Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Thais Borges
Publicado em 1 de novembro de 2014 às 09:36
- Atualizado há 2 anos
O gringo veio parar na Baía (isso mesmo, sem h) e não quis mais ir embora. Soa familiar? Todo mundo sabe de alguém assim, talvez porque esteja até nos livros de história: começou em 1509, quando o português Diogo Álvares Correia sobreviveu a um naufrágio na costa baiana – mais especificamente, onde hoje fica o bairro do Rio Vermelho.>
O moço, que logo recebeu a alcunha de Caramuru pelos tupinambás que aqui moravam, ficou encantado com o que viu: povo receptivo, belas praias e uma paisagem incrível. Naquela época, a Baía de Todos os Santos (BTS) já protagonizava histórias de amor e provocava imigrações.Baía de Todos os Santos é cercada por 17 municípios(Foto: Evandro Veiga)Agora, bem no dia em que a segunda maior baía brasileira completa 513 anos de seu descobrimento - uma expedição liderada pelo português Gaspar de Lemos atracou por aqui no Dia de Todos os Santos de 1501 -, o que não falta é estrangeiro que, assim como o desbravador Diogo, o Caramuru, nem pensa em voltar para sua terra.>
E se eles tentassem, é possível que nem Iemanjá, nem Jorge Amado fossem gostar disso. Pois foi com a bênção dos dois que a pesquisadora bielorrussa Volha Yermalayeva Franco, 25 anos, desembarcou em Salvador, em 2011. “Eu estava estudando português e comecei a ler Jorge. E o livro mais marcante foi Mar Morto, que conta justamente a história das pessoas que vivem graças à baía e a Iemanjá”, contou, referindo-se à obra publicada em 1936.Imagine morar em um lugar que não tem mar! O mar dá a ideia de algo milagroso. A baía é um lugar sagrado, de vida Volha Yermalayeva, comparando a BTS com seu paísDaí, assim que teve oportunidade, deixou a Belarus (até 1991, chamada de Bielorrússia) e veio em direção ao mar da Baía de Todos os Santos, que, por sinal, é bem raso, com profundidade média de 6 metros. “Imagine morar a vida inteira em um lugar que não tem mar! Mar, para mim, dá uma ideia de algo milagroso, sagrado. Por isso, a baía, para mim, é um lugar sagrado, de vida”.O australiano Richard James, rebatizado pelo mar da BTS há 13 anos(Foto: Arisson Marinho)Em casa>
Entre uma filosofia e outra, ela fotografa a paisagem que vê de sua janela, em um apartamento no Dois de Julho. Em seu Facebook, já são mais de 100 fotografias do pôr do sol na BTS. “Eu tento ver o pôr do sol todos os dias, porque é a coisa mais linda da natureza. Até no resto do Brasil é difícil ver, porque a gente vê mais o nascer do sol, mas na baía, temos esse privilégio”.>
Hoje, casada com um baiano e cursando mestrado em Restauro e Conservação na Universidade Federal da Bahia (Ufba), Volha nem pensa em voltar ao país que era parte da antiga União Soviética. “Se meu marido falasse que quer morar lá, eu ia sofrer, mas iria. Por sorte, ele quer ficar, porque finalmente me sinto em casa”. >
E como amor não tem explicação, Volha não foi a única que se caiu de amores pela BTS antes mesmo de conhecê-la. O argentino Baltasar Flores, 38, viu fotos da Ilha de Itaparica depois que sua mãe e sua tia retornaram a Buenos Aires de uma viagem à Bahia, há pouco mais de 20 anos. “Foi paixão à primeira vista por foto mesmo. Resolvi que minha próxima viagem seria para cá”, lembrou Baltasar, que não resistiu e se mudou para Mar Grande, em Vera Cruz.A bielorrussa Volha Yermalayeva, para quem a baía é lugar sagrado(Foto: Evandro Veiga)Desde então, passou anos entre idas e vindas e até tentou se aventurar em outras cidades brasileiras, como Natal, Rio de Janeiro e Florianópolis - mas percebeu que seu lugar era na Bahia (e na baía) mesmo.>
“Sempre gostei de viajar e escolhia lugares paradisíacos. Mas adotei a Bahia como minha terra e aqui, na Ilha, é um ponto de equilíbrio. Não é um calor extremo e também não é frio. A geografia, a paisagem, que é um pouco de África com coqueirais, é maravilhosa”. Baltasar, que é dono do Pastel do Argentino, disse sem medo: adiós, Buenos Aires. >
Deu casamento >
E se Caramuru pudesse conhecer seus descendentes do século XXI, ele ficaria orgulhoso. Assim como Diogo se apaixonou pela índia Paraguaçu (que depois virou Catarina), muitos dos gringos que vivem em algum dos 17 municípios que compõem a BTS acabaram casando por aqui. Foi o caso do comerciante italiano Giovanni Tachilo, 65, que está em Madre de Deus desde 1994. >
“Conhecidos me falaram que era uma cidade muito bonita e eu decidi vir. Quando cheguei aqui, me apaixonei pelas belezas naturais e pela minha esposa, que é uma delas”, brincou. No mesmo ano, se mudou. “Minha esposa tem vontade de morar na Itália, mas eu gosto daqui. Sinto saudades das minhas irmãs que ficaram lá, mas com Skype a gente se resolve”. >
O chef australiano Richard James, 33, também acabou casando com uma baiana que conheceu em alguma das vezes que passou por aqui desde 2001. Natural de Sunshine Coast, no estado de Queensland, ele reside em Salvador desde 2011. “Me apaixonei pelas praias em geral. No Porto da Barra, gosto de dar uma relaxada e ver o pôr do sol. Também gosto muito de dar uns pulos nas ilhas e de pescar nas comunidades locais”.>
Apesar dos contrastes entre Brasil e Austrália, ele também se sente em casa. “Sinto falta da segurança da minha terra, mas me sinto bem aqui, amo essa bagunça boa e o jeito relaxado de ser”, diz o responsável pelo menu dos restaurantes Riz e Yellow.>
Bienvenue >
Apesar de ser português, Diogo, o Caramuru, chegou aqui em um navio francês e administrava as relações comerciais com os franceses da região da Normandia. Por isso, nada mais justo do que dizer que a França é aqui... Ou, pelo menos, a casa do antropólogo francês Xavier Vatin, 43, professor da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), é em Cachoeira.>
“A Bahia começa aqui (na baía) e, de certo modo, o Brasil também. Aqui em Cachoeira, tem toda a beleza do Rio Paraguaçu e toda a região tem uma vida cultural muito rica. Me apaixonei pela musicalidade e pela africanidade”, disse ele, que mora em Cachoeira desde 2006, mas viveu entre Paris e a Bahia desde 1992. >
Em Maragogipe, o também francês Jean Savalle, 57, chegou há quatro anos e acabou conhecendo a baiana que hoje é sua esposa. “A Bahia, para os franceses, é um sonho. Todos dizem que querem vir para cá. Aqui é diferente do Sul do Brasil. Costumo dizer que existem dois Brasis. O Sul, onde as pessoas são frias, e a Bahia”. Não foi à toa que ele veio para cá.>