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Wendel de Novais
Publicado em 29 de agosto de 2025 às 05:30
Com portas destrancadas e portões sem cadeados. Em Salvador e, principalmente, nas localidades onde há forte atuação das facções, seja durante o dia, na noite ou até na madrugada, é assim que as casas devem ficar. O que deveria evitar a entrada de estranhos, na verdade, é alvo de uma determinação de traficantes para que os moradores fiquem de portas abertas para o crime quando ele precisar. >
É o que acontece, por exemplo, no Engenho Velho da Federação, onde uma moradora se acostumou a ver traficantes armados dentro da sua residência durante ações policiais. Por lá, assim como em outros pontos da cidade, quem não deixa as portas abertas para traficantes em fuga pode sofrer sanções graves que vão de ‘sessões de tortura’ até o assassinato daqueles que descumprem a ordem dos criminosos. >
“Moro lá há 30 anos. Criei meus filhos e minha família aqui e nunca vi isso que está acontecendo. Agora tenho que dormir com as portas abertas e várias noites já me peguei acordando com gente armada dentro de casa mandando eu calar a boca porque eles estavam fugindo da polícia", relata uma moradora que, com medo de represálias por parte do tráfico, pede para que seu relato fique sob anonimato. >
A situação não é exclusiva do Engenho Velho da Federação. No Nordeste, segundo outro morador que pede sigilo, o problema é antigo. “Quanto mais perto da boca [local de operação da facção], essas regras são mais fortes. Aqui isso existe há anos e, quando eu morava na região do Campo do Areal, já entraram na minha casa. Me saí de lá por isso e hoje estou em um lugar mais tranquilo no bairro”, conta. >
A moradora do Engenho Velho pensa em fazer o mesmo, mas ainda não conseguiu por questões financeiras e pela baixa procura por residências onde vive “Eu já botei minha casa para vender, mas ninguém quer comprar. Quem quer morar num lugar dominado pelo tráfico e com a polícia tocando o terror? Se eu tivesse dinheiro, já teria ido embora”, conta ela, que tem sofrido com os episódios de invasão. >
Apesar do problema ser novo para a moradora ouvida pela reportagem, a situação é antiga na cidade e acontece em diversos pontos, como conta um policial com mais de 15 anos de atuação na capital. Em situações de perseguição, segundo ele, era comum ver um suspeito desaparecer de maneira repentina ao virar uma das esquinas dos locais onde as facções atuam na cidade. >
“A coisa mais comum é o pessoal ficar oprimido e as portas realmente ficam abertas. Se o bicho [bandido], na hora da polícia chega, se bater com as portas fechadas, ele pode matar o dono da casa. Isso aí é verdade, entendeu? E já teve situação parecida com a gente aí, que a gente sabe que o cara virou a curva e sumiu. Sumiu porque entrou na casa, mas a gente não podia entrar”, relata o policial, sem se identificar. >
Outro policial, que atua na região do Subúrbio Ferroviário, confirma o mesmo problema e cita que a determinação facilita dois tipos de fuga. “Eles se aproveitam dessa situação que é imposta, invadem determinada residência e fazem e fazendo pessoas de reféns. Em outras [quando entram nas casas sem serem vistos por PMs], os marginais entram na casa e se escondem sem fazer reféns”, informa. >
Veja fotos de casos registrados em 2025
Não à toa, até aqui neste ano, ao menos 18 famílias foram feitas reféns por traficantes em fuga em diferentes bairros de Salvador, de acordo com levantamento feito pela reportagem do CORREIO. Em todos os casos, após horas de negociação, ninguém foi morto e os reféns foram liberados sem ferimentos graves após o trabalho de policiais. >
Para Antônio Jorge Melo, coronel reformado da PM, no entanto, a determinação das facções e os casos de reféns que se acumulam fazem com que violência em lugares dominados pelo tráfico não se limite apenas às ruas da cidade e entre, sem muita dificuldade, para os lares das pessoas que sofrem com o problema em Salvador. >
“As facções criminosas usam a população das comunidades carentes como escudo humano para se protegerem e para proteger o seu negócio. [...] Esses criminosos se protegem na comunidade, podendo, caso sejam descobertos, fazer os moradores reféns, como garantia de que sairão ilesos”, explica o especialista em segurança. >
Ele aponta ainda outra tática. “Outra estratégia usada pelos traficantes é obrigar crianças a brincarem na rua, porque isso faz com que os policiais diminuam o ritmo durante uma incursão. Quando não é isso, usam os horários de presença intensa de estudantes fardados transitando nas ruas entre as 12h e 14h ou 16h e 18h”, indica. >
Lembre casos em que criminosos invadiram residência e fizeram moradores de refém em Salvador ao longo de 2025.>