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Sobreviventes de uma espécie em extinção

Ouvir jazz me traz uma valorosa sensação de escapismo e introspecção diante de um cenário externo cada vez mais incompreensível

  • Foto do(a) author(a) Paulo Sales
  • Paulo Sales

Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 05:00

Ouço, embevecido, John Coltrane tocar What’s New, belíssimo standard do cancioneiro norte-americano incorporado ao repertório jazzístico. Com seu sax tenor que soa como um uivo ou um lamento, Coltrane eleva a um patamar quase inalcançável a dor do reencontro, a constatação de que o amor permanece um imenso monolito, sólido, espesso e indiferente aos anos de ausência. Há outras versões igualmente comoventes. Billie Holiday parece dissecar a canção em finas lâminas de pesar e saudade. Louis Armstrong a interpreta com uma candura que nos faz arrancar os pelos do coração.

Agora escuto o solo de trompete de Louis em Sweet Lorraine. Uma sucessão de fraseados límpidos, auxiliada pelo piano de Oscar Peterson, que em qualquer ocasião é uma excelente companhia. Uma força da natureza, como um vulcão ou um urso pardo. Recentemente, um leitor que acompanha minhas modestas crônicas neste espaço mandou uma mensagem na qual descreve o êxtase provocado pela descoberta do pianista numa viagem que fez a Minas Gerais.

Por coincidência, outro leitor também abordou numa mensagem sua paixão pelo maior dos gêneros musicais nascidos no século 20, arrematando: “Quero modestamente crer que sua vinculação com o jazz nos aproxima”. Do alto de minha insignificância, gosto de imaginar que pertencemos a uma pequena confraria de aficionados espalhados pelo mundo. Talvez os derradeiros sobreviventes de uma espécie em extinção, índios dizimados por conquistadores armados de caixas de som gigantes, que lançam no ar doses letais de sertanejo universitário, pop coreano e congêneres.

Em O Jogo da Amarelinha, Cortázar escreveu: “O jazz é como um pássaro que migra ou emigra, que imigra ou transmigra, saltador de barreiras, contrabandista, algo que corre, que se difunde, e esta noite, em Viena, está cantando Ella Fitzgerald, enquanto, em Paris, Kenny Clarke inaugura uma cave e, em Perpignan, os dedos de Oscar Peterson brincam, e Satchmo, por todos os lugares, com o dom da ubiquidade que o Senhor lhe deu, em Birmingham, em Varsóvia, em Milão, em Buenos Aires, em Genebra, no mundo inteiro...”

Ouvir jazz me traz uma valorosa sensação de escapismo e introspecção diante de um cenário externo cada vez mais incompreensível. Outro dia um amigo me cobrou, num grupo de mensagens, que eu comentasse sobre o que acontecia mundo afora. Respondi que precisávamos nos encontrar para desaguar a conversa represada, já que ando enfastiado do blá-blá-blá virtual que invade grupos e postagens nas redes sociais. Como diria Raul Seixas, eu acho tudo isso um saco. Não pretendo prescindir da conversa cara a cara, olho no olho, copo após copo que só uma mesa de bar proporciona.

Vai longe o tempo em que tinha à disposição o Extudo, o Tesão & Cia, o Sancho Pança, recantos sagrados de uma boemia irrefreável na Salvador do início dos anos 90. Bastava até mesmo um boteco ordinário, com uma cerveja gelada em meio às cinzas da madrugada, para molhar as palavras e instigar novas e velhas elucubrações. Vai longe, também, o tempo do Puppy, meu paraíso particular, onde marcava ponto quase todas as noites após deixar a faculdade de jornalismo nos meus anos paulistanos. O mundo se descortinava naquelas mesas de plástico à sombra das raparigas em flor.

Mas volto ao jazz e a Coltrane, que enveredava pelo sagrado se embrenhando em longos transes de acordes dissonantes e camadas de sons sobrepostas para voltar à tona saciado e redimido. É um álbum pouco conhecido, do qual gosto bastante, chamado Crescent, com uma sonoridade ora contemplativa, ora um rompante de solos impiedosos. Nele temos o quarteto clássico que engendrou as obras seminais do saxofonista, com McCoy Tyner ao piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria.

Não esqueço do dia em que estive diante de McCoy, então já velho e alquebrado, mas ainda fenomenal, em um show no Teatro Castro Alves, lá se vão quase 14 anos. Vimos – eu e um amigo jornalista que me convidara – o show de trás do palco, bem perto dos músicos. Ao final, McCoy passou por nós, sorriu e nos cumprimentou. Sim, eu apertei a mão do homem que acompanhou Coltrane quando este concebeu A Love Supreme. Mesmo que de forma indireta, foi certamente o mais próximo que estive de um deus.