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Inestimável valor sentimental

Casas envelhecem envelhecem. Suas artérias, ou encanamentos, entopem

  • Foto do(a) author(a) Paulo Sales
  • Paulo Sales

Publicado em 1 de março de 2026 às 05:00

Pungente drama dirigido por Joachim Trier, Valor Sentimental rememora logo no início uma antiga redação escolar que a protagonista, Nora, escreveu quando era criança. O texto deveria ser redigido sob o ponto de vista de um objeto qualquer, e Nora escolheu a casa de sua família. Uma construção antiga, sólida, que pertenceu aos seus antepassados e onde ela passou a infância conturbada com seus pais, até o pai abandonar em definitivo a esposa e as duas filhas.

Mais do que um objeto, a casa era na visão da menina Nora um ser dotado de sentimentos: “Ela se perguntou se a casa preferia estar vazia e leve ou cheia e pesada. Se o chão gostava de ser pisado. Se as paredes sentiam cócegas. Se a casa já tinha sentido dor. E concluiu que sim, provavelmente gostava de estar cheia”. A narração em off prossegue, contando que quando o pai partiu a casa ficou mais leve, mas sentia falta dos sons que ele fazia. E achava o silêncio ainda pior do que o barulho.

A redação de Nora também relata que a casa tinha um defeito, descoberto logo após ficar pronta. Era como se ela estivesse “afundando, desmoronando, só que em câmera lentíssima, e que o tempo que sua família passou ali fosse só um instante no ar”. Casas envelhecem, apartamentos envelhecem. Suas artérias, ou encanamentos, entopem. Suas veias, ou fiações, entram em curto-circuito. Surgem rugas em forma de infiltrações e rachaduras, e poeira acumulada no lugar de cabelos brancos. Cabeças e pés, materializados em tetos e pisos, sótãos e porões, tornam-se decrépitos, letárgicos, senis.

Depois de um bom tempo, voltei ao apartamento em que vivi com a minha família por muitos anos, hoje vazio. Imagino que o silêncio seja para ele doloroso e que sinta falta de quando foi habitado por nós. Lá eu deixei de ser adolescente para virar adulto. Lá recebíamos amigos e parentes em profusão: mesa cheia, comida farta, música alta, cervejas e conversas na varanda. Lá meu pai morreu decentemente em sua cama, como no poema de García Lorca. O apartamento acompanhou todas as mudanças como um velho companheiro, calado e fiel.

Vasculho os quartos. Contemplo os livros tomados pela poeira, velhas fitas VHS, souvenirs sem valor material ou afetivo, santos e santas, roupas e sapatos, documentos, resultados de exames, boletos pagos há décadas, antigos brinquedos de netos, porta-retratos e outras sobras de tudo que chamam lar. Em seguida, me detenho nos álbuns de fotografias. Revejo a mim mesmo com dois, cinco, dez, doze anos. Revejo pessoas que deixaram de existir há dois, cinco, dez, doze, vinte, sessenta anos.

Encontro, num álbum muito antigo, pequenos instantâneos em preto e branco pertencentes a épocas e lugares tornados pó. Casas que eram cheias e se esvaziaram e voltaram a ser habitadas, agora por estranhos. Casas que hoje em nada se parecem com aquelas que guardamos na memória. Não reconheço algumas pessoas nas imagens, muitas delas jovens e sorridentes. Como escreveu Javier Marías em Coração tão Branco, são “fotografias dos que já não nos veem nem vemos”. E que estão “sempre paradas num só dia de que ninguém se lembra.”

Há poucas correspondências entre as tralhas lá de casa. As minhas eu guardo comigo. Quando escreveu seu último livro, Visita ao Pai, Cristóvão Tezza mergulhou nos cadernos de anotações deixados por seu pai. Dezenas de volumes com informações

minuciosas: cópias de cartas, observações sobre a trajetória profissional, confissões dos primeiros amores. Do ingresso no Exército aos dias imediatamente anteriores à sua morte precoce, João Batista Tezza deixou sua modesta vida totalmente documentada.

Meu pai praticamente não deixou nada escrito. Não tenho como reconstituir em detalhes o primeiro terço de sua vida, como foram sua adolescência e juventude nas ruas de uma Salvador hoje esquecida, ou mesmo o que pensava na maturidade. Ao contrário de mim, que desde cedo pus no papel cartas, poemas, contos, crônicas, reportagens, resenhas (quase tudo guardado aqui em casa), meu pai optou por um laconismo impresso que combinava mais com a sua personalidade. É uma lacuna da qual me ressinto. Ao menos, ele me legou uma linda e comovente dedicatória no meu álbum de casamento. Essa eu guardo como um tesouro de inestimável valor sentimental.