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Miro Palma
Publicado em 28 de março de 2026 às 15:00
Existem histórias que nascem prontas para virar texto. Outras, nem tanto — ficam guardadas no velho bloquinho amassado, na memória de um plantão corrido ou até mesmo naquele áudio nunca enviado. No jornalismo, especialmente dentro de uma redação, tudo acontece ao mesmo tempo: o telefone toca, a pauta muda, a urgência passa por cima do planejamento. E, no meio disso, existem pequenas cenas que não entram na matéria, mas dizem muito sobre o ofício divertido dessa profissão. >
É nesse intervalo, entre o factual e o vivido, que conto algumas resenhas vividas no mundo do futebol quando eu ainda era repórter. Que saudade de ir pra rua... Não são grandes furos nem reportagens históricas, embora algumas passem perto disso. São episódios que revelam bastidores, encontros improváveis, tensões e até certo improviso que só quem vive a rotina de apuração conhece. Histórias que começam, muitas vezes, sem nenhuma pretensão e terminam com a sensação de que algo ali merecia ser contado.>
Há também o ambiente daquele tempo, mais precisamente a partir de 2008: a redação agitada, os prazos apertados, o barulho de teclas competindo com a TV ligada, o editor chamando, o fotógrafo já na rua. Um ecossistema onde cada detalhe importa e as decisões rápidas podem mudar o rumo de uma cobertura.>
Ao longo dos próximos textos, você, caro leitor, vai encontrar situações que misturam jornalismo e acaso, regra e desvio, disciplina e curiosidade. Sem antecipar demais, dá para dizer que são momentos que atravessam diferentes contextos, mas têm algo em comum: todos aconteceram longe do que normalmente aparece na página final do jornal.>
No fim das contas, é tipo uma partida de futebol, com direito a prorrogação. Esta é uma série de histórias sobre o que não cabe no lide, mas ajuda a explicar por que ele existe. Sobre o que acontece antes, durante e depois da notícia — e sobre como, às vezes, é justamente fora dela que moram as melhores resenhas.>
Cobrir treino fechado de clube é quase um esporte à parte no jornalismo. Você não pode entrar, mas também não pode voltar sem nada. Foi assim que, numa dessas missões pelo Correio, no antigo Fazendão, eu decidi improvisar: se não dá por dentro, vai por fora mesmo (Lá ele). >
Descobri que, no bairro de Itinga, tinha uma ladeira com visão privilegiada do campo. Aquela clássica gambiarra jornalística que a gente aprende sem ninguém ensinar. Subi com a confiança de quem achava que estava sendo genial, quase um espião da bola.>
O problema é que eu não era o único que tinha descoberto aquele “ponto estratégico”. Quando cheguei lá em cima, dei de cara com quatro caras. E não estavam exatamente analisando tática. Estavam usando drogas e negociando ali mesmo, com uma naturalidade impressionante, meio escondidos atrás de um caminhão. Um cenário… digamos… alternativo ao futebol. Naquele instante, pensei: “pronto, hoje a pauta virou caso de polícia”.>
Não deu nem tempo de ensaiar uma saída discreta. Fui abordado. “O que você quer aqui?”. E eu, com a calma de quem claramente não tinha plano nenhum: “Só ver o treino secreto do Bahia”. Silêncio. Um deles me olhou de cima a baixo, desconfiado, e mandou: “Vai filmar?”. Respirei fundo e fui no modo diplomata: “Fiquem tranquilos… quero só o campo. Podem continuar aí de boa”.>
Nunca uma frase foi tão absurda e tão eficaz ao mesmo tempo. E, surpreendentemente, funcionou.>
Ficou cada um no seu “trabalho”. Eles lá, eu cá. Eu tentando entender a movimentação do time, enquanto, a poucos metros, acontecia uma movimentação completamente diferente e, diga-se, bem mais intensa.>
Era um equilíbrio delicado: de um lado, o Bahia escondendo treino; do outro, ninguém escondendo absolutamente nada.Mesmo assim, consegui assistir uma parte, anotar no velho bloquinho algumas coisas e cumprir a missão. Tudo isso tentando parecer o mais natural possível, o que, naquele contexto, era praticamente impossível.>
Quando desci a ladeira, com o coração já voltando ao ritmo normal, tive a certeza de uma coisa: O treino era secreto, mas o bastidor… nem um pouco.>
No dia 7 de setembro de 2009, enquanto o Brasil comemorava a independência, eu resolvi testar a minha. Com certa liberdade criativa, me aventurei na concentração da Seleção Brasileira no então Hotel Sofitel, em Salvador. Três dias depois, o time bateria o Chile por 4x2, em Pituaçu, pelas Eliminatórias da Copa. Mas, naquele momento, quem estava prestes a levar um choque de realidade era eu. >
Tudo certo: credencial no peito, área da imprensa organizada, colegas espalhados. Era pra ser mais uma cobertura padrão. Mas resolvi dar uma desviada. A ideia era simples (e errada): entrevistar o máximo de jogadores possível, mesmo sabendo que não podia. A CBF libera um ou dois, todo mundo pergunta ali e pronto. Só que eu achei que dava pra circular um pouco mais.>
E fui.>
Saí da área da imprensa como quem não quer nada e comecei a andar pelo hotel. Passei por corredor, área externa, funcionários, segurança… e ninguém me parou. Isso foi me dando uma confiança completamente injustificada.>
Até que cheguei a um campo de golfe. E lá estava Júlio César, tranquilo, batendo bola e conversando com funcionários. Cheguei na resenha e mandei:>
“Se você me der uma entrevista, eu ganho uma promoção no jornal”.>
Ele riu e respondeu:>
“Eu até queria te dar uma promoção, mas não dá pra falar hoje. Foi mal aê, parceiro”.>
Encontrei outros jogadores pelo caminho. Alguns falaram rápido, outros só acenaram. Em um desses encontros, esbarrei com Elano, que curtiu a resenha quando perguntei por que a Seleção tinha a cara da Bahia. >
“Pô… Eu não deveria nem estar falando sem autorização. Os caras vão me matar. Nossa alegria de jogar parece com a dos baianos”. >
Aquela altura, eu já não sabia quem estava mais fora do script: eu ou eles. Enquanto isso, quem trabalhava no hotel também aproveitava. A funcionária Marli Fernandes nem ligou mais pro horário: “Meu horário já passou e eu estou aqui pra ver o melhor goleiro do mundo. Ele é supersimpático. Juro que eu ganhei meu dia, na moral”. >
Até que, em algum momento, a conta chegou. Alguém percebeu que tinha jogador falando demais e jornalista andando demais.>
Aí apareceram Dunga e Jorginho, treinador e auxiliar. Os dois curtindo a paisagem e fazendo uma caminhada de leve. O comandante, vale lembrar, sempre teve fama de brabo. Mesmo assim eu fui de gaiato.>
Não lembro exatamente o que o técnico disse, mas lembro do tom. Não foi conversa. Foi esporro. Só me recordo do “Não, não, não! Aqui não é lugar!”. >
E deu pra entender fácil: eu tinha passado do limite.>
Saí de lá sem entrevista oficial, sem promoção, mas com boas histórias e algumas aspas improváveis. E com a certeza de que, por alguns minutos, transformei a concentração da Seleção num território completamente fora do protocolo.>
Tem dia que você sai para trabalhar achando que precisa correr atrás da pauta. E, no fim, descobre que a pauta é que corre atrás de você. >
Essa história começa com atraso. No dia 25 de outubro de 2011, cheguei depois do horário em um treino do Bahia, no Fazendão. Quando entrei, os titulares já tinham subido para o vestiário. No campo, só restava aquele grupo de sempre: reservas, pouco utilizados, jogadores tentando aparecer. E eu tentando arrumar uma matéria.>
Foi aí que olhei para Nikão. Ele tinha uma história forte. Tinha se destacado no Vitória, ‘pulado o muro’ e ido parar no tricolor. Só que, naquele momento, vivia o outro lado: pouca utilização, quase nenhuma sequência. Até ali, mesmo com cinco meses de clube, tinha feito só duas partidas pelo Bahia na Série A.>
Pedi ao assessor para falar com ele. Deu certo. E a entrevista foi diferente. Nikão falou com sinceridade, sem rodeio. Em um dos momentos, resumiu bem o que estava sentindo: “Estou trabalhando forte, esperando uma oportunidade. Quando eu tiver, não saio mais do time.” Era direto.>
Em outro trecho, foi ainda mais fundo, ao falar da escolha de sair do Vitória para o Bahia: “Vamos dizer que eu estou arrependido, mas não por causa do Bahia, que é um clube grande. Fico triste por causa da falta de oportunidade. Todos os jogadores receberam uma chance de começar jogando, menos eu. Acho que eles devem ter algum receio de terem bastante jogadores de nome e de me colocar para jogar”. >
Era mais do que entrevista. Era desabafo. A matéria saiu e seguiu o fluxo normal. Para mim, naquele momento, era isso. Tinha conseguido um bom personagem num dia em que quase não tinha história.>
Só que o futebol não costuma parar onde a gente acha que termina.>
Poucos dias depois, lá estava Nikão entre os relacionados. No banco. E eu, dessa vez, estava na arquibancada. A partida era contra o São Paulo, em Pituaçu. Brasileirão, reta final, pressão total. O Bahia precisava ganhar. >
O jogo ficou complicado rápido. O São Paulo abriu vantagem e chegou a 3x1. A sensação era de derrota encaminhada.>
Até que Joel Santana chamou Nikão. Na transmissão, o narrador Milton Leite fez aquela brincadeira, como se ele estivesse entrando para tentar resolver tudo. Parecia exagero. Mas não foi.>
Nikão entrou bem. Deu mais intensidade ao time, participou das jogadas e ajudou a puxar a reação. Foi dele o cruzamento que recolocou o Bahia no jogo. >
O time cresceu. Veio o empate. E, pouco depois, a virada. Em mais uma jogada pela esquerda de Nikão, a bola foi cruzada, desviou no zagueiro e entrou. Gol contra, mas nascido da jogada dele. De 3x1 para 4x3.>
Pituaçu explodiu. Era uma vitória enorme, daquelas que mudam o clima de uma equipe em um momento decisivo. E, no meio de tudo isso, estava ele. O mesmo jogador que dias antes estava treinando à parte. Que tinha feito só dois jogos. Que tinha dito que só precisava de uma chance. A chance veio. E ele fez exatamente o que prometeu.>
Quando o jogo acabou, ainda tentando entender o que tinha acontecido, chegou uma mensagem do assessor Vitor Tamar. Sem filtro: “Nikão, desgraça!!!”. Era meio xingamento, meio elogio, meio incredulidade.>
No fim, ficou aquela sensação curiosa. De que, sem querer, eu tinha encostado de leve na história. Não dentro de campo. Mas ajudando a dar voz a alguém que estava pronto. E que, quando teve a oportunidade, respondeu jogando.>
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