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Monique Lobo
Publicado em 10 de abril de 2026 às 19:52
Um dos destaques da programação da Bienal do Livro Bahia 2026 está na pluralidade de vozes femininas da cena literária. A partir da próxima quarta-feira (15), e até o dia 21, o Centro de Convenções de Salvador vai receber autoras baianas, brasileiras e até internacionais para falar sobre temas como ancestralidade, racismo, feminismo, sexualidade, maternidade, memória, afeto e pertencimento. >
As escritoras, atualmente, dominam as listas de mais vendidos, premiações e comunidades de leitura no ambiente digital. E é esta potencia que vai ser reforçada no evento através de convidadas que representam diferentes gerações e estilos, mas têm em comum a capacidade de transformar experiências individuais em relatos universais.>
Veja algumas das escritoras brasileiras que vão estar na Bienal do Livro Bahia 2026
Entre os nomes baianos, o Café Literário recebe, no dia 21, às 16h, Luciany Aparecida, baiana do Vale do Jiquiriçá, para a mesa “A trama e o tempo: horizontes da literatura brasileira”. Além dela, a mesa vai contar com a escritora Bianca Santana e Denise Carrascosa, professora e mediadora da conversa. Autora de “Mata Doce”, romance finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2024, Luciany Aparecida escreve histórias que perpassam a memória, violência, linguagem e território, em uma narrativa sofisticada e profundamente ligada às experiências femininas.>
O romance "Mata Doce" foi escolhido como obra do vestibular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e, recentemente, apareceu também em um concurso público da Secretaria da Saúde do Estado. “Saber que estarei com esse romance na Bienal da Bahia, em proximidade ao público, me anima muitíssimo. Penso que é indispensável que possibilitemos espaços de encontros para conversas sobre o livro e a leitura”, avalia.>
Já na próxima quarta (15), às 16h, quem participa é a professora e pesquisadora baiana Bárbara Carine, na mesa “Festas, feiras e festivais literários – Programa Bahia Literária”. Ao lado dela estará o jornalista e escritor Ricardo Ishmael, e o mediador Sandro Magalhães, diretor-geral da Fundação Pedro Calmon. O encontro propõe uma reflexão sobre a efervescência literária que atravessa a Bahia. Referência nacional em educação antirracista, Bárbara é autora do best-seller “Como ser um educador antirracista”, vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Educação, e uma das intelectuais baianas que têm ampliado o debate sobre raça, educação e formação de leitores.>
Ainda entre as filhas da terra, a Bienal recebe a intelectual baiana Carla Akotirene, que participa, no dia 21 de abril, às 13h, da mesa “Afeto e Resiliência nas Relações”. Doutora em Estudos Feministas pela UFBA e autora de livros fundamentais para o pensamento contemporâneo, como “O que é interseccionalidade?”, Carla é uma das vozes mais respeitadas do feminismo negro brasileiro e leva para o evento discussões inadiáveis sobre racismo estrutural, gênero e desigualdade.>
Novas vozes baianas também ganham palco na programação. Multiartista, poeta e idealizadora do Slam das Minas – Bahia, NegaFyah participa, no dia 21 de abril, na Arena Farol, às 11h, do “Sarau Corpos que Dizem”. Em sua obra e em suas performances, a artista transforma em poesia questões amargas como racismo, machismo, feminicídio e a solidão da mulher negra, articulando denúncia e resistência. Seu livro “Fyah: Do Ódio ao Amor” faz ressoar os tambores das quebradas de Salvador e dialoga com a tradição da literatura negra, feminina e diaspórica, porque transita entre oralidade, escrita e performance.>
Entre as criadoras em ascensão está Regina Luz, escritora soteropolitana que assina cinco livros – destes, três para o público infantil. Mesmo que para leitores mirins, Regina trata de temas como ancestralidade, protagonismo negro e memória. Em “Alika”, ela aborda o racismo vivido pela personagem e apresenta uma perspectiva antirracista à crianças. Para a autora, é justamente na infância que essas mensagens encontram terreno mais fértil. “Acredito na necessidade de deixar bem claras as nossas dores logo na infância, porque é um período no qual se forma o adulto consciente de sua potência. Falar da exclusão na infância fortalece o nosso povo para enfrentar as dificuldades que são complexas”, enfatiza Regina. >
Regina estará, no dia 15 de abril, às 13h30, no Espaço Infantil Colgate – Portais da Palavra, com o livro “Meu sonho, cor do luar". A história desperta sensibilidade, valores e reflexões sobre a necessidade de realizar os seus sonhos e enaltecer a beleza interior e sobre a coragem para conhecer a sua origem. >
Entre os nomes centrais da agenda está a cearense Socorro Acioli, reconhecida como uma das vozes mais originais da ficção brasileira atual. Com uma trajetória construída a partir do diálogo entre religiosidade popular, realismo fantástico e tradição nordestina, Acioli participa, no dia 18 de abril, às 17h, do painel “Rádio Companhia ao vivo apresenta: especial 40 anos Companhia das Letras”, com mediação da editora Stéphanie Roque.>
Autora de mais de vinte livros, entre eles “A cabeça do santo”, “Oração para Desaparecer” e “Ela tem olhos de céu”, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, Socorro Acioli tem ganhado os corações dos leitores mais jovens. Seus romances voltaram a figurar entre os títulos mais procurados nas livrarias após ganharem força nas redes sociais. Foi sob a orientação do escritor colombiano Gabriel García Márquez que Socorro escreveu “A cabeça do santo”, romance publicado em 2014 e traduzido para uma gama de idiomas.>
Outros nomes também aportam na Bahia e integram a grade da Bienal. No dia 19 de abril, às 14h, no Café Literário, a mesa “Evocar memórias, recriar mundos: do que é feita a literatura” reunirá Aline Bei e Andréa del Fuego, duas autoras que vêm escancarando as possibilidades da ficção contemporânea. A atividade terá mediação da jornalista e educadora Edma de Góis.>
Aline Bei está entre os mais célebres nomes da geração emergente de romancistas brasileiras. As obras da autora paulista traz personagens majoritariamente femininas e uma escrita bordada pela delicadeza, pela fragmentação e por uma elaboração poética das lembranças. Ela alcançou expressiva repercussão com “O peso do pássaro morto”, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e “Pequena coreografia do adeus”, romance finalista do Jabuti e já adaptado para o teatro. Em 2025, concluiu sua trilogia com “Uma delicada coleção de ausências”, eleito um dos melhores romances do ano pela revista Quatro Cinco Um e já negociado para publicação no exterior.>
“Eu participei da Bienal passada e foi uma experiência muito marcante. É um público muito interessado, muito carinhoso, muito presente de escuta. Foi super especial poder abraçar e estar com as pessoas. A Bienal da Bahia é sempre muito especial e eu estou super feliz de voltar”, afirma Aline.>
Também integrante da mesa, Andréa del Fuego é autora de “Os Malaquias”, vencedor do Prêmio José Saramago, e de romances que transitam entre o fantástico, a filosofia e as relações familiares. Andréa tem obras publicadas em 12 países, como Alemanha, França e Argentina. Seu livro mais recente, “A Pediatra”, protagonizado por uma médica manipuladora que não gosta de crianças, reafirma um estilo pautado pela inventividade e pela reflexão sobre os papéis historicamente atribuídos às mulheres.>
“Fazer uma mesa com Aline Bei na Bahia me parece unir duas maravilhas: a poética e a alma do país”, resume Del Fuego. A autora reitera que sua escrita nasce da sua avidez pelas ambiguidades humanas. “Me interessa investigar as contradições nas relações humanas, por exemplo: como é possível amar odiar alguém, ou odiar estar amando?”, indaga.>
Também no “Sarau Corpos que Dizem”, no dia 21 de abril, na Arena Farol, às 11h, estará Ryane Leão, poeta best-seller que reúne mais de 600 mil leitores nas redes sociais, na página "Onde jazz meu coração". Autora de “Tudo nela brilha e queima” e “Jamais peço desculpas por me derramar”, foi justamente na internet onde a cuiabana se tornou popular por meio da partilha de seus textos. Ryane representa uma geração de mulheres que encontrou nesse meio, assim como na rua – com os slams –, uma nova forma de fazer circular a literatura e criar comunidades por meio e em torno da escrita.>
Para além dessas autoras, a Bienal promove, no espaço Café Literário, dois encontros de literatura contemporânea de autoria feminina, ambos com curadoria da escritora e roteirista Josélia Aguiar. No dia 18 de abril, ao meio-dia, “Meninas, mulheres” aproxima duas romancistas de extremos do país: Verenilde Santos Pereira, da Amazônia, e Julia Dantas, de Porto Alegre, em uma conversa sobre histórias de meninas e mulheres em situações de deslocamento, risco, luto e busca de autonomia. Mais tarde, às 18h, “A casa e a rua” une a gaúcha Eliane Marques e a mineira Nara Vidal, radicada na Inglaterra, autoras que transitam entre prosa e poesia e investigam, em seus livros, as tensões entre a intimidade e o mundo, assim como os vínculos afetivos e suas violências.>