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O apóstolo de Cristo que deu um rolé em Salvador

Antes mesmo de Tomé de Sousa fundar a capital, há 477 anos, seu xará, aquele mesmo que caminhou com Jesus, deu um pulinho aqui e deixou até rastros entre os indígenas

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 29 de março de 2026 às 05:00

Cruzeiro de São Tomé, em Piatã
Cruzeiro de São Tomé, em Piatã Crédito: Arisson Marinho

Salvador é tão diferenciada, que merecia um espaço de destaque na Bíblia. Indiretamente, como um conto apócrifo, a nossa capital baiana fez parte de uma passagem bíblica pós-créditos bem curiosa. Passagem, não. Duas pegadas santificadas de um personagem do livro sagrado que resolveu sair de lá da terra de Jesus para dar seu rolé aqui na nossa cidade. Antes mesmo do Tomé de Souza fundar a primeira capital do Brasil, há 477 anos, seu xará, o apóstolo de Cristo, deixou suas pegadas em São Tomé de Paripe, por isso o nome do bairro, além de Piatã, onde existe hoje uma Cruz em homenagem a este turista santificado.

Tudo começou antes mesmo da cidade ser fundada. Quando os primeiros portugueses chegaram em solo baiano, mais precisamente no que seria futuramente Salvador, relatos de indígenas diziam que os religiosos estavam atrasados na pregação. Um outro homem branco e de barba, conhecido pelos povos nativos como Sumé (ou Zumé), já havia caminhado há séculos por aqui, pregando a mesma coisa dos jesuítas. Inclusive tinha até deixado pegadas nas pedras. Isso intrigou os padres, que cravou na história talvez o primeiro mito registrado em terras soteropolitanas: Eles disseram que Sumé, na verdade era o apóstolo Tomé, que andou com Jesus no Novo Testamento, e que estava levando o evangelho para as terras da América do Sul.

Estas pegadas foram relatadas no documento “A Nova Gazeta da Terra do Brasil”, datado de 1515, portanto há 511 anos. Esse primeiro conto, que sincretizou histórias indígenas e européias pela primeira vez, continuou no imaginário durante os séculos seguintes até se perder no tempo. “Hoje é uma história praticamente esquecida, só quando você lê as cartas jesuíticas tem uma noção disso. Agora, observe esse mapa de José Anastasio. É muito legal, porque é o único que marca uma das pegadas. Mostra como isso permaneceu no imaginário até o século XIX, passou pelo XVIII, mesmo quando os jesuítas foram expulsos. Muitos anos depois ainda está ocupando o imaginário”, conta o historiador Pablo Magalhães, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob).

Pablo se refere ao mapa de Salvador que ele encontrou em Lisboa, datado de 1800, que está na Biblioteca da Ajuda, em Portugal. A autoria é de José Anastácio de Santa Anna e tem uma riqueza de detalhes que impressiona. O mapa, no local onde hoje é Paripe, ele coloca a Pedra de Tomé, com direito a pegada e tudo. “Esse é um dos melhores mapas de Salvador que eu já vi, pra rede fluvial é a melhor, pega Baía de Todos Santos, ele é em quatro partes, sobrou duas, é o único mapa desse que eu vi até hoje. O autor era um sujeito ex-escravizado, tem uma obra cartográfica importante, mas muita coisa desapareceu, não conseguimos nem rastrear direito o final da vida dele”, completa Pablo.

Mapa de Salvador de 1800 por Pablo Magalhães

A história da suposta passagem de São Tomé em Salvador ganhou ainda mais força quando chegou aos ouvidos do padre Manoel da Nóbrega, justamente no dia 29 de março de 1549, quando atracou junto com Tomé de Souza para inaugurar a capital. Certamente foi a primeira fofoca oficial em São Salvador, que se espalhou até chegar em Portugal, por meio de cartas. Os jesuítas passaram a aproveitar e utilizar o relato em outros lugares que chegassem. O resultado foi o surgimento de novas pegadas de Tomé em outras partes do país e até fora dele, incluindo no Paraguai, local onde os jesuítas chegaram em 1586, entre outros países do Hemisfério Sul e até parte do México. Mas, logicamente, o primeiro lugar tinha que ser em Salvador.

Considerado o primeiro historiador do Brasil, natural de Itapagipe, Frei Vicente do Salvador deu com detalhes como foi este primeiro contato crossover da Bíblia pós-crédito e do Brasil ainda virgem, segundo relatos dos indígenas. Ele escreveu em 1627: “Também é tradição antiga entre eles que veio o bem-aventurado apóstolo S. Tomé a esta Bahia, e lhes deu a planta da mandioca e das bananas-de-são-tomé, de que temos tratado no primeiro livro; e eles, em paga deste benefício e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus e não ao Demônio, que não tivessem mais de uma mulher nem comessem carne humana”, escreveu. Sacou? A nossa mandioca é obra de Tomé, com o devido lá ele.

Frei Vicente ainda diz que Tomé tinha poderes sobrenaturais parecidos com Jesus, como andar sob as águas, como relatava os Tupinambás. O mais curioso foi a despedida do seguidor de Cristo e como a pegada ficou cravada na pedra:

“Seguindo-o com efeito até uma praia onde o santo se passou de uma passada à ilha de Maré, distância de meia légua, e daí não sabem por onde. Devia de ser indo para Índia, que quem tais passadas dava bem podia correr todas estas terras, e quem as havia de correr também convinha que desse tais passadas. Mas, como estes gentios não usam de escrituras, não há disto mais outra prova ou indícios que achasse uma pegada impressa em uma pedra naquela praia, que diziam do santo quando se passou à ilha, onde em memória fizeram os portugueses no alto uma ermida do título invocação de S. Tomé”, completa.

Considerando o relato e a história oficial de Tomé, vale lembrar que este apóstolo morreu na Índia, no ano 72 D.C. Ele foi inventar de converter a esposa de um rei ao cristianismo. Ela abdicou do sexo e, como vingança, os soldados reais mataram Tomé com várias lanças. Se tivesse ficado em Salvador não teria ocorrido nada disso. Ou teria? Segundo relatos de Manoel da Nóbrega, em carta enviada à Portugal, Tomé estava fugindo de flechadas dos indígenas.

“Dizem eles que São Tomé, a quem chamam Zomé, passou por aqui [Brasil]. Isto lhes foi dito por seus antepassados. E que suas pegadas estão marcadas na extremidade de um rio, as quais eu fui ver para ter mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pegadas muito assinaladas com seus dedos, as quais algumas vezes o rio cobre quando transborda. Dizem também que quando deixou estas pegadas estava fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali se abriu o rio e ele passou para a outra parte sem molhar-se; e dali seguiu para a Índia”, escreveu.

A arqueóloga Ana Clélia Correia tem um vasto trabalho sobre estas pegadas de Tomé. Ela faleceu em 2019, mas deixou um importante registro sobre o caso. Em 1992, ela publicou a tese de mestrado “Nos Passos do Herói-Santo: na História, na Arqueologia e na Mística Popular”. Ela afirma que a pegada de Paripe existia até meados de 1927, quando a construção de uma estrada de rodagem passou por cima da pegada sagrada, restando apenas a capela com o nome do apóstolo.

Cruzeiro de São Tomé, em Piatã
Mapa de Salvador de 1800 Crédito: Pablo Magalhães

Correia foi atrás da pegada de Tomé no bairro de Piatã, onde até hoje tem o Cruzeiro de São Tomé, indicando que ele passou pela região. Ela também não conseguiu ver a tal pegada, mas ouviu dos moradores da região que a dita cuja surgia de formas diferentes, como um milagre.

“Correia não conseguiu ver a pedra com as pegadas. Localizada à beira-mar, o suposto artefato ficaria a maior parte do tempo encoberto pela água [do mar] ou pela areia. A população oferecia para esse fato várias explicações místicas. Segundo uma delas, a pedra só aparecia de sete em sete anos. Segundo os informantes, quando isso ocorria, rapidamente a notícia se espalhava atraindo grande quantidade de pessoas”, escreveu o historiador Thiago Leandro Cavalcante, no seu artigo “As pegadas de São Tomé: Ressignificações de Sítios Rupestres”.

Até hoje acontece a celebração pela passagem de São Tomé em Piatã, em dezembro. Correia esteve em uma destas festas populares, ainda na década de 90, e pegou um relato interessante de um devoto que jurava ter visto a pedra.

“A marca de pé humano, esquerdo, “perfeitíssimo”, com o calcanhar para a terra e os dedos para a água, é atribuída ao apóstolo São Tomé. A pata de animal, segundo eles, seria o rastro de um cachorro. As depressões circulares são vistas como marcas do cajado do santo. Faria parte ainda do conjunto uma figura identificada com uma cruz cristã, símbolo da religiosidade do autor das pegadas”, relatou. Segundo historiadores, esta celebração ocorre desde 1602.

Se alguém duvida que Salvador é uma terra sagrada e atrativa, melhor repensar suas teorias. Se até um apóstolo de Cristo resolveu dar um rolé em Salvador e deixar sua marca em duas praias da capital, quem é você para duvidar da grandeza soteropolitana?

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são Tomé