Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Paulo Sales
Publicado em 5 de abril de 2026 às 08:00
Talvez pela proximidade da Semana Santa (ou, mais provavelmente, sem qualquer relação com ela), me voltou à mente após muito tempo o dia em que fiz a minha primeira e única confissão. Tinha por volta de oito anos e era um garoto tímido e gordinho, sem traquejo para me relacionar com os colegas de escola. Integrando os preparativos para a primeira eucaristia, a confissão reuniu numa igreja dezenas de crianças angustiadas com a possibilidade de encarar um estranho vestido de batina e contar a ele seus segredos mais íntimos. >
Por sorte, o padre com quem me confessei era um senhor simpático e de boa conversa. Tenho dele uma vaga lembrança: calvo, alto e ligeiramente encurvado. Inventei pecados que não cometi, como dizer que batia no meu irmão mais novo e vivia brigando com meus irmãos, algo que raramente acontecia. Ele me deu alguns conselhos e em seguida fui liberado, sem precisar rezar nenhuma sequência de pais-nossos e ave-marias. Saí aliviado e encarei os temerosos penitentes que aguardavam a sua vez.>
Estudava no Liceu Salesiano, um colégio de padres no bairro de Nazaré, com uma área extensa ao fundo repleta de quadras e campos de futebol. Eu detestava esse colégio e quase todos os meus colegas, com exceção de um único amigo chamado Ronaldo, gordinho como eu, e de Edith, garotinha magra de óculos que foi minha primeira paixão. Antes da primeira eucaristia, tive aulas de religião no turno vespertino, oposto ao das disciplinas convencionais. Gostava de frequentar essas aulas porque me davam uma sensação de independência, mesmo que o assunto pouco me interessasse.>
Recentemente, peguei no apartamento de minha família o álbum da primeira eucaristia, presente de minha tia avó e madrinha. Há nele diversas fotos minhas vestido de calça preta, sapato social e uma austera camisa amarela de manga comprida abotoada até a gola, com o crucifixo à mostra sobre o peito. Lá estou eu, quase sempre sisudo, ao lado dos meus pais, irmãos, avós, tia, prima e vizinhas. O mais divertido são as frases que escrevi, garranchos quase ilegíveis, respondendo a perguntas contidas no álbum. Uma delas diz: “Obrigado, Senhor, eu não merecia tanto assim”.>
A frase carrega um tom devocional que não corresponde ao que recordo ter sentido antes, durante ou depois da cerimônia. Não havia em mim nenhuma espécie de fervor pelo sagrado. Já naquela época, frequentar a igreja e assistir às missas era um calvário. Cerimônias intermináveis, vocabulário inalcançável. Eu costumava me perguntar o que significava “Hosana nas alturas”, mantra repetido à exaustão pelo padre e pelos fiéis, minha mãe incluída. Os rituais de ajoelhar-se para rezar e dar as mãos a estranhos me faziam querer dar o fora dali. Ansiava voltar logo para minhas revistinhas do Tio Patinhas e meus bonequinhos de plástico.>
Era, de qualquer modo, um período em que eu ainda cria em Deus. Uma crença incipiente e um tanto postiça, em grande parte fruto da influência de minha mãe, mas ainda assim uma forma de devoção. O momento-chave da minha conversão ao ateísmo só veio mais tarde, em torno dos 13 anos, quando uma prima foi diagnosticada com um tumor no cérebro. “Um tumor benigno de localização maligna”, como costumava repetir minha mãe, provavelmente replicando a fala de algum médico.>
A doença da minha prima mobilizou a família: parentes se reuniam com frequência lá em casa e uma boa soma foi arrecadada para custear o tratamento. Tudo de possível foi feito: desde viagens a São Paulo para consultas e cirurgias com médicos famosos até apelos dos mais diversos às forças do além. Minha prima acabou morrendo com apenas 12 anos. Naquele momento, ficou claro que todo o clamor por misericórdia que encaminhávamos aos céus era recebido com a mais absoluta indiferença.>
Com o correr das décadas, minha aflição crônica diante da finitude se converteu em resignação e desalento. Sei que há algo que não fecha, como naquele poema de Ferreira Gullar no qual ele diz que à vida falta uma porta. Não sou o primeiro, muito menos o último, a encarar essa incompletude. Nunca mais voltei a me confessar, nem mesmo nos confessionários modernos que são as sessões de terapia. Talvez precisasse desse embate comigo mesmo, mas é certo que abriria a tampa do bueiro onde se escondem os meus monstros mais aterradores. Melhor deixá-los onde estão.>