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Carol Neves
Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 11:22
Há 21 anos, Itapuã se despedia de Dona Niçu, uma das figuras mais importantes da cultura popular do bairro. Criadora da Lavagem Nativa, que acontece dentro da programação da tradicional Lavagem de Itapuã, ela deixou como principal legado o pedido para que a família mantivesse viva a tradição, compromisso que segue sendo cumprido. >
Todos os anos, familiares e moradores preservam rituais e símbolos que marcam a história da celebração. Um deles é a vassoura utilizada por Dona Niçu na última lavagem da qual participou, mantida e levada novamente ao cortejo como forma de homenagem e continuidade cultural.>
Filha da matriarca, Leonice Gomes, mais conhecida como Nicinha de Niçu, destaca a emoção de ver a tradição atravessar gerações. “Hoje, ver meu neto aqui é a certeza de que a tradição vai continuar”, afirmou.>
Ao relembrar o início da iniciativa criada pela mãe, Nicinha contou como a tradição se fortaleceu ao longo do tempo. "É uma redenção. Quando minha mãe criou essa lavagem há 38 anos, disse a ela que era louca, maluquice fazer uma coisa dessa de manhã cedo. E hoje a louca sou eu. É uma louca do bem, que pede paz, que pede uma sociedade melhor, mais igual, onde a gente não tenha prepotência de achar que é melhor que ninguém", diz.>
Ela lembra a partida da mãe e o pedido que ela fez. "Minha mãe já faz 21 anos que fez a passagem, e ela sempre pedia. 'Quando eu não estiver mais aqui fisicamente, dê continuidade'. Dizia 'Vamos ver, vamos ver. 'Se vocês não quiserem, dê para alguém da comunidade, mas que prossiga'. E a gente tem resistido com muita boa vontade. Gratidão, fé, a gente fica cansado, porque a exaustão acontece, a gente não tem muita colaboração, eu trabalho ainda, a idade já chega. Hoje tenho 67, a gente vai cansando. A mesma vassoura que minha mãe usou no último ano que ela esteve aqui, em janeiro a lavagem, e ela fez a passagem em 5 de dezembro. No ano seguinte a gente já veio trazendo a vassoura e mantendo as tradições todos os anos. De lá para cá, não paramos um ano de trazer a vassourinha".>
Durante a celebração deste ano, a vassoura foi exibida novamente pelos familiares da matriarca.>
Lavagem de Itapuã
Lavagem de Itapuã chega a 121 anos>
A tradicional Lavagem de Itapuã celebra nesta quinta-feira (5) seus 121 anos de história, sendo considerada a última grande festa popular antes do Carnaval. O evento reúne cortejos, blocos culturais e homenagens a lideranças comunitárias, reforçando a identidade cultural do bairro eternizada nas canções de Dorival Caymmi.>
A programação começou ainda de madrugada, com a Alvorada e o Bando Anunciador, quando moradores se reúnem na Praça do Tamarineiro, também conhecida como Praça Geraldão, próxima à Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, ponto final do cortejo.>
A chegada do dia é marcada por queima de fogos e pelo momento mais simbólico da festa: a lavagem das escadarias da igreja, conduzida pelas baianas, em um ritual que representa purificação e renovação espiritual, reunindo elementos das tradições afro-brasileiras e do catolicismo popular.>
Neste ano, a festa organizada pela Associação dos Moradores de Itapuã (AMI), com apoio da comunidade e de entidades culturais, homenageia Teresa Alves de Souza, Ekedi do terreiro Ilê Axé Oya Demim, em Lauro de Freitas, e Ulisses dos Santos, músico, pescador e fundador do Afoxé Korin Nagô, ambos reconhecidos por sua atuação cultural e comunitária.>
Com mais de 30 atrações previstas, a programação inclui samba de roda, afoxés, grupos de percussão e bandas de sopro, além da tradicional água de cheiro, símbolo da mistura entre religiosidade e festa popular.>
O cortejo também conta com a presença da baleia Jubarte, personagem criado pelo artista plástico Ives Quaglia e que se tornou um dos ícones visuais da Lavagem de Itapuã, representando a memória afetiva e a criatividade do bairro.>