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Carol Neves
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 09:42
O câncer colorretal, historicamente mais frequente após os 50 anos, vem mudando de perfil e crescendo entre adultos jovens no Brasil e no exterior. Nos Estados Unidos, já é o tumor que mais mata pessoas abaixo dos 50. Mortes como a de Chadwick Boseman, aos 43 anos, em 2020, e a do ator de Dawson’s Creek, James Van Der Beek, aos 48, trouxeram visibilidade a um problema que deixou de ser raro nessa faixa etária. >
Levantamento publicado na revista científica The Lancet Oncology em 2025 analisou dados de 50 países e identificou aumento da incidência precoce em 27 deles. Em 20 nações, o avanço ocorreu exclusivamente entre os mais jovens ou em ritmo mais acelerado do que entre adultos mais velhos. O cenário também preocupa no Brasil: o câncer colorretal é o terceiro mais incidente no país, com cerca de 45 mil novos casos estimados por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer.>
Além do crescimento entre jovens, chama atenção o diagnóstico tardio. Estudo da Fundação do Câncer aponta que mais de 60% dos casos no Brasil são identificados em estágios avançados. A mortalidade por tumores de cólon e reto aumentou quase 50% nas últimas duas décadas, e a projeção é de alta de 36% nas mortes até 2040.>
Preta Gil morreu vítima de câncer colorretal
Mudança de perfil preocupa especialistas>
Com a aproximação do Março Azul, mês de conscientização sobre a doença, médicos reforçam que a ideia de que “jovem não tem câncer” precisa ser superada. O coloproctologista Ramon Mendes, coordenador do Núcleo de Coloproctologia do Instituto Brasileiro de Cirurgia Robótica (IBCR), afirma: “Estamos diagnosticando câncer colorretal em pacientes cada vez mais jovens, muitas vezes em estágios avançados, porque os sintomas iniciais são confundidos com problemas benignos, como hemorroidas ou alterações intestinais funcionais”.>
Ele alerta que sinais como sangramento nas fezes, dor abdominal persistente, perda de peso inexplicada e alteração do hábito intestinal exigem investigação, independentemente da idade. “A ideia de que jovem não tem câncer precisa ser definitivamente abandonada”, reforça.>
Os principais fatores de risco, em qualquer faixa etária, incluem obesidade, sedentarismo, alimentação rica em carne vermelha e processados e pobre em frutas e verduras, tabagismo, consumo excessivo de álcool, doença inflamatória intestinal e histórico familiar. Pesquisas recentes também associam o aumento de casos precoces ao maior consumo de ultraprocessados e à falta de atividade física, embora ainda não haja comprovação direta de causa e efeito.>
Outra linha de investigação envolve alterações na microbiota intestinal. Especialistas estudam se mudanças no microbioma - conjunto de bactérias que habitam o intestino - poderiam favorecer processos inflamatórios e contribuir para o desenvolvimento do tumor em pessoas mais jovens.>
Diagnóstico precoce faz diferença>
Nos Estados Unidos, mais de 158 mil novos casos devem ser registrados neste ano, segundo a Sociedade Americana do Câncer. A entidade relata que, desde 2005, a mortalidade por câncer colorretal entre menores de 50 anos cresce em média 1,1% ao ano. A estimativa é de que quase 3.900 pessoas nessa faixa etária morram em decorrência da doença neste ano.>
Quando identificado precocemente, o câncer colorretal pode ter taxa de sobrevida em cinco anos entre 80% e 90%, com possibilidade de remoção de pólipos antes que se tornem invasivos. Já nos casos em que a doença é descoberta após se espalhar para outros órgãos, a sobrevida pode cair para algo entre 10% e 15%.>
As diretrizes recomendam que pessoas com risco médio iniciem o rastreamento aos 45 anos. Quem tem histórico familiar, doenças hereditárias ou inflamatórias intestinais deve discutir com o médico a necessidade de começar antes. Os exames incluem testes de fezes anuais e colonoscopia a cada dez anos, quando não há alterações.>
Robótica amplia opções de tratamento>
Além do rastreamento, o tratamento também evoluiu. A cirurgia robótica tem ganhado espaço no país, especialmente em casos mais complexos, como tumores localizados no reto. Segundo Ramon Mendes, a técnica oferece visão tridimensional ampliada e maior precisão, o que favorece a preservação de nervos e estruturas importantes. “A robótica oferece visão tridimensional ampliada, maior precisão nos movimentos e melhor preservação de nervos e estruturas anatômicas, o que impacta diretamente na qualidade de vida do paciente no pós-operatório”, afirma.>
Ele ressalta, no entanto, que tecnologia não substitui prevenção. “A cirurgia robótica é uma grande aliada, mas ela não substitui o rastreamento adequado. Quanto mais cedo o câncer é identificado, maiores são as chances de cura, independentemente da técnica utilizada”, destaca.>
No contexto do Março Azul, a recomendação é clara: informação, atenção aos sinais do corpo e exames em dia continuam sendo as principais armas contra um câncer que deixou de ser exclusivo da maturidade e já preocupa também quem ainda não chegou aos 50.>