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Donaldson Gomes
Publicado em 28 de março de 2026 às 05:00
Que o jeito cordial e pacífico do povo soteropolitano não deixe ninguém se enganar, Salvador foi palco de um dos maiores cercos navais já registrados. A “Recuperação da Baía”, em maio de 1625, foi eternizada uma década depois em um quadro de mesmo nome, pintado pelo Frei Juan Bautista Maíno, que está exposto no Museu do Prado, em Madri, na Espanha. A tela retrata o maior feito militar da “União Ibérica”, entre 1580 e 1640, e, mesmo hoje, segue como um impressionante caso de estratégia política e militar. >
Há pouco mais de 400 anos, os portugueses e espanhóis fizeram na Baía de Todos-os-Santos o que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta no Estreito de Ormuz. O Império Ibérico conquistou a cidade de Salvador, um ano após a cidade ter sido tomada pela Companhia das Índias Ocidentais, dos holandeses, em um cerco que contou com 52 navios de guerra, com mais de 12 mil soldados. >
Alguns séculos antes do 2 de Julho tornar a capital baiana o centro da luta contra a dominação portuguesa, um general português, Fadrique Álvarez de Toledo y Mendoza, fez do dia 3 de maio, o “Dia do Brasil”, para portugueses e espanhóis. >
A “Reconquista da Baía”, também chamada de restituição e até de restauração por alguns autores, foi um dos eventos militares mais divulgados do século XVII, contado literalmente em verso, prosa e tinta. Os espanhóis viam no feito a oportunidade de enaltecer o imperador Felipe IV, apresentado como “o grande rei católico das Espanhas e das Índias”. Foi tão importante que 1625 entrou para a história como o “Annum Mirabilis” – o ano maravilhoso. O quadro de Maina, por outro lado, põe em destaque as vítimas da guerra, o que levaria inclusive a analogias posteriores com o Guernica de Picasso. >
Salvador teve papel decisivo na luta entre portugueses e espanhóis contra os holandeses no Século XVII. Permitir que a capital baiana, naquele momento sede do império português na América caísse nas mãos dos inimigos em 1624 foi um grande vexame e demandava uma resposta à altura. Além de sede do Brasil português, a cidade era o principal centro administrativo da colônia e núcleo do comércio de açúcar no Atlântico. >
Se os holandeses enviaram 26 navios de guerra, com mais de 3 mil homens para tomar a cidade, a resposta foi dura: Portugal, Castela, Nápoles e a Sicília, além de forças coloniais brasileiras reuniram 52 embarcações – propositalmente o dobro – com mais de 12 mil homens. Era a versão ibérica da Otan. Os números eram colossais no Século XVII e mesmo hoje ainda impressionam. O noticiário a respeito da guerra no Oriente Médio indica que os Estados Unidos enviaram para lá cerca de 3,5 mil fuzileiros e teriam ainda mais 2,5 mil a caminho. >
Mas a lição que a Reconquista da Baía traz, do ponto de vista militar, vai além do poderio desproporcional do lado ibérico. Claro que trazer para o campo de batalha um contingente quatro vezes maior fez os adversários pensarem duas vezes. As forças hispânicas eram praticamente do mesmo tamanho de toda a população de Salvador – que segundo estimativas teria entre 10 e 15 mil habitantes. >
O historiador baiano Luís Henrique Dias Tavares diz em seu clássico “História da Bahia” que a reconquista foi, antes de mais nada, uma demonstração de força da União Ibérica. Os conflitos entre portugueses, espanhóis e holandeses pelo controle do Atlântico duraram décadas. A vitória na Bahia é descrita por Luís Henrique como “decisiva”, mas não “definitiva”. Quase 2 mil holandeses se renderam, mas o restante se reagrupa e parte para Recife. >
Um outro detalhe sobre a operação militar é que ela foi baseada em ações marítimas e terrestres. Luís Henrique inclusive destaca o papel do Recôncavo no processo, tanto no abastecimento do exército ibérico, quanto na resistência aos holandeses. Nas águas da Baía de Todos-os-Santos, a armada impedia que os homens da Companhia das Índias Ocidentais recebessem reforços, ao mesmo tempo em que os desembarques de soldados ao redor da cidade sufocavam os holandeses, incapazes de lidar com a escassez de alimentos e doenças. >
A Baía foi retomada porque portugueses e espanhóis conseguiram reunir uma força que desestimulou o adversário de lutar, contaram com apoio local, enviaram tropas terrestres e esperaram o cerco fazer efeito. Trump não faz nada disso em Ormuz.>
Como o Orixás Center virou o Orixás Center>
Cravado entre o Politeama e a Avenida Sete, um lugar se tornou a “meca” da beleza — e da fantasia. O Orixás Center, construído em 1973, virou sinônimo de aluguel de roupas de festa e venda de cabelo. “Esse aqui é o shopping da confusão”, acrescenta à lista Ednei Gouveia, uma das lojistas do centro comercial.>
A história de um dos símbolos de Salvador começa com a união de um construtor filho de uma mãe de santo e um jovem em busca de trabalho, depois de rodar o mundo. “Ele foi pioneiro”, explica o arquiteto Fernando Peixoto, que assina o projeto. “Mas ninguém entendeu”. Antes de virar símbolo do aluguel, o Orixás foi o primeiro a cruzar a fronteira entre residencial e comercial. Além do shopping, há quatro edifícios habitados. >
O Correio exibe, a partir deste final de semana, no canal do youtube (@Correio24hBahia), um minidocumentário sobre o prédio. Nesse mergulho no cotidiano de um marco local, a equipe descobre sonhos, frustrações, alegrias e mistérios. E, de uma vez por todas, revela a trama inédita de como o Orixás Center virou o Orixás Center.>
Confira abaixo outros mini documentários que contam histórias extraordinárias de Salvador no youtube do Correio. Acesse o canal do CORREIO.>
(Texto de Fernanda Santana) >
O bar no Pelourinho que criou uma dinastia do reggae>
Antes de chegar às rádios, o reggae encontrou abrigo em um bar do Pelourinho. Nos anos 1970, um adolescente começa a investir o pouco dinheiro que tinha em caixa em discos importados e, sem perceber, ajuda a formar uma cena musical na Bahia. >
O raro casarão que desafia o Porto da Barra >
No Porto da Barra, um casarão laranja resiste ao avanço imobiliário e guarda uma rotina que já não cabe no bairro. Entre bares, turistas e prédios altos, um morador mantém viva uma forma de habitar que desapareceu ao redor. >
Por dentro do Hotel Othon, um gigante à beira-mar>
Fechado em 2018, um dos hotéis mais emblemáticos de Salvador está prestes a virar um prédio residencial. Antes de as obras começarem, entramos no edifício, enquanto acontece uma busca silenciosa por marcas do seu passado. >
Quartos secretos desde 1735 são revelados pela primeira vez>
A clausura do Convento das Mercês, um dos edifícios mais antigos de Salvador, é aberta pela primeira vez. O local, que existe desde 1735, despertava curiosidade e especulações entre os alunos do antigo e tradicional Colégio das Mercês. Corredores, salas e histórias que atravessaram gerações vêm à tona neste vídeo. >
O fim da rodoviária que virou uma “cidade”>
Em 1974, a construção de uma rodoviária revoluciona a geografia da cidade. Com o tempo, ela deixa de ser apenas passagem. Neste vídeo, mostramos os últimos momentos do terminal que tinha até moradores, antes da mudança de endereço para Águas Claras, enquanto perguntas seguem em aberto.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.>