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Estúdio Correio
Gabriela Araújo
Publicado em 28 de março de 2026 às 05:00
O concurso cultural “Conte sua História”, promovido pelo jornal CORREIO, reuniu relatos que traduziram a essência de viver em Salvador. De diferentes bairros e trajetórias, leitores compartilharam experiências marcantes vividas na capital baiana, enviadas por meio de formulário de inscrição. >
A iniciativa celebra os 477 anos da cidade, comemorados neste domingo (29), destacando que a capital baiana é feita, sobretudo, das histórias de quem a vive. Entre memórias de amor, situações inusitadas e episódios cheios de humor, três participantes foram selecionados. >
Concurso "Conte sua História"
Os vencedores, escolhidos por uma banca julgadora, formada por profissionais da área de comunicação do jornal, ganharam um passeio imersivo na Casa das Histórias de Salvador, onde conheceram mais sobre a cidade e participaram da gravação de um vídeo especial, onde contaram seus relatos. Conheça os vencedores: >
Imaginar um jantar em um lugar sofisticado e acabar em uma kombi foi exatamente o que aconteceu com a assistente social Cristina Vieira, de 57 anos. Natural do município de Milagres, no Vale do Jiquiriçá, ela havia chegado a Salvador em 1993 e começava a se adaptar à nova vida, quando iniciou um namoro com um soteropolitano. >
Ao ser convidada para jantar em um local chamado “Quatro Rodas”, Cristina logo associou o nome ao antigo Hotel Quatro Rodas, no bairro de Itapuã, conhecido por ser um espaço mais elegante. Pensando nisso, chegou a avisar ao companheiro que iria se trocar para estar à altura do ambiente. O namorado, no entanto, insistiu que ela já estava adequada para a ocasião. >
A surpresa veio no caminho, se confirmando quando ele estacionou o carro em que estavam ao lado do antigo Clube Português, na Pituba. No lugar do tão esperado hotel, havia uma kombi que funcionava como restaurante ambulante. No cardápio, nada de pratos sofisticados: mocotó, rabada, feijoada, maniçoba e o famoso “mistro”, prato que reunia um pouco de tudo. >
Longe de se frustrar, Cristina caiu na risada diante da situação. O episódio, que poderia ter sido uma decepção, se transformou em uma lembrança leve e divertida, uma espécie de retrato bem-humorado de sua chegada à capital baiana. >
“Eu dei altas risadas e isso marcou muito a minha chegada aqui, em Salvador. Uma caipira do interior querendo conhecer o Hotel Quatro Rodas”, brincou. >
Uma cena corriqueira acabou ganhando significado inesperado durante um passeio guiado por Roberto Carlos Pessoa, 67. Historiador e guia de turismo, ele conduzia um grupo de 40 argentinos por um dia inteiro de imersão em Salvador, passando pelo Centro Histórico, pela orla e por pontos marcados pela cultura e religiosidade baiana. >
Encantados com as explicações sobre a história, a antropologia e as tradições locais, os turistas vivenciaram experiências típicas, como provar a culinária baiana e participar de um banho de pipoca. O passeio seguiu até a Lagoa do Abaeté, onde o grupo fez uma saudação a Oxum, em um momento que reforçou ainda mais o fascínio pela espiritualidade presente na cidade. >
Já na reta final do passeio, durante visita à Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), Roberto sentiu o incômodo de areia no sapato, trazida das dunas da lagoa. Tentando resolver a situação de forma discreta, afastou-se um pouco e bateu o calçado em uma mureta próxima. >
O que ele não percebeu foi que o grupo observava atentamente cada gesto. Ao se virar, notou que todos os turistas repetiam o movimento, como se participassem de um ritual. Surpreso, ainda foi questionado por uma das visitantes sobre quantas vezes deveriam repetir o gesto. >
Sem querer frustrar a expectativa do grupo, que já estava imerso no encanto pela religiosidade baiana, Roberto improvisou: orientou que batessem o sapato três vezes, associando o ato à saúde, ao amor e à prosperidade. O episódio virou uma história curiosa e simbólica sobre como, em Salvador, quase tudo vira história para contar. >
“Essa é a Salvador, cheia de histórias e mitos que cada vez mais se fecundam naturalmente”, afirmou. >
Em meio à energia vibrante do Carnaval de Salvador, a professora Ivanildes Couto, 74, viveu uma história que desafiou a ideia de que romances de folia são passageiros. Ainda jovem, ela conheceu Jorge Carlos da Silva, aquele que viria a ser seu marido durante a festa na Praça Castro Alves, ao som do trio elétrico. >
Entre a música, a multidão e o clima festivo, os dois se aproximaram e viveram um breve romance típico da época. Ficaram juntos até o fim daquele dia, trocaram contatos, mas, apesar da conexão, não se reencontraram depois disso. O tempo passou, e o destino tratou de surpreender. >
Um ano depois, no Carnaval seguinte, Ivanildes voltou à folia ao lado de uma amiga, a mesma que havia presenciado o primeiro encontro. Foi ela quem, por acaso, avistou o rapaz em meio à multidão e levou Ivanildes até ele. O reencontro reacendeu o sentimento que parecia ter ficado no passado. >
A partir dali, a relação ganhou força. Primeiro, veio o namoro. Depois, o noivado e, após mais alguns anos, o casamento. Ao contrário do que muitos acreditam sobre romances carnavalescos, a história dos dois não se dissipou com o fim da festa. Pelo contrário: atravessou décadas e se consolidou em uma união duradoura. >
“Não dizem que amor de Carnaval desaparece na fumaça? Isso não é verdade, já estamos com 53 anos de casados”, destacou. >
Fantasiados de Colombina e Pierrot no início dessa trajetória, eles transformaram um amor de Carnaval em uma história de vida inteira, daquelas que só uma cidade como Salvador poderia inspirar.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping. >