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Publicado em 24 de março de 2026 às 15:31
Nos últimos meses, surgiram nas redes sociais vídeos falando de uma suposta “epidemia de micropênis” em meninos, muitas vezes defendendo o uso precoce de testosterona como solução. Há publicações com até 600 mil compartilhamentos. Para médicos, essa avalanche de informações pode levar pais e responsáveis a acreditarem que essa é uma condição comum ou que qualquer suspeita de tamanho menor exige tratamento hormonal. >
A desinformação começa pelo fato de que um eventual problema no órgão sexual não se restringe ao tamanho. “Micropênis é um diagnóstico médico objetivo, não uma impressão visual”, explica o urologista Leonardo Borges, do Einstein Hospital Israelita. Essa é uma condição rara, que afeta cerca de 0,06% dos meninos. O diagnóstico é definido a partir de uma medida padronizada do comprimento peniano esticado, comparada com curvas de referência para idade e estágio puberal. “Não basta parecer pequeno. É preciso medir corretamente e interpretar no contexto clínico”, frisa Borges. >
O crescimento do pênis não ocorre de forma contínua. Há fases específicas em que o desenvolvimento é mais intenso: no período intrauterino, nos primeiros meses de vida (etapa conhecida como “minipuberdade”, quando há estímulo hormonal) e, depois, um novo ganho expressivo na puberdade, geralmente a partir dos 12 ou 13 anos. “Olhar uma criança em um único momento e concluir de forma apressada que há uma doença é um erro”, reforça o urologista.>
Na prática, muitos meninos levados ao médico por suspeita de “pênis pequeno” não têm micropênis verdadeiro. Frequentemente, o que existe é apenas uma variação anatômica normal ou situações que podem causar uma falsa impressão, como pênis oculto pela gordura suprapúbica, condição mais frequente em crianças com sobrepeso ou obesidade. >
Essa confusão entre percepção e realidade foi confirmada por um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) realizado no final de 2025 e apresentado durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia. A pesquisa avaliou como os pais de 99 meninos percebem o tamanho do órgão sexual do filho durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, em Florianópolis. Embora 48% dos participantes considerassem o tamanho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que estava abaixo da média.>
Quando os médicos realizaram as medições padronizadas, porém, descobriram que os responsáveis subestimavam o comprimento peniano em cerca de 2,5 a 3 centímetros. Entre todas as crianças examinadas, nenhuma apresentava micropênis. Isso revela que muitos pais não conhecem as variações normais da anatomia infantil. >
“Existem variações anatômicas que podem dar a impressão de pênis pequeno. Um exemplo é o chamado pênis ‘enterrado’, quando a haste fica parcialmente escondida pela gordura. Outra é o pênis em faixa ventral, quando uma banda de pele entre o escroto e o corpo do pênis cria aparência de encurtamento. Outra é o chamado ‘pênis preso’, que pode ocorrer por cicatrização excessiva após procedimentos como circuncisão”, detalha a urologista pediátrica Veridiana Andrioli, coordenadora do departamento de Urologia Pediátrica da SBU e responsável pela pesquisa. A orientação é que pais agendem uma consulta quando houver suspeita de algo errado. “Na maioria das vezes, uma breve explicação sobre o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários e etapas de desenvolvimento traz tranquilidade a todos”, relata Andrioli. >
O diagnóstico exige critérios técnicos rigorosos. “O micropênis é um pênis que está a dois desvios-padrão abaixo da média do tamanho peniano na população”, afirma o urologista pediátrico Ubirajara Barroso Junior, professor livre-docente da Universidade Federal da Bahia e presidente da International Children's Continence Society. “Em crianças recém-nascidas, por exemplo, o pênis estirado deve ter pelo menos dois centímetros”, explica. Mas essa medição só deve ser realizada por profissionais especializados.>
Alguns dos vídeos que circulam nas redes sociais afirmam que a “epidemia de micropênis” seria causada por fatores ambientais e disruptores endócrinos, como microplásticos, mas essas alegações não têm respaldo na literatura científica. “Escalas de tamanho peniano vêm sendo publicadas há mais de 80 anos, e o tamanho do pênis tem se mantido estável ao longo do tempo”, afirma Barroso Jr. Em janeiro de 2025, a SBU publicou um parecer oficial reforçando que o micropênis é uma condição rara e qualquer suspeita de alterações genitais deve ser avaliada com base em critérios clínicos rigorosos.>
Indicação de testosterona>
O hormônio sexual só é indicado para tratar micropênis em crianças quando há confirmação do diagnóstico ou comprovação de deficiência hormonal, após avaliação médica de cada caso. O uso inadequado do hormônio pode trazer riscos, incluindo alterações precoces da puberdade, interferência no crescimento e impactos no eixo hormonal. >
Por isso, a avaliação deve ser feita por profissionais capacitados, como pediatras, urologistas ou endocrinologistas pediátricos. “Dizer que todo micropênis precisa ser tratado com testosterona é simplificar demais um tema que exige precisão diagnóstica. A medicina séria não trabalha com mensagens prontas para redes sociais, muito menos quando se trata de crianças”, alerta Leonardo Borges, do Einstein.>