Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Moyses Suzart
Publicado em 28 de março de 2026 às 15:00
Apesar de tirar onda de cavalo do cão, sempre fui frouxo quando o assunto é assombração e forças ocultas. Peço a Deus, santos e orixás mensagens de luz para me guiar, mas sempre restrinjo o pedido condicionado a mandar o tal aviso de forma indireta, com sinais do cotidiano, sem negócio de aparições. Se um espírito resolver aparecer para mim, provavelmente vai ganhar um parceiro para penar por aí, pois cairei duro na hora. Mas fingir coragem também é o meu forte e aceitei o desafio de passar uma noite na Casa das Sete Mortes, no Centro Histórico, em comemoração aos 477 anos de Salvador. Olha o esparro. Contudo, assim como aquele filme o Sexto Sentido, parece que a assombração da história toda sempre fui eu. Vamos derivar… >
O único susto que levei durante toda a apuração sobre a Casa das Sete Mortes foi quando, na calada da noite, estava lendo sobre os supostos assassinatos ocorridos na casa e uma mão gelada encostou no meu ombro, no meio da escuridão. Senti a cueca molhar, um calafrio medonho, a pressão baixar e um grito fino sair da minha boca (Aaaai, minha nossa senhora!). “Já lavei os pratos, meu genro”, disse a jararaca da minha sogra, rindo do gritinho, com as mãos ainda molhadas sob meu ombro. Fora isso, o que a dita casa mais mal assombrada da capital, e talvez uma das mais antigas ainda em pé, é que muito mais que espíritos, o local é cercado de mistérios. >
O primeiro mistério foi a negação. Apesar dos pesares, eu queria muito passar uma noite na Casa das Sete Mortes. Juro. Há duas semanas fizemos tentativas com a Casa Pia de São Joaquim, dona do imóvel desde 1936. Ninguém me queria lá. Na verdade eu e a fotógrafa Sora Maia, que iria comigo, pois amigo de verdade leva o outro para a mesma laranjada. Porém… “A Casa das Sete Mortes, no momento, está desativada. Mas há um contrato que está sendo assinado nesta semana, pela prefeitura, para reativá-la. Por conta disto, estamos impossibilitados de permitir qualquer acesso à Casa das Sete Mortes, infelizmente”, disse a assessoria da Casa Pia. >
Apelamos para a Prefs, mas ninguém descobriu que parceria é essa. Presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro até tentou, pois adora ver o circo pegar fogo, mas não encontrou nenhuma relação com a tal parceria para ajudar nossa entrada lá. Ainda tive que escutar isso de Guerreiro: “As assombrações, neste caso, são você e Sora. As assombrações souberam que vocês iriam e se organizaram para não aparecer, pediram para não liberarem. Eles não querem visibilidade”, brinca o diretor teatral e gestor cultural. >
O jeito foi caçar alguém que viu alguma coisa, um fantasma do padre Manoel (falaremos dele, se acalme), corrente arrastada, gritos, objetos caindo ou coisas do tipo. Nos sites, nos vídeos de influencers, todo mundo fala que o povo escuta vozes, que a casa é aterrorizante, mas ninguém acha algum assombrado para confirmar. Só baratino. Uma das líderes do Afoxé Filhos de Korin Efan, Tainá Paula, de 36 anos, trabalha na sede do bloco, vizinha à casa assombrada, todo santo dia e nunca viu nem uma madeira estalando. >
“Eu sou filha de axé, vou ter medo de Egun? Me deixe, viu. Nunca vi nada do que esse povo fala. Conheço as histórias antigas, contadas de boca em boca, de muitas mortes, mas nunca vi nada assombrado e ninguém daqui também. A casa fica aí, não mexe com ninguém”, conta Tainá. “Mexe muito com o imaginário das pessoas daqui, mas ninguém nunca viu nada”, completa. Da varanda do Afoxé, dá para ver o fundo do casarão, já com o mato tomando conta e cobrindo as janelas coloniais pintadas de verde. Sinal de abandono. >
Há 52 anos vizinho da Casa das Sete Mortes, João Dias, de 85 anos, assegura que vê quase todo dia movimentos estranhos no imóvel, mas bem diferente de fantasmas. “As únicas assombrações que vejo são os sacizeiros que ficam aqui durante a noite arrancando os azulejos portugueses da casa para vender para colecionadores. Isso me dói mais do que espíritos, pois demonstra que algo histórico está se acabando. Olha só como já tem um monte [de azulejo] arrancada. O medo aqui são dos vivos, meu filho”, disse João, que conserta máquinas de costura no local. >
“A assombração é do tamanho do seu medo. Um sariguê que entra no estofado da casa e faz um barulho passa a ser fantasma para quem está vidrado naquilo. É claro que escuto barulhos, como toda casa fechada. São bichos entrando, madeira velha estalando, tudo dentro da normalidade. As histórias do lugar assombram mais do que fantasmas propriamente dito”, conta Seu João. >
O vizinho cético assegura que um segurança aparece no local pela manhã, abre a Casa das Sete Mortes um pouco e depois vai embora. Fomos quatro dias ver se algum vigilante chegava, no período de duas semanas, mas ninguém chegou. >
De fato, a história da casa impressiona na mesma proporção do mistério que envolve o sobrado. Tombado pelo Iphan desde 1943, ninguém sabe quem a construiu, quem foi o primeiro morador ou coisa do tipo. Parece que ela simplesmente apareceu no lugar. Na sua fachada, a data que geralmente identifica sua construção está datado de 1889. Impossível, já que os únicos assassinatos com algum tipo de registro histórico é de 1755. Segundo o Iphan, o local foi construído na segunda metade do século XVII, entre os anos de 1651 a 1700. Mas a data específica, ninguém sabe. >
A Casa das Sete Mortes
Mortes>
Sobre todos os assassinatos que supostamente ocorreram no local, apenas um nome, de fato, aparece documentado nos arquivos coloniais: Manoel de Almeida Pereira. Fomos atrás deste fantasma, ou melhor, o padre morto no casarão, no Arquivo Público do Estado da Bahia. Entre suposições e imprecisões sobre a história das mortes, apenas um livro indicava onde estava descrito o assassinato. ‘Memórias da História Bahiana, de João da Silva Campos’, encontrada graças à força tarefa da equipe do Arquivo Público, também intrigados. “Em seu texto, o autor informa ter encontrado referências sobre esse crime nos livros 38 e 40 do Tribunal da Relação”, indica Indira Naiara Silva, Coordenação de Processamento Técnico do Acervo.>
Foi como achar uma agulha no palheiro. Horas de busca em livros coloniais, boa parte, apesar do esforço na conservação, já comidos pelo tempo. João da Silva apontava que a introdução do relato indicava que “Padre Manoel Almeida Pereira morreu junto com outros dois pardos e um preto". Contudo, os livros mencionados pelo autor já estão inelegíveis e não podemos comprovar, tampouco saber com detalhes a morte. >
O que se sabe é que, após anos sem se saber quem morava ali, a Igreja Católica adquiriu o lugar para residência dos clérigos. Padre Manoel morou ali, não se sabe quanto tempo, com um liberto e outros dois escravizados. Em 1755, todos foram encontrados mortos com perfurações de faca. O crime nunca foi solucionado e se perdeu no tempo. É o que se sabe. O restante é o conto popular que foi passado adiante para que a casa fosse conhecida como das sete mortes. >
Para completar a conta, um casal e sua filha foram envenenados pela criada, ainda antes da morte do Padre Manoel. Nada comprovado. O próprio vizinho do local, Seu João Dias, conta que realmente aconteceram estas mortes, mas tudo não passou de um acidente. Os antigos moradores passaram gerações contando que, na verdade, a criada comprou um aipim e não cozinhou direito e a família acabou morrendo intoxicada, incluindo a criada, que também comeu a raiz tóxica se não souber cozinhar direito. >
Opa, mas aí chegamos a oito mortes. Sabe de nada, inocente. Ao longo do tempo, outras mortes foram sendo documentadas, como de uma mulher e sua filha, encontradas mortas em avançado grau de decomposição, no interior da casa. Ninguém sabe como foram parar lá. >
Saindo da ficção e do imaginário popular, o que se sabe é que Dona Catarina de Senna da Silva Marinho comprou a casa em 1795. Com sua morte, que não teria sido mais uma na Casa das Sete Mortes, ao menos não tem nada sobre isso, a casa passou para Joaquim Esteves dos Santos, que morou lá tranquilamente até 1881, quando passou para suas herdeiras. Depois disso, com a degradação do Centro Histórico, a casa passou a ser morada de pessoas em situação de rua até que, em 1936, o imóvel foi doado para a Casa Pia. A última obra de recuperação aconteceu em 2010.>
Mentira ou verdade, uma casa tão importante como esta, que mexe com o imaginário popular, bem que poderia ser mais um ponto turístico de Salvador. Enquanto tentávamos de alguma forma entrevistar pessoas no local, o casal de turistas Vinícius Costa e Débora Soares, do Rio Grande do Norte, passaram pelo lugar. Ao saberem sobre a casa, ficaram abismados. “Por que está fechada uma casa tão bonita e misteriosa desta? Eu fiquei curiosa em saber o que tem lá dentro. O turismo tem várias caras, inclusive de fantasmas”, disse a turista, que resolveu parar para tirar uma foto na frente da Casa das Sete Mortes. >
Os últimos ‘moradores’ da Casa das Sete Mortes foi o Focus Moda Social e Sustentável, onde ficaram até ano passado. Tentamos contato com o presidente do projeto, Jonas Bueno, mas não tivemos retorno até o fechamento da edição. Até então, não tem registro de pessoas do projeto se queixando de assombrações enquanto estiveram por lá. O curioso é que o Focus só ficava aberto so público até às 17h. Por que será? >
Sobre a casa>
Casa urbana com dois pavimentos e sótão que se desenvolve em torno do um pátio. O pátio, que é um elemento organizador da planta, tem tratamento nobre, com revestimento de azulejos seiscentistas e piso de mármore, e é rodeado por galerias. Para ele se abre uma antiga casa de banhos, com banheira embrechada de conchas. Na casa, destacam‐se ainda os azulejos do século XIX, portugueses, na fachada, e ingleses, de figura avulsa, no vestíbulo.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping. >