O mundo dos sons para os autistas: singularidades e autosuperação

Jornalista explica a intensificação da percepção sonora nos autistas

Publicado em 29 de março de 2024 às 16:00

Adriana Nogueira sempre investiu nas experiências multissensoriais do filho
Adriana Nogueira sempre investiu nas experiências multissensoriais do filho Crédito: Acervo pessoal

Os sons estão em todo lugar, é como ouvimos e sentimos o mundo e as pessoas, suas vozes e ruídos. Faz parte da condição sensorial humana, do que pode ser percebido pelos sentidos. No autismo há uma intensificação dessa percepção e, com muitas singularidades auditivas, quem se adapta vive melhor, seguindo a sabedoria da máxima do naturalista e biólogo britânico, Charles Darwin: "Não é o mais forte que sobrevive nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

Os efeitos da qualidade ou ausência dela no universo da escuta tão particular de uma pessoa que nasceu dentro do espectro do autismo (TEA) terão um importante impacto na constituição da subjetividade e no desenvolvimento do seu cérebro social, afetando a sua linguagem, comunicação e interação social. O mundo dos sons para os autistas é muito diverso, cada um sente e interpreta do seu jeito. Assim como eles podem reagir aos estímulos multissensoriais de formas completamente diferentes. É preciso entender esses efeitos para avaliar, adaptar, mudar e buscar outros caminhos com esse aprendizado.

Experimentar um novo olhar e explorar sair da zona de conforto, com toda segurança de uma rede de apoio, é fundamental para uma jornada de autossuperação. As famílias atípicas que entendem essa condição e se desprendem de padrões anteriores terão maiores oportunidades de seguir em frente pelos caminhos possíveis: de comportamentos, sentimentos, expressões e convivência social sujeitos aos desafios do cotidiano da vida real, sem se restringir aos muros invisíveis do amor e da proteção maternal ou hesitar com os olhares da sociedade. Afinal, o autismo não define quem uma pessoa é, seu potencial, personalidade ou neuroplasticidade.

O enfrentamento dessas vulnerabilidades, especialmente quando apresentadas de forma planejada e interessante, também pode levar o indivíduo autista a crescer sabendo um pouco mais, a cada experiência, sobre si mesmo, o mundo e as pessoas, aprendendo a lidar com sua condição como criança, adolescente e adulto com o máximo possível de autonomia e independência, com suas barreiras e lições, cada um no seu tempo, estimulando, inclusive, novas ramificações nos hubs cerebrais.

Sempre é possível criar uma nova história. Como a da mãe atípica Alice Amoedo, que descobriu a melhor maneira de se comunicar com seu filho João, não-verbal, e que, ao mesmo tempo, tem paixão por ruídos altos, como os de caixa de som e o da charanga do Esporte Clube Bahia, mas precisa se autorregular para outros sons aleatórios, como a da pronúncia de algumas palavras.

Quem também se adaptou e já tem um maior controle ao se expor às diferentes sonoridades carregadas de sentidos é o filho da mãe atípica Maria Ângela Tochilovsky. Bernardo vem superando as palmas do parabéns, barulhos do liquidificador e do sino da escola, ora se afastando, ora respirando fundo, assim como alguns timbres e prosódias da voz humana. Passou a frequentar os shows da banda do pai e faz questão de ouvir música enquanto pinta como um jovem e expoente artista plástico brasileiro. Ele lança neste 02/04, Dia Mundial da Conscientização do Autismo, sua vernissage individual “Singularidade”, na sede do Grupo Empório, no bairro da Federação, com exposição aberta para visitação até o fim do mês de abril.

Adriana Nogueira é jornalista