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Agência Einstein
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 09:22
Apesar do aumento na visibilidade das gestações de homens transgênero nos últimos anos, com notícias e representações em novelas, a discussão ainda se limita a histórias individuais. Como consequência, esses casos tendem a parecer raros e até curiosos, escondendo a desigualdade no acesso à assistência médica qualificada e ao direito reprodutivo. >
Uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) verificou que o atendimento à gestação transmasculina é marcada por invisibilidade institucional, fragilidade das evidências clínicas e despreparo generalizado dos serviços de saúde. Publicada em maio de 2025 na revista Physis, a revisão destaca a ausência de divulgação de diretrizes específicas para o acompanhamento dessa população, o que gera práticas inadequadas ou excludentes.>
“Não é incomum ouvir relatos de transfobia em consultórios médicos, hospitais e laboratórios de exames”, aponta o ginecologista e obstetra Emmanuel Nasser Vargas Araujo de Assis, do Einstein Hospital Israelita. “A violência vai desde o desrespeito ao pronome e ao nome social do indivíduo até o despreparo dos profissionais para atender as demandas físicas e psicológicas específicas do gestante.”>
O estudo da UERN também evidencia que o planejamento familiar do sistema de saúde raramente contempla homens trans, o que reforça a ideia equivocada de que esses indivíduos são inférteis ou não desejam ter filhos. Da mesma forma, como os aconselhamentos sobre métodos contraceptivos e cuidados no pré-natal partem de pressupostos cisheteronormativos (ou seja, que apenas mulheres cisgênero engravidam), muitas pessoas trans só entram em contato com as unidades de saúde quando a gravidez já está em curso, momento em que gestante e feto já estão mais vulneráveis a complicações.>
Obstáculos dentro e fora dos consultórios>
Faz parte da função dos profissionais de saúde preparar a pessoa gestante para o que ela deve esperar durante a gravidez, o parto e o puerpério, bem como para as mudanças de rotina que cuidar de uma criança exige. “Mas, para corpos dissidentes que gestam, dão à luz e criam filhos, também é preciso que os médicos reconheçam o cenário social violento que aquele indivíduo e sua rede de apoio podem enfrentar, e considerem isso em seus atendimentos”, explica Assis. >
Conforme o Relatório das mortes e violências contra as transmasculinidades em 2023, do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), a experiência negativa de homens gestantes em unidades de saúde se dá por meio do uso insistente de pronomes femininos, do uso do nome civil não retificado em ambientes coletivos e do constrangimento com perguntas invasivas ou comentários moralizantes sobre seus corpos, entre outras violências implícitas e explícitas. Isso demonstra que, mesmo quando há acesso formal ao cuidado, o atendimento digno não é garantido.>
Uma ilustração prática disso é a pausa da hormonioterapia, tratamento de afirmação de gênero que utiliza substâncias como a testosterona e o antiestrogênio para provocar o engrossamento da voz e o crescimento de barba, entre outras mudanças físicas. “Por mais que não existam pesquisas o suficiente para se chegar a uma conclusão sobre os impactos da testosterona na gestação, boa parte dos médicos brasileiros tende a recomendar sua interrupção. Isso pode trazer consequências emocionais severas”, avalia o antropólogo Dan Kaio Souza Lemos, que é um homem trans e atua no Núcleo de Transparentalidades e Questões Sexuais e Reprodutivas do IBRAT.>
Lemos estudou o tema da gravidez transmasculina em sua tese de doutorado em Ciências Sociais na Universidade de Brasília (UnB), defendida em 2025. Ao comparar as políticas públicas e tecnologias voltadas à saúde gestacional existentes no Brasil e em outras regiões, observou que estudos clínicos dos Estados Unidos e do Canadá já mostraram que, com acompanhamento profissional, é possível fazer uso de hormônio durante a gestação de forma segura. >
Inclusive, as pesquisas associam a continuidade do tratamento com benefícios à saúde mental e à qualidade de vida. “Um corpo trans precisa de suplementação da mesma forma que um corpo cisgênero. Ele também exige os mesmos exames de imagem e de rastreio para diabetes, tireoide e tantas outras possíveis complicações da gestação”, destaca o médico do Einstein. “O grande diferencial no tratamento reside no cuidado com uma abordagem biopsicossocial.”>
Muitas pessoas trans viveram disforias corporais ao longo da vida e usaram as tecnologias disponíveis, como hormônios e cirurgias, para modificar sua experiência de gênero. No entanto, a gestação e o parto implicam o crescimento da barriga e a produção de leite, por exemplo, que podem servir de gatilho para sofrimentos emocionais. >
Esse impacto psicológico também pode ocorrer pela situação contrária, quando as mudanças causadas pela gravidez não são interpretadas por outras pessoas como uma gestação, mas sim como quadros de sobrepeso e obesidade, por exemplo. “Hoje, o maior número de violências que uma pessoa transmasculina gestante enfrenta no Brasil está relacionado à própria família que, por vezes, não entende ou apoia o indivíduo durante esse período”, afirma o antropólogo. >
Devido à lógica binária, que entende a gravidez como uma experiência exclusivamente feminina, é comum ouvir relatos de indivíduos cujas famílias perceberam sua gestação como algo confuso ou um sinal de “destransição” de gênero.>
Avanços nas políticas públicas>
Mesmo com tantos obstáculos ainda a serem superados para garantir o acesso à saúde gestacional, mudanças já estão ocorrendo. “O olhar para a saúde LGBTQIAPN+ está engatinhando, com avanços graduais, embora ainda lentos. Há alguns anos, esse tema sequer era comentado, hoje, já existem protocolos unificados e comitês específicos, bem como capacitações periódicas e cursos de letramento”, observa Assis. >
As recentes atualizações na Declaração de Nascido Vivo (DNV) ilustram essa evolução. O documento é o primeiro registro do nascimento de uma criança, e serve para o monitoramento dos números de pré-natal, gestação e parto, contribuindo para o conhecimento da situação da saúde gestante-infantil em todo o território nacional. >
Em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que o documento deveria adotar as expressões “parturiente/mãe” e “responsável legal/pai” para se referir aos pais do recém-nascido. Na prática, isso permitiu que homens trans que gestam não sejam automaticamente enquadrados como “mãe”, nem seus parceiros como “pai”.>
Essa decisão foi tomada no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 787, que determinou ainda a adaptação dos prontuários do Sistema Único de Saúde (SUS) para assegurar atendimento pleno e igualitário à população trans, considerando o sexo biológico para fins clínicos e a identidade de gênero para fins de respeito e dignidade. Isso ajuda a reduzir constrangimentos, barreiras burocráticas e riscos de exclusão enfrentados por homens trans gestantes no parto e no registro civil.>
Outra mudança importante nesse sentido foi promovida pela publicação da Portaria nº 1.693/2024, da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde (SAES/MS). A medida representa um avanço concreto na ampliação dos direitos de pessoas transmasculinas no SUS ao eliminar barreiras administrativas baseadas em critérios cisheteronormativos. A norma atualiza, por exemplo, a tabela de procedimentos para permitir que exames, consultas e tratamentos sejam acessados independentemente do sexo registrado no documento civil. Assim, a lei garante que pessoas com útero, ovários e vagina possam utilizar os serviços de ginecologia e obstetrícia sem sofrerem recusas ou constrangimentos por sua identidade de gênero.>
Essas políticas permitiram a criação do Programa Transgesta. A iniciativa é a primeira no país a desenvolver uma caderneta de pré-natal específica para o apoio de gestantes transmaculinos. O instrumento permite o acompanhamento adequado das etapas da gestação, a personalização da assistência e a produção de dados essenciais para a formulação de políticas públicas. >
O programa ainda prevê a capacitação de profissionais de saúde, a revisão de fluxos assistenciais e a promoção de ambientes que respeitem os direitos de gestar e parir. “A caderneta Transgesta dá um passo a mais na garantia da saúde de pessoas trans por trazer em seu conteúdo pontos sobre parentesco, relações familiares e saúde mental”, descreve Dan Lemos. “Ela foi pensada a partir de experiências concretas e, assim, não se limita a tratar apenas dos exames ou protocolos a serem seguidos.”>
Experiência prática de uma caderneta específica>
Uma pesquisa-intervenção conduzida por especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) em um ambulatório de saúde sexual e reprodutiva de um hospital público na região Nordeste testou como a criação e o uso de uma caderneta focada nos pacientes transmasculinos gestantes influenciam sua experiência de pré-natal. Os resultados foram publicados em dezembro de 2024 na revista Interface.>
A chamada “Caderneta do Gestante” foi desenvolvida para atuar também como uma tecnologia de acolhimento, reconhecimento, autonomia e vínculo entre usuários e equipe de saúde. O uso da caderneta reorganizou a experiência assistencial à medida que passou a orientar atendimentos mais respeitosos, mediar a relação do gestante com diferentes serviços da rede e estimular mudanças nas rotinas institucionais, incluindo formações de profissionais e revisão de linguagens e protocolos. >
Dessa maneira, o cuidado deixou de ser puramente obstétrico e passou a considerar também dimensões subjetivas, sociais e de direitos. No artigo, os autores concluem que é possível adaptar serviços já existentes para acolher a diversidade de gênero, sem demandar a criação de estruturas paralelas.>
“O sistema de saúde não foi pensado para pessoas trans. Mesmo assim, vivemos atualmente um estado de experiência de inclusão”, pondera Lemos. “Ainda não temos dados suficientes para confirmar se o sistema tem sido efetivo, mas podemos afirmar que ele avança, e isso é bastante positivo.”>