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Carol Neves
Arthur Max
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 06:01
Em junho de 1989, um disparo dentro de um apartamento de luxo em Salvador deu início a um dos casos criminais mais longos e controversos da história recente da Bahia. Trinta e sete anos depois, em 2026, o assassinato da comerciária Rosemary Cardoso Neves de Albuquerque, então com 22 anos, segue como um processo encerrado sem julgamento, marcado por fugas, entraves diplomáticos e mortes que impediram qualquer desfecho judicial. >
Rosemary, que era gerente de uma loja no Shopping Barra, foi baleada no peito dentro do apartamento 1.405 do Manhattan Apart Service, no bairro da Pituba, na manhã de 20 de junho. O local pertencia ao empresário Otto Willy Jordan, de 42 anos, então diretor-superintendente da empresa Alimba.>
Segundo registros da época, o crime teria ocorrido por volta das 9h, mas a polícia só foi informada horas depois, quando a vítima já havia sido levada ao Hospital Jorge Valente, onde não resistiu. Principal suspeito desde o início do crime, Otto Willy sempre negou ter matado Rosemary. Ele chegou a ser preso pela morte da jovem, mas fugiu e morreu em um acidente de avião em Ponta Porã (MT) antes de ser julgado.>
Jovem de 22 anos foi morta em apart-hotel na Pituba
O crime nunca esclarecido>
Na manhã de 20 de junho de 1989, Rosemary foi encontrada baleada no interior do apartamento 1.405 do Manhattan Apart Service, no bairro da Pituba, em Salvador. O imóvel pertencia ao empresário Otto Willy Jordan, com quem a jovem mantinha um envolvimento afetivo, segundo a polícia.>
A polícia apurou que o disparo ocorreu por volta das 9h, mas o episódio não foi comunicado de imediato. Em vez de acionar socorro médico ou a polícia, Otto permaneceu no apartamento e fez contatos telefônicos. Às 11h, Neide Tereza de Souza, apontada como ex-amante do empresário, entrou em contato com a administração do apart-hotel. Somente cerca de uma hora depois, o próprio Otto telefonou para a gerência, relatando a ocorrência de um suposto “acidente” no quarto.>
Funcionários do Manhattan providenciaram o arrombamento da porta para verificar a situação. Rosemary ainda apresentava sinais de vida e foi encaminhada ao Hospital Jorge Valente, onde a morte foi contestada. A polícia, no entanto, só foi comunicada após a remoção da vítima para a unidade de saúde, fato que chamou a atenção dos investigadores desde as primeiras horas da apuração.>
Pedido de ajuda e abandono>
De acordo com os autos, logo após o disparo que atingiu Rosemary no peito, Otto Willy não prestou socorro imediato. Em vez disso, telefonou para Neide, pedindo que fosse até o apartamento. Quando ela chegou, segundo a investigação, Rosemary ainda estava viva, mas nenhuma providência foi tomada para salvá-la. A polícia sustentou que os dois colocaram a jovem sobre a cama do quarto e deixaram o local, retardando o acionamento de ajuda médica.>
A vítima foi atingida por um tiro de pistola Colt calibre .45, arma descrita nos autos como uma “fiel amiga” do empresário, por nunca se separar dela. Para os investigadores, a combinação entre a dinâmica do disparo, o intervalo prolongado sem atendimento médico e a conduta adotada após o ocorrido fundamentou a acusação de homicídio doloso, com agravante de omissão de socorro.>
Os depoimentos colhidos ao longo do inquérito indicaram que Otto e Rosemary mantinham uma relação próxima, o que afastou, desde o início, a hipótese de envolvimento de terceiros. Para a polícia, o vínculo entre os dois, aliado às circunstâncias do crime e ao comportamento do empresário nas horas seguintes ao disparo, foi decisivo para concentrar as suspeitas sobre ele.>
Somente três dias depois, em 23 de junho de 1989, Otto Jordan se apresentou à polícia. Em depoimento, negou ser o autor do disparo e passou a sustentar publicamente que “a comerciária tinha se suicidado”, versão rechaçada pelos investigadores.>
A versão de suicídio foi sempre contestada pela família. Nos dias que antecederam a morte, Rosemary havia combinado de jogar baralho com a amiga Ângela Oliveira e planejava viajar com a mãe e o filho. O ex-marido, César Menezes de Albuquerque, contestou a versão de suicídio ao afirmar: “Ela gostava demais da vida, nunca iria se matar”, garantiu. >
Pedido de prisão>
O laudo da perícia afastou a hipótese de suicídio. O exame apontou que o disparo que atingiu Rosemary foi feito à curta distância, com trajetória incompatível com a posição descrita na versão apresentada por Otto Jordan. Os peritos também consideraram incongruente a dinâmica relatada pelo empresário em relação à localização da arma e à forma como o tiro teria ocorrido. As conclusões técnicas, somadas às circunstâncias encontradas no apartamento e ao intervalo prolongado sem socorro, embasaram a tipificação do crime como homicídio doloso, com agravante de omissão de socorro, conforme descrito nos autos. Na época, não existia a classificação de feminicídio, que certamente seria usada atualmente. >
Com o avanço das investigações, o delegado Itamir Casal solicitou, em 14 de agosto de 1989, a prisão preventiva de Otto Willy Jordan e Neide Tereza, apontada como coautora por omissão de socorro. No dia seguinte, antes que a ordem fosse cumprida, os dois desapareceram, dando início a uma sequência de fugas que transformaria o caso em um dos mais rumorosos da história policial baiana.>
O inquérito foi encaminhado à Justiça e, na 3ª Vara Criminal Distrital de Amaralina-Pituba, o promotor Agostines Matos Silva denunciou Otto Jordan por homicídio doloso e omissão de socorro. A denúncia foi aceita, e o processo passou a tramitar à revelia, em razão da fuga dos acusados.>
Captura e sequência de fugas>
Com a prisão decretada, Otto Willy e Neide desapareceram simultaneamente, passando a ser procurados pela polícia. As investigações indicam que os dois fugiram juntos nos primeiros momentos, logo após tomarem conhecimento da ordem judicial, dando início a um longo período de evasão que atravessaria estados e fronteiras.>
Otto passou a ser considerado foragido internacional, vivendo entre o Brasil e o Paraguai, onde passou a usar nomes falsos e a mudar de endereço com frequência. Quase três anos depois, em 18 de setembro de 1991, Otto foi localizado e preso pela Polícia Federal em Ponta Porã (MS), cidade na fronteira com o Paraguai. Ele já mantinha vínculos do outro lado da fronteira e foi detido ao atravessar para o Brasil, onde resolveria assuntos bancários. Recambiado para Salvador, foi encaminhado à Casa de Detenção, onde permaneceu sob custódia por decisão da 3ª Vara Criminal Distrital de Amaralina-Pituba.>
Em agosto de 1992, no entanto, o empresário protagonizou uma fuga considerada cinematográfica. Transferido do presídio para o Hospital Português, sob a alegação de problemas de saúde, Otto contou com o auxílio de terceiros, dopou e amarrou os policiais militares responsáveis por sua escolta e deixou o local “vestindo roupa branca para ser confundido com funcionários do hospital”, segundo relataram os próprios PMs em depoimento ao delegado Euplio Lyra, que presidiu o inquérito sobre a fuga.>
Após escapar novamente, Otto voltou a se refugiar na região de fronteira. Mais de 20 dias depois, uma operação conjunta levou à sua localização e detenção em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, em ação comandada pelo delegado Waldir Gomes Barbosa. A prisão foi sustentada com base no Tratado de Extradição firmado entre Brasil e Paraguai em 1922, que permite a custódia provisória de pessoas com prisão preventiva decretada em seu país de origem.>
Apesar da mobilização do governo baiano e do Itamaraty, Otto não chegou a ser extraditado. A Justiça paraguaia concedeu habeas corpus e determinou sua libertação, sob o argumento de que ele não havia cometido crime em território paraguaio. Para a polícia baiana, a sucessão de fugas enfraquecia a versão de inocência sustentada pela defesa. “Se ele insiste em dizer que é inocente e seus advogados afirmam que possuem provas suficientes para inocentá-lo, então por que ele continua fugindo?”, questionou na época o delegado Waldir Gomes Barbosa.>
Morte um dia antes de depoimento>
O caso não teve um desfecho na Justiça. Neide Tereza, apontada pela polícia como coautora por omissão de socorro no caso Rosemary, morreu em um acidente de trânsito na Avenida Suburbana, em Salvador, em 1994, às vésperas de prestar depoimento à Justiça. Ela conduzia um Fiat branco quando o veículo foi fechado por um ônibus e colidiu violentamente contra um poste.>
Neide chegou a ser socorrida com vida e encaminhada a unidades hospitalares, mas não resistiu aos ferimentos. A morte ocorreu no momento em que seu nome ainda figurava como peça-chave no processo, já que ela era a única pessoa presente no apartamento, além de Otto, após o disparo que matou Rosemary. A coincidência temporal - o acidente ter ocorrido um dia antes de seu depoimento — levantou questionamentos públicos, mas a defesa de Otto tratou o episódio como fatalidade. “Era através do julgamento dela que provaríamos a inocência de ambos, comprovando que Rosemary se matou”, afirmou na época o advogado do suspeito.>
Com a confirmação oficial da morte, a Justiça determinou o arquivamento do processo de Neide, enquanto a ação penal contra Otto Jordan seguiu tramitando de forma independente.>
Otto Willy também morre em acidente>
Em uma coincidência macabra, Otto Willy Jordan morreu também em 1994, ainda foragido da Justiça baiana. Ele perdeu o controle de um avião de pequeno porte, modelo Cessna, que pilotava sozinho, e caiu nas proximidades de Ponta Porã (MS), cidade fronteiriça onde mantinha vínculos desde o período em que escapou das autoridades brasileiras.>
O empresário foi retirado da fuselagem e levado para atendimento médico, mas não resistiu. O corpo foi submetido a necropsia e, posteriormente, trasladado para São Paulo, onde foi enterrado. >
A morte encerrou, de forma abrupta, um processo que se arrastava havia quase sete anos e que nunca chegou a ser julgado pelo Tribunal do Júri. Houve, inclusive, suspeitas levantadas na época de que Otto pudesse estar simulando a própria morte para forçar o arquivamento do caso, hipótese que levou a Secretaria de Segurança Pública a acionar canais diplomáticos para confirmar oficialmente o óbito. >
Com a morte do acusado, o processo foi extinto sem julgamento do mérito, deixando sem resposta judicial definitiva um dos casos mais rumorosos da crônica policial baiana. Rosemary deixou mãe e um filho que tinha na época apenas 4 anos. >