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Moyses Suzart
Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 05:00
Desde que Iemanjá saiu da África e fez morada na Bahia, ela ganhou sua forma de sereia, uma relação íntima que mistura mãe e mulher dos pescadores. Outro aspecto foi seu canto, tão apaixonante que chega a ser perigoso. Dorival Caymmi eternizou esta característica: “O canto vinha de longe, de lá do meio do mar. Não era um canto de gente, bonito de admirar”. >
O canto dela é tão poderoso, que o corpo todo estremece e muda a cor do céu e do luar. Não tinha como no seu dia, o Rio Vermelho não ser tomado de música para todos os gostos. Samba, reggae, rap, arrocha.. Ontem, cada melodia parecia ser o canto dela, ou para ela. Cada rebolado até o chão era como um ‘arreio’ de ebó, uma flor jogada no mar. >
Ninguém queria saber era segunda-feira - se vire com seu atestado ou folga compulsória. Iemanjá gosta de seus filhos profanando a caretice. Quando o relógio bateu pouco mais de meio-dia, a areia da Praia da Paciência foi tomada por jovens amantes do reggae eletrônico. Jovens, muitos jovens, fiéis à Rainha do Mar. >
Veja momentos da festa de Iemanjá
Se na Bahia existem sete Iemanjás, essa festa poderia ter encarnado a oitava orixá: Iemanjah. Parecia a República do Reggae, literalmente. Mas o nome da festa foi outro, se chamava MinistérioPúblico saúda Yemanjá. Estava lotado e um clima bem gostoso.>
“Iemanjá é som, é canto, é liberdade. Se uma música pudesse representar a Rainha do Mar, seria o reggae. Uma festa como esta deveria não acabar mais nunca”, disse Alice, sem sobrenome mas com 28 anos. “Bote só Alice, eu não estou aqui, estou trabalhando em home office”, completou “Só Alice”, com a tatuagem de uma sereia no braço. “Acredita que fiz esta sereia antes de conhecer melhor Iemanjá? Não era ela, mas virou. Com certeza é ela”, disse, enquanto mexia as ancas e conseguia, ao mesmo tempo, acender um cigarro natural. >
Alisson Bahia parecia ter batido todas as ondas possíveis no dia de Iemanjá. Turbinado com substâncias proibidas pela carta magna, ela estava achando que todas as mulheres de lá eram a orixá do dia. “Olha quanta Iemanjá, bicho. Todas maravilhosas, dançando, estou apaixonado por todas. Estou hipnotizado, qualquer uma pode me para o fundo do mar”, brincava. >
Sete Iemanjás>
De fato, cada mulher na festa estava, de certa maneira, caracterizada. Quando não estavam só de biquini, vestiam adereços e guias de Janaína. >
Mas, a parte profana não se resumiu ao reggae, que ainda teve a participação especial de Russo Passapusso, cantor do BaianaSystem. Mais acima, nas ruas do bairro, cada canto do Rio Vermelho era uma celebração. O samba era itinerante, com bandas percussivas reverenciando a Rainha do Mar. Cada filho ou filha de Iemanjá disputava quem conseguia descer mais tempo até o chão, com rebolados sincronizados. >
Uma moça, diferente de todas, com vestidinho vermelho, parecia estar em transe. O namorado, ao lado, fazia a segurança, enquanto ela parecia ter virado o cavalo de algum caboclo dançante. Não conseguimos falar com ela. O namorado não deixou. >
Arrocha, reggae, samba. Nada dava pinta que estaria próximo de acabar. Quando o relógio bateu 17h, ainda tinha gente chegando. “Eu vim mais cedo, fiz minha parte religiosa e despejei meu balaio. Voltei para o trabalho e agora cheguei para tomar uma e procurar alguma música. Um samba, ver se arrumo uma costela para ralar”, contou Ricardo Moura. >
Outro ritmo, este vindo da areia do Rio Vermelho, eram os batuques dos candomblés, que reverenciavam Dona Janaína. Quando o presente principal cruzou as tendas fincadas na praia, os atabaques fizeram sua parte, dando o tom emocionante para aquele instante.>
Mas, o que se via eram pessoas com seu copo de cerveja na mão, olhando o presente ser levado para o alto mar, mexendo o corpo quase hipnotizado pela percussão e chorando de emoção. Uma mistura que só se vê na Bahia. >
Quem não incorporou um santo após o presente, retornou ao profano. Era música que não acabava mais. Rebolados, saltos regueiros, corpos colados no melhor arrocha. “Isso aqui não existe em nenhum lugar do mundo. Isso aqui é energia pura, eu não quero mais ficar longe desse mar da Bahia, dessa musicalidade, desse molho. Me ajude!”, disse Maria Cristina, paulista de férias na Bahia. É como dizia Dorival Caymmi, né? “Quem vem pra beira da praia, meu bem, não volta nunca mais”.>