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Morre Mãe Carmen do Gantois, ialorixá do Terreiro do Gantois

Ela estava internada no Hospital Português tratando de forte gripe

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Carol Neves

Publicado em 26 de dezembro de 2025 às 06:11

Mãe Carmen do Gantois
Mãe Carmen do Gantois Crédito: Divulgação

Morreu aos 98 anos Carmen Oliveira da Silva, conhecida como Mãe Carmen do Gantois, após cerca de duas semanas internada no Hospital Português em Salvador, onde estava sendo tratada de uma forte gripe. Sua morte foi confirmada na madrugada desta sexta-feira (26). O terreiro confirmou a morte em nota. 

"Seu retorno ao Orun acontece em uma sexta-feira, dia consagrado a Oxalá, Orixá da criação e da serenidade, um símbolo que traduz uma trajetória marcada pela retidão, cuidado e fé. Em Oxalá, o descanso, na ancestralidade, a permanência", diz o texto. 

Filha mais nova da lendária Mãe Menininha do Gantois, uma das mais importantes ialorixás da história do Candomblé, Mãe Carmem dedicou toda a sua vida à fé, ao culto aos Orixás e à preservação das tradições religiosas afro‑brasileiras. Mãe Carmem nasceu em Salvador em 29 de dezembro - o  ano era 1926, mas um erro no registro deixou os documentos com 1928. Ela foi iniciada no Candomblé ainda na infância, aos 7 anos de idade, para o culto de Oxalá, o Orixá de sua cabeça.

Mãe Carmen do Gantois por Valdemiro Lopes/Câmara de Vereadores de Salvador

Após a morte de sua irmã Mãe Cleusa de Nanã em 1998, ela se preparou para assumir a liderança do Ilê Ìyá Omi Àse Ìyámase, conhecido como Terreiro do Gantois, um dos mais antigos e respeitados centros de Candomblé de tradição iorubana do Brasil. Em 2002, por determinação dos Orixás e seguindo a sucessão tradicional da casa, Mãe Carmem tornou‑se Ialorixá, assumindo a incumbência de conduzir os trabalhos espirituais, orientar seus filhos e filhas de santo e representar a religião no diálogo inter‑religioso e na sociedade.

Ao longo de mais de duas décadas à frente do Gantois, ela se tornou referência de resistência cultural, espiritualidade e manutenção dos saberes transmitidos de geração em geração. Em reconhecimento à sua trajetória, recebeu, em 2023, a Comenda Maria Quitéria, concedida pela Câmara Municipal de Salvador, destacando seu papel na preservação das tradições afro‑brasileiras e seu compromisso com a promoção da diversidade religiosa.

O sepultamento vai acontecer este sábado (27), no Cemitério Jardim da Saudade, às 11h30. 

Leia a íntegra da nota divulgada pelo terreiro:

É com profundo pesar, respeito e reverência que a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi comunica a passagem da Ìyáloriṣa do Ìlé Ìyá Omi Àṣe Ìyámaṣé, Mãe Carmen de Òṣàgyían.

Ìyáloriṣa, mulher de axé, guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil.

Filha direta de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen nasceu para o sagrado. Desde muito cedo, foi formada nos fundamentos, nos ritos e nos saberes que sustenta uma nação. Sua infância foi preparação espiritual; sua vida, missão. Nada em seu caminho foi acaso, foi legado, destino, desígnio dos Orixás.

Há 23 anos à frente do Gantois, Mãe Carmen assumiu com amor, coragem e responsabilidade a condução de uma Casa que é fé, memória e identidade. Ser Ìyáloriṣa em sua presença, sempre significou cuidar, proteger, orientar e sustentar o axé com dignidade, firmeza e sabedoria, zelando pela comunidade e pela continuidade de uma tradição ancestral.

Mãe Carmen foi farol, colo, caminho e fortaleza. Sua palavra ensinava, seu silêncio acolhia, e seu fazer cotidiano era atravessado pela entrega, pelo respeito aos Orixás e pelo compromisso com a vida coletiva. Em seu corpo e em sua condução, a herança de Mãe Menininha permaneceu viva, pulsante e afirmada dia após dia.

Como Ìyáloriṣa desempenhou com dedicação e firmeza o cuidado cotidiano do axé, contando com o apoio de suas duas filhas, que estiveram ao seu lado na condução da roça, compartilhando responsabilidades, saberes e a sustentação da Casa. Mãe Carmen deixa ainda três netos e quatro bisnetos, expressão viva da continuidade, da memória e do futuro que segue sendo tecido a partir de sua presença e de seu legado.

Seu retorno ao Orun acontece em uma sexta-feira, dia consagrado a Oxalá, Orixá da criação e da serenidade, um símbolo que traduz uma trajetória marcada pela retidão, cuidado e fé. Em Oxalá, o descanso, na ancestralidade, a permanência.

Hoje, nos despedimos de sua presença física, mas afirmamos com convicção: seu axé permanece. Seus ensinamentos seguem vivos, sua missão continua inscrita na história e sua memória permanece como fonte de força, amor e sabedoria para as gerações que virão.

ASJEO