minha principal formação. Eu era criada solta na feira, comia e bebia de tudo e sempre era a louquinha entre os 16 filhos. Minha mãe, Eulina, era mais rígida. Quando aprontava, ela mandava meu pai pegar a palmatória e me bater. Íamos para o quarto, ele mandava eu gritar enquanto batia na própria mão para fazer barulho. E minha mãe pensando que ele estava me batendo. A gente ria disso”, lembra. >
Arlete reforça que sua construção foi feita por pessoas. Tudo que ela registrou em imagem, as coisas que ela coleciona no lar, nada seria possível sem a turma que cruzou seu caminho, de um pedinte na Índia a Mick Jagger em Paris. Todos têm a mesma atenção dela, sem distinção. E Salvador, lógico, era o fio condutor de tudo. >
“Minha formação não foi de gabinete. Foi na rua, na feira, nos encontros. Eu vivi Salvador em várias fases, respirando tudo isso. Essa cidade me ensinou muito. Eu estive em Paris, estive com muita gente, vivi experiências importantes fora do Brasil. Mas a Bahia tem uma coisa diferente. Tem uma força que não se compara. Eu fui aprender fora, ver como as coisas eram feitas, e trouxe isso para cá. Trouxe conhecimento, tecnologia, ideias. Não foi pouco, foi muito. Tudo isso ajudou a construir o que a gente fez aqui”, conta. >
Índia>
Contudo, o divisor de águas na vida de Arlete, sem dúvidas, foi a viagem que fez com outras três amigas na Ásia. O registro está no seu livro Caminhos da Índia, mas bom mesmo é ela contando os casos que em breve vai virar filme. Entre perigos, diversão e meconha, também teve fome e perrengue. “Passamos fome, vendíamos até roupa nossa para comer. O que mais me marcou foi uma vez, que acabou o dinheiro, estávamos zeradas. Pedimos grana para os amigos, Jorge Amado, Mário Kertész, mas o banco nunca liberava. Todo santo dia íamos ao banco ver se o dinheiro depositado pelos amigos já estavam disponpiveis”, lembra. E foi em uma dessas idas, que aconteceu o fato mais marcante na vida dela.>
“Na frente do banco ficava umas crianças pedindo esmola. E nos pedia sempre. Eu cheguei para um, me ajoelhei e disse, em português mesmo: ‘eu não tenho dinheiro, eu não tenho dinheiro!’. O menino calmamente pegou um paninho do bolso, tirou uma moeda e me deu. Nada no mundo me marcou mais do que aquilo. Tenho aquela moeda até hoje”, lembra, emocionada. >
Depois de tantas aventuras e encontros, Arlete aguarda, com muita serenidade, a hora da partida. “Agora vivo o hoje, nada disso registrado aqui me interessa mais. Vou deixar para quem quiser, Goli vai cuidar de tudo. Não tenho mais interesse em ver fotos daquele tempo. Quero ver os amigos que estão aqui, tomar minha cerveja, viver. Vou para Paris em breve, ver amigos e assim será até a hora de ir para outro planeta e rever Verger, Jorge Amado e o restante do povo”, conta Arlete, com a serenidade de quem sabe que o fim é para todos.>
“Nascemos, vivemos e morremos. Não tem o que temer sobre o fim. Com 86 anos, eu não quero mais discutir meu acervo, não quero mais me prender a isso. Está tudo encaminhado. Eu quero viver o tempo restante. Não quero mais me obrigar a seguir a convenção do seu tempo ou do meu tempo. Eu estou aproveitando o fim da minha vida. Tem certeza que não quer uma cervejinha”, finaliza Arlete. >
Mesmo depois do fim da entrevista, ainda conversamos muito. Sora, Goli, Arlete e eu. Neste momento, o desejo era viver aquilo o tempo todo, uma conversa puxava a outra, que momento bom para ser baiano e conhecer Arlete. Podería ficar dias ali conversando. Lá fora, a varanda mostrava a Baía de Todos os Santos, misturada aos barulhos de construções e buzinas de carro. Mas Arlete tomava toda a atenção sem sequer pedir, como uma memória viva não apenas de Salvador, mas do mundo. O que dá no mesmo. >
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping. >