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Agência Einstein
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 10:33
Exames de sangue que prometem detectar múltiplos tipos de câncer antes mesmo do surgimento de sintomas têm se popularizado nos Estados Unidos, apesar de ainda serem considerados experimentais e não terem a aprovação da Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória do país. O mais conhecido deles é o Galleri, disponível no mercado estadunidense desde 2021. Segundo a Grail, empresa de biotecnologia que criou o teste, já foram realizados mais de 400 mil procedimentos do tipo nos EUA. >
O Galleri faz a análise de fragmentos de DNA tumoral circulante no sangue com objetivo de identificar sinais de diversos tipos de câncer. A fabricante afirma que ele pode detectar até 50 tipos de neoplasias, o que poderia ajudar a filtrar quem precisa de um rastreio mais profundo. Na prática, contudo, não é bem assim. “O tumor tem assinaturas genéticas que circulam pelo organismo como proteínas, que podem nos ajudar a detectar doenças precocemente. Uma ferramenta de detecção precoce multicâncer, portanto, é uma ótima ideia e adoraríamos tê-la a nossa disposição. Por ora, porém, ainda não há evidências científicas de que ela possa ser usada na rotina”, avalia o oncologista Diogo Sales, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.>
Câncer: sintomas e tratamentos
Embora o Galleri não seja o único exame de sangue para detectar câncer em estudo, apenas ele alcançou escala comercial. Para realizar o teste, o paciente deve fazer uma coleta de sangue, que é enviada a um laboratório especializado nos Estados Unidos. O procedimento de triagem custa aproximadamente US$ 950 por pessoa.>
Mas é preciso cautela. “Procurar biomarcadores do câncer antes da manifestação da doença poderia reduzir o diagnóstico avançado e, portanto, aumentar a chance de cura, mas há muitas questões em aberto. Os testes estão associados a uma taxa alta de falsos positivos e negativos, além de serem limitados na quantidade de doenças que podem identificar”, observa Sales. >
Sem contar que não existe um marcador universal para detectar os diversos tipos de câncer. “Cada tumor produz seu próprio conjunto de proteínas e ainda não sabemos quais são exatamente aquelas para as quais o exame demostrará maior detecção e que estarão associadas a um maior benefício de cura no futuro”, observa o médico do Einstein Goiânia.>
Uma das consequências mais preocupantes desse tipo de promessa é a falsa ilusão de que quem fizer o teste estará protegido, caso o exame afirme que não há câncer. “O Galleri está sendo avaliado em um estudo randomizado na Inglaterra. Até agora, a taxa de detecção foi menor do que esperávamos e, mesmo quando ele encontrou marcadores, o risco de um falso positivo foi alto: só 60% dos testes se comprovaram um verdadeiro positivo em testes seguintes”, relata Diogo Sales. Segundo o oncologista, nem todo tumor libera biomarcadores desde o início, o que pode fazer a pessoa achar que não tem nada e não fazer exames de rastreio, por exemplo.>
Outra limitação é que os resultados do Galleri apresentados nos últimos anos, inclusive em revistas prestigiadas como a The Lancet, comparam taxas de detecção, mas o que deveria importar é a capacidade de reduzir mortalidade. “Na maior parte das vezes, a detecção precoce de fato ajuda a salvar vidas, mas isso não é verdade para todos os tumores”, observa Sales. >
Muitas vezes, tentar intervir precocemente pode diminuir a qualidade de vida, sem aumentar significativamente a sobrevida do paciente. Em alguns casos, o melhor é apenas observar o tumor. “É como temos aprendido com a discussão acerca do rastreio universal de câncer de próstata”, lembra o oncologista. “Então, a avaliação deveria ser no impacto que o exame tem na mortalidade associada a doença, e não na capacidade de detectar precocemente.”>
Um resultado fora do esperado pode causar ansiedade e fazer a pessoa passar por exames desnecessários, possivelmente até invasivos. Também merecem atenção os custos financeiros tanto para quem faz o exame quanto para o sistema de saúde como um todo, que sofrerá o impacto de mais pessoas fazendo esses procedimentos sem necessidade. >
Por outro lado, testes como o Galleri podem ter utilidade em alguns cânceres específicos. “Quando se trata de tumores no pâncreas e ovário, para os quais não temos uma rotina de rastreio que permita uma detecção precoce, o teste mostrou bons resultados”, destaca o especialista. “Portanto, no futuro, há possibilidade de usarmos os testes apenas onde eles seriam mais eficientes.”>